Brasil consegue US$ 5,5 bilhões para florestas tropicais durante Cúpula de Líderes

Fundo Florestas Tropicais para Sempre reúne 53 países e inaugura novo modelo de financiamento climático que remunera conservação ambiental com justiça para povos indígenas

Por Por Altair Câmara-
13 Min

Brasil consegue US$ 5,5 bilhões para florestas tropicais durante Cúpula de Líderes
Em almoço na Cúpula do Clima de Belém, presidente Lula recebe líderes de mais de 30 países. Foto: Alex Ferro/COP30

O Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) foi oficialmente lançado nesta quinta-feira (6) durante a Cúpula do Clima de Belém, marcando uma transformação histórica na forma como o mundo financia a conservação ambiental. Com adesão de 53 países e investimentos iniciais que ultrapassam US$ 5,5 bilhões, a iniciativa brasileira inaugura uma nova era de colaboração global entre capital público e privado para proteger os ecossistemas tropicais mais críticos do planeta.

O lançamento reuniu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, líderes de mais de trinta países, o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, e representantes do Banco Mundial na capital paraense. A cerimônia aconteceu no coração da Amazônia, região que simboliza a urgência climática e abriga aproximadamente um terço das florestas tropicais mundiais.

"É uma iniciativa inédita. Pela primeira vez na história, os países do Sul Global terão protagonismo em uma agenda de florestas", declarou o presidente Lula durante o almoço de lançamento. Ele enfatizou que o TFFF representa uma mudança de paradigma ao reconhecer que "as florestas valem mais em pé do que derrubadas e deveriam integrar o PIB dos nossos países".

Noruega lidera com aporte de US$ 3 bilhões

Os compromissos financeiros anunciados surpreenderam pela magnitude e diversidade de origens. A Noruega assumiu a liderança ao comprometer US$ 3 bilhões para os próximos dez anos, condicionados a critérios específicos de conservação. O compromisso norueguês representa mais da metade dos recursos captados no primeiro dia e consolida o país escandinavo como principal parceiro da iniciativa.

A França indicou investimentos de até US$ 577 milhões até 2030, conforme determinadas circunstâncias. Brasil e Indonésia reafirmaram compromissos de US$ 1 bilhão cada, demonstrando que países em desenvolvimento também assumem papel protagonista no financiamento climático. Portugal anunciou aporte de US$ 1 milhão, enquanto a Alemanha endossou integralmente o TFFF com compromisso financeiro a ser definido em reunião bilateral com o presidente Lula.

"Este é um dia histórico para todo o nosso planeta. Apenas dois anos após a concepção inicial desta ideia, dezenas de países se uniram para apoiar o TFFF", afirmou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Ele destacou que a inovação sem precedentes na arquitetura financeira internacional reunirá capital soberano e privado em um mecanismo robusto e de longo prazo.

Leia Também

Arquitetura financeira revoluciona conservação florestal

O diferencial do TFFF reside em sua estrutura inovadora que rompe com o modelo tradicional de doações. O fundo funcionará como um mecanismo de investimento que combina retorno financeiro para investidores e benefícios concretos para meio ambiente e sociedade. Não se trata de filantropia, mas de uma lógica de mercado aplicada à conservação.

A meta de médio prazo é alcançar um fundo de US$ 125 bilhões, combinando US$ 25 bilhões em capital soberano de países patrocinadores e US$ 100 bilhões de investidores institucionais privados. A arquitetura híbrida estabelece proporção de 1 para 4: para cada dólar aportado por governos, espera-se mobilizar cerca de quatro dólares do setor privado.

"Não é doação, mas uma iniciativa que opera com lógica de mercado, alavancando recursos privados a partir de investimentos diversos", explicou a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva. Segundo ela, trata-se de uma nova forma de financiar a conservação, com responsabilidade compartilhada e visão de futuro.

Pagamento por resultados monitora preservação via satélite

O mecanismo de funcionamento do TFFF é engenhoso em sua simplicidade. O fundo captará recursos no mercado a juros reduzidos, aproveitando a classificação como ativo de baixo risco. Esses recursos serão reinvestidos em projetos com maior taxa de retorno, gerando lucro. A diferença entre o rendimento obtido e o custo do capital será repassada aos países com florestas tropicais, proporcionalmente à área preservada.

Os pagamentos aos países serão baseados em dados de sensoriamento remoto via satélite que monitoram anualmente a cobertura florestal de forma transparente e de baixo custo. O valor para cada hectare conservado será de US$ 4, mas os repasses poderão ser cortados ou reduzidos com base nos resultados das avaliações.

Foram identificados 74 países elegíveis para se beneficiar do fundo. Juntas, essas nações abrigam mais de 1 bilhão de hectares de florestas tropicais e subtropicais. Áreas verdes que podem receber investimentos substantivos incluem a Amazônia, a Mata Atlântica, a Bacia do Congo, a região do rio Mekong e a ilha de Bornéu, na Ásia.

Justiça climática garante 20% dos recursos para indígenas

Uma das características mais revolucionárias do TFFF é a alocação obrigatória de pelo menos 20% dos pagamentos para povos indígenas e comunidades locais. A medida representa conquista histórica no reconhecimento do papel essencial desses guardiões na proteção das florestas e marca passo decisivo rumo à equidade climática.

"O TFFF reconhece, com justiça e coragem, o papel essencial dos povos indígenas e comunidades tradicionais na proteção das florestas. Garantir que pelo menos 20% dos recursos cheguem diretamente a esses guardiões é uma conquista histórica", frisou a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara.

A forma de aplicação dos recursos destinados às comunidades tradicionais será definida pelos governos nacionais em articulação com essas populações, garantindo a soberania dos países e o respeito aos saberes ancestrais. No Brasil, a verba poderá fortalecer iniciativas como o Bolsa Verde, a Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais e ações de incentivo à bioeconomia.

Governança paritária equilibra poder decisório

O sistema de governança do TFFF inova ao estabelecer paridade entre países florestais e investidores no conselho diretor. A estrutura garante que as nações que abrigam florestas tropicais tenham voz equivalente aos países financiadores nas decisões estratégicas do fundo.

"O TFFF reflete a visão diplomática do Brasil, fundada na convicção de que os países tropicais sabem como conservar suas florestas", afirmou o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira. Ele destacou que o fundo empodera essas nações ao oferecer fonte estável e de grande escala de recursos para sustentar políticas ambientais de longo prazo.

Não é coincidência que os dois primeiros países a confirmar investimentos no mecanismo sejam nações em desenvolvimento — Brasil e Indonésia. O gesto simboliza mudança no equilíbrio de poder das negociações climáticas, colocando o Sul Global no centro das soluções para a crise ambiental.

Cobertura florestal abrange 90% das florestas tropicais

A adesão expressiva ao lançamento do TFFF demonstra consenso internacional sobre a urgência da ação climática. Ao todo, 34 países com florestas tropicais endossaram a Declaração do fundo, cobrindo quase 90% das florestas tropicais em países em desenvolvimento. Entre os signatários destacam-se Indonésia, República Democrática do Congo e China.

"É com grande satisfação que reunimos, no primeiro dia, países que detêm mais de 90% das florestas tropicais do mundo, incluindo países de todos os continentes e principalmente das três principais bacias que detêm as florestas tropicais: a bacia Amazônica, a bacia do Congo e a bacia do Sudeste Asiático", afirmou o embaixador Maurício Lyrio, secretário de Clima, Energia e Meio Ambiente do Ministério das Relações Exteriores.

Entre os 53 signatários, há 19 potenciais investidores e 34 países em desenvolvimento que seriam beneficiários. Em conjunto, as bacias do Amazonas, do Congo e do Bornéu-Mekong detêm mais de 90% da cobertura de florestas tropicais globais, tornando a adesão desses países fundamental para o sucesso da iniciativa.

Critérios ambientais rigorosos excluem combustíveis fósseis

O compromisso ambiental do TFFF vai além da conservação florestal. A alocação de investimentos excluirá atividades com impacto ambiental significativo, como aquelas que causam desmatamento e emissões de gases de efeito estufa. O fundo não investirá em atividades relacionadas a carvão, turfa, petróleo ou gás natural.

"A alocação de recursos deve apoiar, ou ao menos não prejudicar significativamente, os objetivos centrais do TFFF", estabelece a declaração de lançamento. A regra garante coerência entre os meios e os fins da iniciativa, evitando que recursos destinados à conservação acabem financiando indiretamente atividades destrutivas.

O desenho do TFFF foi liderado pelo Brasil em parceria com República Democrática do Congo, Gana, Malásia, Indonésia, Colômbia, Reino Unido, Alemanha, Noruega, França e Emirados Árabes Unidos. O processo de construção contou com valiosas contribuições de povos indígenas e comunidades locais, garantindo que suas perspectivas estivessem incorporadas desde a concepção.

Banco Mundial hospedará secretariado interino

Em outubro, o conselho diretor do Banco Mundial autorizou a instituição a atuar como administradora e hospedar interinamente o Secretariado do TFFF. A decisão confere credibilidade institucional ao fundo e facilita a operacionalização nos estágios iniciais.

Os próximos passos incluem o estabelecimento do Fundo de Investimento Florestas Tropicais (TFIF) em uma jurisdição nacional, abrindo caminho para o início efetivo das operações. O diálogo com investidores potenciais, públicos e privados, continuará até alcançar a meta de US$ 125 bilhões. Investidores filantrópicos também são incentivados a participar.

"O Conselho do Banco Mundial aprovou que irá hospedar o mecanismo financeiro e o Secretariado Interino do TFFF, com base em uma nova filosofia", destacou o presidente Lula. A parceria com instituição de reconhecimento mundial sinaliza seriedade e profissionalismo na gestão dos recursos.

Fundo complementa instrumentos existentes de financiamento

Com estimativas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) indicando que a proteção e restauração de florestas exigirá mobilização de mais de US$ 66,7 bilhões por ano, o TFFF complementará instrumentos existentes de financiamento florestal e preencherá lacuna crítica no panorama financeiro ambiental.

O fundo funcionará em sinergia com programas como o REDD+ (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação florestal), mecanismo desenvolvido no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima para recompensar financeiramente países em desenvolvimento por resultados na redução de emissões.

"Os fundos verdes e climáticos internacionais não estão à altura dos desafios que a mudança climática nos coloca. Foi com esse senso de urgência que, desde a COP28, reunimos um grupo de países de florestas tropicais e países investidores para desenhar esse mecanismo", afirmou Lula.

Potencial para triplicar orçamentos ambientais nacionais

O TFFF tem potencial para multiplicar em duas ou três vezes os orçamentos dos Ministérios do Meio Ambiente nos países com florestas tropicais. O impacto financeiro pode transformar radicalmente a capacidade desses governos de implementar políticas efetivas de conservação e desenvolvimento sustentável.

"Nós sabemos que as florestas tropicais são fonte da estabilidade climática, porque elas retêm carbono e garantem ciclos hídricos — os rios voadores na Amazônia que conhecemos hoje muito bem no Brasil, por exemplo", explicou André Aquino, assessor especial de Economia e Meio Ambiente do Ministério do Meio Ambiente. "Mais de 80% da biodiversidade terrestre de todo o mundo está nas florestas tropicais."

O ministro norueguês do Clima e Meio Ambiente, Andreas Eriksen, ressaltou durante coletiva de imprensa o avanço da cooperação entre nações. "Começo elogiando o imenso trabalho realizado pelo Brasil para chegarmos ao ponto em que nos encontramos agora. Cria-se valor econômico não ao derrubar uma árvore, mas ao permitir que ela permaneça", afirmou.

Apoio internacional consolida legitimidade da iniciativa

O Primeiro-Ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, declarou apoio enfático à iniciativa. "É fundamental deter o desmatamento para reduzir os impactos das mudanças climáticas e limitar a perda de biodiversidade. Não há tempo a perder se quisermos salvar as florestas tropicais do mundo", afirmou o líder norueguês.

O Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, também endossou o lançamento do fundo. Ele enfatizou que as florestas tropicais são vitais para a "estabilidade climática, biodiversidade, resiliência e paz", reforçando a dimensão multifacetada dos serviços ecossistêmicos prestados por esses biomas.

Ed Miliband, Secretário de Estado para Energia e Mudança Climática do Reino Unido, chamou o TFFF de "brilhante proposta brasileira" que representa "uma solução ousada, inspiradora e extremamente promissora para o futuro". Ele destacou que a iniciativa oferece oportunidade para que Norte e Sul globais trabalhem juntos como coalizão de esperançosos e determinados.

Resolução brasileira garante transparência e rastreabilidade

No Brasil, a Resolução CONAMA nº 510/2025, publicada em 16 de setembro, estabelece alicerce nacional para o mecanismo ao padronizar as Autorizações de Supressão de Vegetação (ASV). A norma exige transparência ativa, integração de bases de dados e trilhas de auditoria.

"Todo mundo saberá, de forma pública e rastreável, onde houve supressão autorizada, por quanto tempo e sob quais condicionantes", explicam especialistas. A resolução transforma promessa em prática concreta, sistemas integrados, verificação independente e governança com representantes territoriais sentados à mesa de decisões.

A transparência é fundamental para garantir confiabilidade ao mecanismo e evitar questionamentos sobre a efetividade dos pagamentos. O monitoramento por satélite combinado com governança transparente cria sistema de prestação de contas robusto que aumenta a confiança dos investidores e a legitimidade perante a sociedade civil.

Lançamento em Belém simboliza compromisso amazônico

O lançamento do TFFF em Belém carrega profundo significado simbólico. "É simbólico que a celebração do seu nascimento seja feita aqui em Belém, rodeada de sumaúmas, açaizeiros, andirobas e jacarandás. Em poucos anos, poderemos ver os frutos desse fundo. Teremos orgulho de lembrar que foi no coração da floresta amazônica que demos esse passo juntos", destacou o presidente Lula.

A ministra Marina Silva definiu o momento como "um divisor de águas na história da conservação das florestas tropicais. Pela primeira vez, temos um mecanismo global que reconhece o valor dos serviços ecossistêmicos das florestas e oferece incentivos permanentes para sua preservação. É uma conquista coletiva que coloca o Brasil no centro da construção de soluções climáticas duradouras".

O lançamento do TFFF destaca a urgência da ação coletiva para enfrentar a mudança do clima, proteger a biodiversidade e promover o desenvolvimento sustentável nos países com florestas tropicais, reconhecendo o papel fundamental dos povos indígenas e comunidades locais como guardiões milenares desses ecossistemas essenciais.


  • Ir para GoogleNews
Tags »
Notícias Relacionadas »
Comentários »
Comentar

*Ao utilizar o sistema de comentários você está de acordo com a POLÍTICA DE PRIVACIDADE do site https://portalb4.capital/.