COP30 em Belém começa hoje com desafio de sensibilizar lideres mundiais

A conferência climática das Nações Unidas acontece pela primeira vez na floresta tropical e coloca o Brasil como protagonista na transformação de ativos sustentáveis

Por Por Alterir Câmara-
13 Min

COP30 em Belém começa hoje com desafio de sensibilizar lideres mundiais
Lideres posam para a foto de familia durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas COP 30. Foto de Hermes Caruzo/COP30

A capital paraense recebe a partir de hoje cerca de 50 mil visitantes do mundo inteiro, quando oficialmente se inicia a 30ª Conferência do Clima da ONU. Este momento representa muito mais do que um evento internacional de grande porte — marca a primeira vez na história que a discussão sobre o futuro do planeta acontece no coração da maior floresta tropical do mundo.

Diplomatas, cientistas, líderes governamentais, ativistas ambientais e representantes empresariais convergem para a região amazônica em um encontro que durará duas semanas e promete ser decisivo para os rumos da ação climática global.

A Cúpula de Líderes, encerrada na última sexta-feira (7), já sinalizou os contornos políticos que devem guiar as negociações: acelerar a substituição dos combustíveis fósseis por energias renováveis, aumentar o volume de recursos destinados às ações climáticas e fortalecer a proteção das florestas tropicais.

As expectativas são altas. Diferentemente das edições anteriores realizadas em centros urbanos distantes das realidades ambientais mais críticas, desta vez os negociadores estarão imersos no ecossistema que representa simultaneamente uma das maiores esperanças e um dos maiores riscos para o equilíbrio climático do planeta.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi enfático ao destacar essa diferença simbólica: discutir a Amazônia dentro da própria Amazônia, cercado pelos povos que a habitam e pela biodiversidade que ela abriga.

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Brasil assume protagonismo global na agenda climática

O país chega à conferência com uma ambição clara: consolidar-se como mediador entre nações desenvolvidas e economias emergentes, demonstrando que é possível conciliar desenvolvimento econômico com preservação ambiental. Essa posição estratégica não surge do acaso — ela reflete tanto os avanços obtidos na redução do desmatamento quanto a capacidade diplomática que o Brasil historicamente demonstra em fóruns multilaterais.

Durante a Cúpula de Líderes, o governo brasileiro apresentou o Compromisso de Belém pelos Combustíveis Sustentáveis, conhecido como Belém 4X. A iniciativa, desenvolvida em parceria com Itália e Japão, estabelece como meta quadruplicar o uso global de combustíveis sustentáveis até 2035, com monitoramento anual conduzido pela Agência Internacional de Energia. Trata-se de uma aposta estratégica: reconhecer que a eletrificação, embora fundamental, não conseguirá sozinha descarbonizar setores como transporte pesado, aviação e indústrias de alta intensidade energética.

Essa abordagem, contudo, não está isenta de críticas. Organizações ambientais alertam que priorizar combustíveis sustentáveis pode criar uma falsa sensação de avanço enquanto posterga a redução efetiva da dependência de petróleo. O licenciamento de novos blocos de exploração petrolífera na margem equatorial, anunciado poucos dias antes da conferência, adicionou combustível a esse debate e gerou questionamentos sobre a coerência entre discurso e prática.

Três pilares estruturam as discussões em Belém

As negociações concentram-se em três eixos fundamentais. O primeiro é a transição energética, tema que o Brasil pretende transformar em um "mapa do caminho" concreto — expressão utilizada para designar planos de ação que estabelecem etapas, prazos e responsabilidades específicas de cada nação na substituição gradual dos combustíveis fósseis por fontes renováveis.

Essa não é uma tarefa simples. Requer garantir que a transição seja justa e ordenada, considerando as diferentes capacidades econômicas e tecnológicas dos países. A presidência brasileira trabalha para converter o acordo firmado em Dubai, durante a COP28, em um compromisso verificável, com metas mensuráveis e mecanismos de acompanhamento rigorosos.

O segundo pilar é a adaptação climática. O Objetivo Global de Adaptação representa uma tentativa de mensurar o quanto cada país está se preparando para enfrentar os impactos já inevitáveis das mudanças climáticas. Este instrumento faz parte do Marco UAE-Belém para Resiliência Climática Global e é considerado essencial para identificar quais nações conseguem se adaptar adequadamente e quais estão ficando vulneráveis.

O terceiro pilar, talvez o mais controverso e decisivo, é o financiamento climático. Os países em desenvolvimento chegam a Belém com uma reivindicação clara e contundente: não é possível continuar tratando a crise climática como algo separado da arquitetura econômica global. O Roteiro de Baku a Belém estabelece a meta de mobilizar 1,3 trilhão de dólares anualmente até 2035, com condições que incluam juros baixos, mais doações e menos endividamento.

Fundo de Florestas Tropicais propõe novo modelo financeiro

Uma das propostas mais inovadoras apresentadas pelo Brasil é o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF). Diferentemente dos modelos tradicionais baseados em doações, este mecanismo utiliza investimentos em ativos sustentáveis de renda fixa para gerar recursos permanentes destinados à conservação florestal.

O funcionamento é relativamente direto: o capital investido é aplicado em uma carteira diversificada de ativos de longo prazo, com diferentes graus de risco. Os lucros dessas aplicações são distribuídos entre os investidores e os países que mantêm suas florestas preservadas. O Brasil busca atrair principalmente recursos de nações europeias como Reino Unido, França, Alemanha e Noruega.

Desenvolvido em parceria com Colômbia, Indonésia, Malásia, Gana e República Democrática do Congo — países que concentram as maiores áreas de florestas tropicais do planeta —, o fundo tem como meta alcançar 125 bilhões de dólares, sendo 25 bilhões provenientes de governos nacionais e 100 bilhões do setor privado. Até o momento, já foram anunciados aportes superiores a 5,5 bilhões de dólares.

Mercado de carbono ganha regulação e integração global

Paralelamente ao TFFF, o Brasil apresenta outra iniciativa estratégica: a Coalizão Aberta para Integração dos Mercados de Carbono. Liderada pelo Ministério da Fazenda, a proposta busca harmonizar padrões e conectar diferentes sistemas nacionais de comércio de créditos de carbono, criando liquidez, previsibilidade e transparência em um setor que até agora opera de forma fragmentada.

A adesão é voluntária, mas já conta com participantes de peso. China e União Europeia assinaram o compromisso durante os primeiros dias da conferência, somando-se a Alemanha, Armênia, Canadá, Chile, França, México, Reino Unido e Zâmbia. Juntos, esses mercados representam uma parcela significativa da economia global e podem estabelecer um padrão de qualidade que atraia outras nações interessadas em evitar barreiras comerciais relacionadas às emissões de carbono.

O contexto brasileiro favorece essa liderança. Em dezembro de 2024, foi sancionada a Lei nº 15.042, que criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE). Este marco regulatório coloca o país em um grupo seleto de nações que possuem legislação específica para mercados regulados de carbono, fortalecendo sua credibilidade internacional.

No mercado regulado, empresas que emitem menos gases poluentes do que os limites estabelecidos podem vender seus créditos excedentes para aquelas que ultrapassam as cotas permitidas. A transformação de ativos sustentáveis em instrumentos financeiros negociáveis cria incentivos econômicos diretos para a descarbonização, internalizando o custo ambiental da produção.

Desafios numéricos revelam lacuna de ambição

Apesar do simbolismo positivo de sediar a conferência na Amazônia e das propostas inovadoras apresentadas, os números revelam desafios significativos. Até o início da COP30, apenas 109 dos 194 países participantes da Convenção do Clima haviam apresentado suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) — as metas climáticas que cada nação se compromete a alcançar.

Esse número é considerado tímido para uma conferência que marca os dez anos do Acordo de Paris, o tratado mais importante já firmado para combater o aquecimento global. As 64 NDCs apresentadas até setembro cobrem apenas 30% das emissões globais e, somadas, colocam o mundo em rota para reduzir as emissões projetadas em apenas 4% até 2035 — muito aquém dos 60% necessários para manter viva a meta de limitar o aquecimento a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.

A Índia, uma das maiores economias emergentes e grande emissora de gases de efeito estufa, não compareceu à Cúpula de Líderes nem apresentou suas metas atualizadas. O país mantém resistência em assumir obrigações mais rígidas e continua dependendo fortemente do carvão como fonte energética. Para o secretário-geral da ONU, António Guterres, muitos líderes permanecem "reféns de interesses consolidados" e há apenas duas opções: "liderar ou ser levados à ruína".

Contexto climático reforça urgência das negociações

Os dados científicos mais recentes reforçam a urgência das discussões. Segundo o observatório europeu Copernicus, outubro de 2025 foi o terceiro outubro mais quente já registrado no planeta, com temperatura média global de 15,14°C — 0,7°C acima da média de 1991 a 2020 e 1,55°C acima do período pré-industrial. Por causa desse recorde e dos meses anteriores, 2025 deve encerrar entre os três anos mais quentes da história.

No Brasil, os impactos se tornaram mais evidentes. O número de tornados registrados no país vem aumentando consistentemente nos últimos anos. A presidência da COP30 publicou uma carta às vésperas da abertura alertando que a floresta amazônica se aproxima de um ponto de colapso e defendendo a adoção de "freios de emergência globais".

Infraestrutura e logística em Belém

Transformar Belém em sede da maior conferência climática já realizada pela ONU exigiu investimentos superiores a 4 bilhões de reais do governo federal. As obras incluíram a revitalização do Porto Futuro 2, a construção da Nova Ponte de Outeiro, melhorias no Aeroporto Internacional de Belém, sistemas de macrodrenagem e esgotamento sanitário, além da Vila Líderes que, após a conferência, servirá como sede administrativa do governo estadual.

A capacidade hoteleira limitada da cidade obrigou a adoção de soluções criativas. Dois navios de cruzeiro foram contratados emergencialmente e estão atracados no Porto de Outeiro, abrigando delegações de 66 países — sendo 56 custeadas pela ONU. Os preços de hospedagem dispararam, quase inviabilizando a presença de países em desenvolvimento, uma situação que gerou críticas e preocupações sobre acessibilidade e inclusão.

Sociedade civil e movimentos sociais marcam presença

Além das negociações oficiais na chamada "Zona Azul", onde circulam diplomatas e representantes governamentais credenciados, a sociedade civil organiza intensa programação paralela. A Cúpula dos Povos, composta por mais de mil organizações e coletivos, reúne movimentos sociais, povos indígenas, quilombolas, comunidades tradicionais e agricultores familiares.

Uma flotilha indígena chegou a Belém trazendo representantes de diversos países da América Latina. Na lateral de uma das embarcações, uma faixa com os dizeres "Amazônia livre de petróleo" sintetizava a posição de diversos grupos ambientalistas que questionam a coerência das políticas governamentais.

Uma grande marcha pelo clima está programada para o primeiro sábado da conferência, dia 15 de novembro. Após três edições consecutivas da COP realizadas em países com regimes autoritários (Egito, Emirados Árabes Unidos e Azerbaijão), a realização em território democrático permite maior liberdade de expressão e mobilização social.

Expectativas para os resultados finais

Os resultados esperados da COP30 vão além de declarações políticas de intenção. A conferência é vista como momento decisivo para transformar consensos construídos em anos anteriores em ações concretas e mensuráveis. O primeiro resultado esperado é o avanço significativo nas metas climáticas nacionais, com compromissos mais ambiciosos, prazos definidos e mecanismos de revisão mais rigorosos.

O segundo resultado esperado é dar forma ao "mapa do caminho" da transição energética, estabelecendo um roteiro político e técnico que defina responsabilidades, etapas e prazos para cada país na substituição dos combustíveis fósseis. A ministra Marina Silva foi direta ao afirmar que "não existe como falar de COP da implementação se não tivermos os meios para isso".

O terceiro resultado esperado envolve a aprovação de mecanismos efetivos de financiamento climático, que garantam recursos estáveis e previsíveis para países em desenvolvimento. Sem dinheiro em escala, metas de descarbonização e adaptação permanecem no campo das boas intenções.

Organizações ambientais defendem que a conferência também precisa entregar dois mapas adicionais: um sobre eliminação progressiva dos combustíveis fósseis e outro sobre desmatamento zero. "Belém pode, na melhor hipótese, deixar um importante legado para a sociedade brasileira ao causar um efeito catalisador da ação climática", avalia o Observatório do Clima.

Brasil como ponte entre Norte e Sul Global

A estratégia brasileira para a COP30 vai além de apresentar propostas específicas. O país posiciona-se como mediador natural entre economias desenvolvidas e nações em desenvolvimento, aproveitando sua condição única de grande economia emergente que também é guardião de patrimônio ambiental inestimável.

Essa posição foi fortalecida pelo uso estratégico da presidência do G20 em 2024 e do BRICS em 2025 para antecipar discussões climáticas em fóruns decisórios multilaterais. Durante a 17ª Cúpula do BRICS no Rio de Janeiro, em julho de 2025, foi anunciada a Declaração-Marco sobre Finanças Climáticas, comprometendo-se a destinar 40% dos financiamentos do Novo Banco de Desenvolvimento a projetos climáticos até 2026.

O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, admitiu em coletiva de imprensa que ainda há muitos obstáculos a superar. Carolina Pasquali, diretora executiva do Greenpeace Brasil, resume o sentimento de urgência: "Estamos à beira de pontos de inflexão climáticos e da potencial perda da Amazônia, então esta COP precisa, simplesmente, promover a mudança urgente necessária. Não há segunda chance."

As duas semanas em Belém dirão se a humanidade consegue finalmente alinhar urgência científica, vontade política e recursos financeiros na escala necessária para enfrentar a maior ameaça do século XXI.


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