Mineração em alto-mar ameaça cadeia alimentar dos oceanos

Estudo revela que resíduos da extração de minérios no fundo do mar funcionam como "junk food marinha"

Por Por Geisa Silva-
11 Min

Mineração em alto-mar ameaça cadeia alimentar dos oceanos
Peixes nadam em área protegida marinha, ecossistema ameaçado pela mineração em alto-mar. Foto: Ilustração Canva

A corrida global por minérios essenciais à transição energética está levando a indústria mineradora a territórios inexplorados: as profundezas dos oceanos. Enquanto empresas e governos buscam cobre, ferro e zinco em águas que chegam a 5 mil metros de profundidade, cientistas alertam para consequências potencialmente devastadoras que podem comprometer toda a cadeia alimentar marinha.

Um estudo internacional recém-publicado na prestigiada revista científica Nature Communications acende um alerta vermelho sobre os impactos da mineração submarina. Pesquisadores da Universidade do Havaí, nos Estados Unidos, descobriram que o material descartado após a perfuração do fundo oceânico pode confundir e desnutrir microrganismos que sustentam toda a vida marinha, gerando um efeito cascata que atinge desde criaturas microscópicas até grandes predadores comerciais.

"Esses resíduos funcionam como uma espécie de junk food do mar", explica o oceanógrafo Michael Dowd, autor principal da pesquisa divulgada na última quinta-feira (6). A comparação é precisa: assim como alimentos ultraprocessados fornecem calorias vazias aos humanos, os sedimentos da mineração enganam organismos marinhos com partículas que parecem nutritivas, mas não oferecem os nutrientes necessários para sua sobrevivência.

Zona crepuscular marinha sob ameaça de desequilíbrio ecológico

O processo de extração mineral em alto-mar busca nódulos polimetálicos, formações rochosas ricas em metais valiosos localizadas nas planícies abissais. Após trazer esses materiais à superfície, as empresas precisam descartar a água e o sedimento coletados, devolvendo-os ao oceano. O problema surge porque essas partículas têm dimensões similares às que servem de alimento natural para o zooplâncton.

O zooplâncton é um conjunto de pequenos animais microscópicos que habitam a chamada "zona crepuscular" do oceano, região situada entre 200 e 1.500 metros de profundidade. Essa camada intermediária do mar abriga uma extraordinária biomassa e desempenha papel fundamental na transferência de energia entre a superfície e as grandes profundidades oceânicas.

Esses organismos minúsculos formam o elo crítico entre o fitoplâncton (algas microscópicas que realizam fotossíntese) e os animais marinhos de maior porte. Na hierarquia da cadeia alimentar oceânica, o zooplâncton ocupa a posição de consumidor primário, alimentando-se do fitoplâncton e servindo, por sua vez, de alimento para peixes maiores, crustáceos e até baleias.

Leia Também

Impacto atinge 60% dos microrganismos marinhos

A pesquisa analisou dados de um teste de mineração realizado em 2022 no Oceano Pacífico e chegou a conclusões alarmantes. Os resultados indicam que 60% dos organismos do zooplâncton podem ser impactados pela liberação de sedimentos provenientes das operações de extração mineral.

"Se os microrganismos se alimentam desse material, acabam ficando desnutridos — e isso afeta toda a teia alimentar acima deles", detalha Dowd. O comprometimento nutricional do zooplâncton atinge diretamente o micronekton, categoria que inclui pequenos peixes e crustáceos que servem de alimento para espécies de maior porte.

Em um efeito dominó ecológico, a escassez ou a má nutrição desses seres intermediários pode alterar drasticamente o comportamento e a sobrevivência de peixes de alto valor comercial. Espécies como atuns, dourados e outros predadores que se alimentam em grandes profundidades dependem da saúde e abundância desses organismos menores.

Risco de colapso regional irreversível preocupa cientistas

A magnitude dos impactos vai além do que se imaginava inicialmente. "Se a base da cadeia colapsa, o impacto se espalha até o topo", resume Dowd. Embora uma única operação de mineração não cause danos massivos imediatos, o oceanógrafo alerta que várias empresas explorando simultaneamente por anos podem gerar um desequilíbrio regional irreversível.

A maioria dos alertas sobre mineração em águas profundas concentrava-se até recentemente nos danos ao fundo do mar, onde a destruição do habitat é visível e direta. Este novo estudo, porém, amplia significativamente o foco da preocupação ambiental ao demonstrar que os impactos também atingem o meio da coluna d'água, região onde vive grande parte da biomassa oceânica.

Os autores do estudo defendem a necessidade urgente de mais pesquisas para definir onde e como os rejeitos deveriam ser devolvidos ao mar. Surpreendentemente, descartar o material no fundo, em vez da zona intermediária, pode ser igualmente destrutivo, alterando características físicas e químicas da água por distâncias consideráveis.

Alternativas sustentáveis reduziriam necessidade de perfuração oceânica

Diante dos riscos identificados, os pesquisadores destacam alternativas mais sustentáveis que poderiam reduzir drasticamente a necessidade de perfurar o oceano. Entre as opções viáveis estão a reciclagem intensificada de baterias e eletrônicos, o reaproveitamento de resíduos de mineração terrestre e a adoção de modelos de economia circular.

"Elas estão questionando se vale a pena obter alguns minérios em troca de desorganizar a forma como os oceanos funcionam", afirmou a pesquisadora Sheryl Murdock, da Universidade Estadual do Arizona. A cientista sugere que a sociedade precisa avaliar cuidadosamente o custo-benefício real dessa atividade antes de permitir sua expansão comercial.

Um estudo publicado na revista PLOS ONE revelou que as operações de mineração em alto-mar podem aumentar em até 13% os impactos negativos sobre indicadores ambientais, incluindo perda de biodiversidade, poluição e vulnerabilidade costeira. Os efeitos são particularmente preocupantes para comunidades costeiras e Estados Insulares em Desenvolvimento, que já enfrentam desafios relacionados às mudanças climáticas.

Pressão econômica confronta incertezas ambientais

Apesar das incertezas científicas e dos alertas da comunidade ambiental, vários países e empresas já firmaram contratos de exploração com a Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA), órgão vinculado à ONU responsável por regulamentar a atividade em águas internacionais.

Nos Estados Unidos, a administração Trump chegou a acelerar licenças de perfuração no Pacífico, alegando interesse estratégico nos minerais críticos usados tanto em tecnologias verdes quanto em armamentos. A posição americana contrasta com a de 32 países que declararam oposição à mineração submarina, incluindo Canadá, Reino Unido, França, Alemanha, México, Suécia, Dinamarca e Áustria.

Portugal tornou-se pioneiro na Europa ao aprovar em 2025 uma moratória sobre mineração em águas profundas até 2050. A lei portuguesa estabelece proteção jurídica mais robusta que resoluções parlamentares e pode influenciar discussões internacionais sobre o tema.

Riscos vão além da pesca e ameaçam segurança alimentar

De acordo com a bióloga marinha Diva Amon, da Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, o risco transcende a pesca comercial. "Tudo isso pode causar doenças, migrações forçadas e até extinções de espécies. E, dependendo da escala, o impacto pode ser permanente", alertou a pesquisadora.

A preocupação é fundamentada em evidências científicas crescentes. Estudos indicam que a remoção de nódulos polimetálicos causaria perda na integridade das cadeias alimentares e redução significativa da biodiversidade marinha, com risco de impactos em cascata que podem afetar populações de peixes e ameaçar a segurança alimentar de milhões de pessoas.

Tiago Pitta e Cunha, presidente da Comissão Executiva da Fundação Oceano Azul, reforça que os impactos não ficam confinados às profundezas. "O que acontece no fundo do mar não fica no fundo do mar, tem repercussões negativas não apenas na coluna de água, mas em todo o sistema oceânico", explica o especialista.

Sedimentos contaminam coluna d'água em escala gigantesca

A perturbação dos sedimentos marinhos representa uma das maiores ameaças da mineração submarina. "Para além do distúrbio dos sedimentos do fundo e do desaparecimento da biodiversidade, há uma pluma de sedimentos que contamina a coluna de água de uma forma absolutamente gigante", afetando aproximadamente 20% da proteína que os humanos consomem, segundo Pitta e Cunha.

As máquinas utilizadas na mineração em alto-mar são dragas com sistemas de aspiração, além de equipamentos com ultrassom e martelos pneumáticos que fragmentam as rochas para posterior transporte à superfície. O componente da pluma de sedimentos é crítico porque pode elevar a toxicidade e gerar enormes quantidades de material em suspensão, transportado por correntes oceânicas a grandes distâncias.

Além dos impactos diretos, a exploração mineral pode causar distúrbios significativos nos sedimentos marinhos, que acumulam calor e ajudam a regular o aquecimento global. Perturbar essas camadas pode liberar grandes quantidades de carbono armazenado, agravando ainda mais a crise climática que a transição energética busca combater.

Organizações ambientais pedem moratória global

Organizações ambientais de todo o mundo pedem uma moratória global até que os impactos da mineração submarina sejam totalmente compreendidos. O Greenpeace alerta que máquinas gigantescas, que pesam mais do que uma baleia azul, chegarão ao fundo dos oceanos destruindo um bioma extremamente sensível e ainda intocado.

"A poluição sonora e luminosa gerada pela mineração também pode afetar as criaturas marinhas. As baleias, por exemplo, usam o som como principal meio de comunicação e detecção no oceano e podem ser impactadas pela perturbação sonora causada pelas máquinas", explica Enrico Marone, porta-voz do Greenpeace Brasil sobre Oceanos.

O Brasil posicionou-se durante conferências internacionais a favor de uma pausa preventiva de 10 anos na mineração em alto-mar. A posição brasileira soma-se às de Canadá, Finlândia e Portugal, além de empresas como BMW e Volvo que também apoiam a moratória.

Viabilidade econômica questionada por especialistas

Um estudo publicado na revista Ocean Sustainability tentou avaliar a viabilidade econômica da mineração em águas profundas e chegou a uma conclusão surpreendente. A análise indica que apenas as empresas mineradoras teriam lucro com a atividade — e ainda assim por período limitado.

"O único grupo que provavelmente verá algum lucro são as mineradoras, e não será muito", afirma Ussif Rashid Sumaila, professor de economia oceânica e pesqueira na Universidade da Colúmbia Britânica e principal autor do estudo. O pesquisador aponta que a mineração em alto-mar pode aumentar em 11% os riscos econômicos, incluindo violações contratuais e perdas de lucro que afetam diretamente a estabilidade de setores como o de seguros.

O estudo relembra catástrofes ambientais anteriores, como os vazamentos do Exxon Valdez em 1989 e do Deepwater Horizon em 2010, que resultaram em danos ambientais extensos e custos financeiros bilionários para as empresas envolvidas. Esses exemplos servem como alerta sobre os potenciais riscos associados à mineração submarina, especialmente para países em desenvolvimento que podem não ter recursos para lidar com desastres semelhantes.

Futuro dos oceanos em jogo nas próximas decisões

A Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos já emitiu 31 contratos de exploração para empresas que desejam pesquisar o oceano profundo, patrocinados por 14 países, incluindo China, Rússia, Índia, Reino Unido, França e Japão. As decisões tomadas nos próximos anos podem definir a estrutura para mineração comercial em larga escala em áreas ecologicamente importantes.

A área mais cobiçada atualmente é a Zona Clarion-Clipperton (CCZ), no Pacífico, localizada a cerca de 1.770 quilômetros de San Diego, nos Estados Unidos. Esta região abriga vastos depósitos de nódulos polimetálicos e tornou-se o epicentro da disputa entre interesses econômicos e proteção ambiental.

"Sem estudos abrangentes sobre o impacto das práticas de mineração no fundo do mar, o mundo corre o risco de fazer escolhas irreversíveis que podem prejudicar ecossistemas frágeis", alerta Michael Dowd. O cientista enfatiza que o oceano profundo é um dos ambientes menos estudados do planeta, e que abrir espaço para mineração seria um salto no escuro com consequências globais potencialmente catastróficas.


  • Ir para GoogleNews
Tags »
Notícias Relacionadas »
Comentários »
Comentar

*Ao utilizar o sistema de comentários você está de acordo com a POLÍTICA DE PRIVACIDADE do site https://portalb4.capital/.