Cúpula da COP30 avança em Belém com fundo bilionário para florestas

Segundo dia da Cúpula dos Líderes discute transição energética e marca dez anos do Acordo de Paris, enquanto 53 países aderem ao inovador mecanismo de financiamento climático

Por Por Altair Câmara-
9 Min

Cúpula da COP30 avança em Belém com fundo bilionário para florestas
Registro da Cúpula da Amazônia, em Belém (PA), em 2023. Registro

A Cúpula dos Líderes da COP30 retoma nesta sexta-feira (7) suas atividades em Belém, capital do Pará, com uma programação focada em dois dos maiores desafios da humanidade: acelerar a transição energética global e honrar os compromissos climáticos assumidos há uma década. O encontro reúne 57 chefes de Estado e representantes de 143 delegações internacionais no coração da Amazônia, região que se tornou símbolo da luta contra as mudanças climáticas.

O evento preparatório da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima ganhou destaque internacional após o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), na última quinta-feira (6). A iniciativa brasileira captou mais de US$ 5,5 bilhões em seu primeiro dia e recebeu a adesão de 53 países, consolidando-se como uma das maiores transformações no financiamento climático das últimas décadas.

Durante a cerimônia de lançamento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o mecanismo representa uma mudança de paradigma. "Pela primeira vez na história, os países do Sul Global terão protagonismo em uma agenda de florestas", declarou o mandatário. Ele enfatizou que as florestas tropicais devem ser reconhecidas como "infraestrutura viva" da estabilidade climática planetária.

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Arquitetura financeira inovadora transforma conservação em investimento

O TFFF adota uma estrutura financeira que difere radicalmente dos modelos tradicionais de doação. O fundo funciona como um mecanismo de investimento em renda fixa, com previsão de mobilizar R$ 625 bilhões (US$ 125 bilhões) por meio da combinação de aportes governamentais e emissão de títulos no mercado financeiro. Os recursos serão aplicados em ativos globais seguros, gerando rendimentos que compensarão os investidores e criarão um excedente destinado aos países com florestas tropicais.

A Noruega comprometeu-se com o maior aporte individual: US$ 3 bilhões ao longo de dez anos. A Indonésia anunciou US$ 1 bilhão, enquanto a França sinalizou investimentos de até US$ 577 milhões até 2030. O Brasil, idealizador da proposta, já havia comprometido US$ 1 bilhão em setembro, durante evento na sede da ONU em Nova York.

"Não se trata de doação. Os investidores recuperarão seus recursos com remuneração compatível com as taxas médias de mercado", explicou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Segundo ele, o diferencial entre o rendimento obtido e o valor pago aos investidores será distribuído aos países que mantêm suas florestas preservadas, proporcionalmente à área conservada.

Justiça climática garante recursos para povos indígenas

Uma das cláusulas mais inovadoras do TFFF determina que 20% dos recursos destinados a cada país beneficiário sejam direcionados a povos indígenas e comunidades locais. A medida reconhece o papel fundamental dessas populações na conservação ambiental e busca corrigir décadas de exclusão dos sistemas tradicionais de financiamento climático.

"Os povos indígenas tiveram participação ativa na construção desse mecanismo", destacou Sonia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas. Ela enfatizou que a determinação garante não apenas recursos, mas também protagonismo para quem historicamente protegeu as florestas tropicais sem receber reconhecimento adequado.

O fundo proíbe explicitamente investimentos em combustíveis fósseis como carvão, petróleo e gás natural, alinhando-se aos objetivos de descarbonização da economia global. O monitoramento da conservação florestal será realizado por satélites capazes de identificar desmatamento, com pagamentos condicionados à manutenção de taxas abaixo de 0,5% ao ano.

Transição energética e Acordo de Paris dominam agenda do segundo dia

A programação desta sexta-feira começa às 8h com a chegada das delegações. Às 10h está prevista a tradicional foto de família, seguida pela continuidade dos discursos na plenária geral. Na sequência, os líderes participarão de sessões temáticas paralelas que abordarão os pilares centrais da ação climática global.

"Para este segundo dia de Cúpula dos Líderes esperamos ambição e caminhos. Caminhos para a transição energética e ambição nas NDCs e no financiamento climático", afirmou Alexandre Prado, Líder de Mudanças Climáticas do WWF-Brasil. Ele refere-se às Contribuições Nacionalmente Determinadas, planos de ação de cada país para reduzir emissões de gases de efeito estufa.

Compromisso de Belém busca quadruplicar combustíveis sustentáveis

A sessão temática sobre transição energética, marcada para 11h, concentrará discussões sobre metas de curto e médio prazo. Entre os compromissos em debate está a proposta de triplicar a capacidade global de energias renováveis até 2030 e duplicar a eficiência energética no mesmo período.

Destaque especial será dado ao Compromisso de Belém pelos Combustíveis Sustentáveis (Belém 4x), coalizão liderada por Brasil, Itália e Japão que pretende quadruplicar a produção e o uso de combustíveis sustentáveis até 2035. A iniciativa abrange tecnologias como hidrogênio verde, biogás, biocombustíveis e combustíveis sintéticos.

"Nós vamos ter um dia temático que vai discutir transição energética e os dez anos do Acordo de Paris. Nada mais propício do que ter a discussão sobre o tema central que o Acordo precisa entregar, que é como abandonaremos o uso dos combustíveis fósseis", observou Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima.

Acordo de Paris completa década com resultados aquém do necessário

A terceira mesa temática, às 16h, avaliará os dez anos do Acordo de Paris (2015-2025). O tratado global firmado na COP21 une praticamente todos os países na luta contra a crise climática, com o objetivo de manter o aquecimento do planeta bem abaixo de 2°C e buscar esforços para limitar o aumento a 1,5°C até o fim do século.

O balanço examinará o cumprimento das metas nacionais e definirá o que deve ser incorporado nas novas NDCs para 2035. O debate também abordará o Roteiro Baku–Belém, plano apresentado pelas presidências do Azerbaijão (COP29) e do Brasil (COP30) que prevê mobilizar US$ 1,3 trilhão por ano até 2035.

O documento propõe cinco pilares de ação: reforçar, reequilibrar, redirecionar, reestruturar e reconfigurar o sistema financeiro climático global. A estratégia busca ampliar significativamente os recursos disponíveis para países em desenvolvimento implementarem ações de mitigação e adaptação às mudanças climáticas.

Ausências estratégicas marcam geopolítica da conferência

A lista de participantes revela tensões geopolíticas que devem influenciar as negociações da COP30. Entre os presentes estão o presidente da França, Emmanuel Macron, o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, e o Príncipe William, representando o rei Charles III.

Já os Estados Unidos não enviaram representantes políticos de alto escalão, segundo agências internacionais. O presidente Donald Trump optou por não participar, ausência que reflete o distanciamento americano dos compromissos climáticos multilaterais. A China, maior emissora de gases de efeito estufa do mundo, enviou apenas uma delegação técnica, sem a presença do presidente Xi Jinping.

A Argentina confirmou que não participará do encontro, decisão alinhada à postura do presidente Javier Milei de questionar a agenda climática global. As ausências contrastam com a forte presença de países africanos e latino-americanos, dando à conferência uma conotação mais equilibrada entre Norte e Sul Global.

Belém no epicentro da diplomacia ambiental global

A escolha de Belém como sede da cúpula tem profundo significado simbólico. É a primeira vez que um evento desta magnitude ocorre no coração da Amazônia, região que abriga aproximadamente um terço das florestas tropicais do planeta e desempenha papel crucial na regulação climática global.

O governo brasileiro investiu R$ 4,7 bilhões na preparação da cidade para receber mais de 60 mil visitantes durante a COP30. As obras incluem reformas do Complexo Ver-o-Peso, do Mercado de São Brás, construção do Parque Linear São Joaquim e modernização de infraestrutura de transporte e hospedagem.

"Estamos contratando uma consultoria de sustentabilidade para todo o processo da COP30, que envolve as contratações, os serviços e todo o escopo da Conferência", declarou Valter Correia, secretário extraordinário para a COP30. A iniciativa busca garantir que o evento seja um modelo de sustentabilidade e deixe legado permanente para a população local.

Conferência oficial começa em 10 de novembro

A Cúpula dos Líderes funciona como termômetro político da COP30, medindo o nível de engajamento dos governos antes das negociações formais. Embora não produza resoluções vinculantes, o evento define o clima político que prevalecerá nas duas semanas seguintes, quando os 193 países membros da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima negociarão compromissos concretos.

As negociações oficiais da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima ocorrerão de 10 a 21 de novembro no Parque da Cidade, mesmo local que sedia a cúpula. O espaço concentra as zonas azul e verde, áreas destinadas respectivamente às negociações formais entre delegações governamentais e aos eventos paralelos com participação da sociedade civil.

A expectativa é que a COP30 avance em temas críticos como financiamento climático, adaptação às mudanças climáticas, transição energética justa e proteção da biodiversidade. O Brasil busca consolidar sua liderança na agenda ambiental global e demonstrar que desenvolvimento econômico e conservação florestal podem caminhar juntos.


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