O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu, nesta quinta-feira (6), a sessão plenária da Cúpula de Líderes em Belém (PA) com um recado direto aos países e às empresas: “interesses egoístas e imediatos preponderam sobre o bem comum” quando o tema é a preservação ambiental.
Diante de chefes de Estado e de governo de dezenas de nações, Lula descreveu dois “descompassos” que travam a agenda climática e pediu que o combate à mudança do clima esteja “no centro das decisões de cada governo, de cada empresa, de cada pessoa”.
A reunião é um encontro preparatório para a COP30, que começa oficialmente em 10 de novembro, também em Belém. A ideia é dar impulso político às negociações formais e organizar prioridades antes do início da conferência. Ao longo do dia, o presidente tem encontros bilaterais com o príncipe de Gales, William, com o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, e com o presidente da França, Emmanuel Macron, em agendas focadas em cooperação climática, investimentos verdes e Fundo Amazônia.
No discurso, Lula afirmou que a geopolítica não pode se sobrepor à urgência climática. “Forças extremistas fabricam inverdades para obter ganhos eleitorais e aprisionar as gerações futuras a um modelo ultrapassado”, disse, defendendo menos gasto com guerras e mais recursos para proteção ambiental e inclusão social. O presidente reforçou ainda a mensagem repetida nas últimas semanas: “A COP30 será a COP da verdade”.
A escolha de Belém como sede marcou grande parte da fala. “Pela primeira vez na história, uma COP terá lugar no coração da Amazônia”, disse Lula, lembrando que o bioma concentra a maior bacia hidrográfica do planeta e uma biodiversidade singular. Ao defender que alertas científicos sejam levados a sério, o presidente citou os impactos já sentidos por populações vulneráveis, como secas, enchentes e eventos extremos — realidades que, segundo ele, exigem ação coordenada e foco em justiça climática.
Antes mesmo da abertura da cúpula, Belém viu o lançamento do Roteiro Baku–Belém, um plano conjunto das presidências da COP29 (Azerbaijão) e COP30 (Brasil) para mobilizar ao menos US$ 1,3 trilhão por ano até 2035 em financiamento climático, com prioridade para países em desenvolvimento. O documento indica novas fontes de receita — como taxas internacionais sobre aviação, bens de luxo e transações financeiras — e reformas no sistema financeiro global para reduzir custos de capital e aliviar dívidas.
Logo na abertura da plenária, Lula apontou o primeiro descompasso: a distância entre “os salões diplomáticos e o mundo real”. Pessoas podem não dominar “emissões” ou “toneladas métricas de carbono”, afirmou, mas “sentem a poluição”. Ele insistiu que a pauta climática precisa ser compreensível e relevante para a vida cotidiana, conectando o debate a saúde, emprego e renda. “O combate à mudança do clima deve estar no centro das decisões”, reiterou.
O segundo descompasso, segundo o presidente, está no distanciamento entre o contexto geopolítico e a urgência climática. Conflitos armados e rivalidades estratégicas desviam atenção e recursos da tarefa de conter o aquecimento global. Lula voltou a defender que o esforço contra a crise do clima caminhe junto com o combate à fome e à pobreza, sob a lógica de justiça climática — quem tem maior responsabilidade histórica e capacidade financeira deve contribuir mais.
Sobre a transição, o presidente reforçou que “é preciso se afastar de combustíveis fósseis” e construir um mapa do caminho que una desmatamento zero, transição energética e financiamento em escala, de forma justa e planejada. A fala está alinhada à estratégia de usar Belém como vitrine para acordos que reduzam o custo do capital em energia limpa, ampliem a parcela de adaptação e estruturem mecanismos de perdas e danos.
O plano apresentado em 5 de novembro detalha como viabilizar US$ 1,3 trilhão/ano até 2035, organizando medidas em frentes complementares: aumentar doações e financiamento concessional; aliviar dívidas com cláusulas climáticas e trocas de dívida por natureza; reduzir riscos para atrair capital privado (com garantias e seguros); integrar o clima aos orçamentos nacionais; e ajustar regras do sistema financeiro para refletir riscos e oportunidades da transição. Também há meta de triplicar os desembolsos dos fundos multilaterais de clima até 2030 e estudo para canalizar Direitos Especiais de Saque (SDRs) do FMI para países vulneráveis.
Entre as novas fontes de receita listadas, ganham destaque taxas sobre aviação e transporte marítimo, imposto sobre transações financeiras e tributação de luxo e grandes fortunas. A lógica é criar fontes previsíveis, com desenho cooperativo e progressivo, e destinar parte da arrecadação a fundos internacionais que apoiem adaptação, transição energética e perdas e danos. O roteiro funciona como guia político-técnico: não é tratado, não cria obrigações automáticas, mas direciona negociações e ações nacionais e multilaterais.
Ao enfatizar que a COP30 ocorre “no coração da Amazônia”, Lula busca aproximar a diplomacia da realidade socioambiental de quem vive e trabalha no bioma. A presença de líderes estrangeiros e de atores financeiros pretende acelerar compromissos sobre proteção florestal, economia de baixo carbono e inclusão produtiva. A programação da Cúpula de Líderes em Belém inclui recepção pela manhã, plenária com discursos formais e reuniões temáticas — além das bilaterais com Reino Unido e França para ampliar cooperação e destravar recursos para o Fundo Amazônia.
A participação do príncipe William também reforça a vitrine internacional da pré-COP em Belém, em linha com iniciativas de inovação e financiamento para soluções ambientais que o herdeiro britânico tem defendido em fóruns multilaterais.
O teste de credibilidade, agora, está em transformar ambição em execução. De um lado, a Cúpula de Líderes busca gerar sinal político para as tratativas formais a partir de 10 de novembro. De outro, o Roteiro Baku–Belém tenta organizar o como: reduzir custo de capital para energia renovável, escalar adaptação em cidades e zonas rurais, e dar previsibilidade orçamentária e regulatória para projetos com impacto social e ambiental. A expectativa é que, até 2035, a combinação de recursos públicos, capital privado e reformas financeiras sustente o salto de escala necessário nos países em desenvolvimento.
Na prática, isso passa por metas de transparência e monitoramento: relatórios regulares de fundos climáticos e bancos multilaterais sobre onde e como o dinheiro está chegando; padronização de critérios para identificar o que é, de fato, investimento verde; e indicadores de impacto — especialmente em adaptação, historicamente subfinanciada. O desenho também prevê acompanhamento político nos próximos ciclos do Balanço Global e reuniões ministeriais dedicadas a finanças climáticas.
Ao cravar que “a COP30 será a COP da verdade”, Lula sinaliza que o Brasil pretende cobrar metas mensuráveis e recursos verificáveis, além de mostrar entregas domésticas — de desmatamento em queda a leilões de renováveis e economia florestal com inclusão de comunidades tradicionais. No plano externo, a meta é fechar pontes com países desenvolvidos e grandes emissores para reduzir emissões, destravar financiamento e apoiar florestas tropicais. O sucesso, como admitiu o próprio presidente, depende de superar interesses imediatistas e desinformação que minam consensos.
A mensagem final da abertura também foi de pragmatismo. Lula reconheceu “as dificuldades e contradições” do momento, mas insistiu em mapas do caminho que permitam reverter o desmatamento, diminuir a dependência de fósseis e mobilizar recursos em escala. Com a Amazônia como palco e Belém como símbolo, a cúpula pré-COP30 busca deixar claro que o tempo de transformar promessas em investimento real é agora