A um mês da COP-30, Brasil busca apoio global para meta de US$ 1,3 trilhões

Governo brasileiro articula coalização internacional de países e empresários para garantir financiamento climático histórico

Por Por Álvaro Oliveira-
10 Min

A um mês da COP-30, Brasil busca apoio global para meta de US$ 1,3 trilhões
Vista aérea de Belém, onde ocorrerá a COP 30 em novembro

O Brasil intensifica sua atuação diplomática na reta final de preparação para a COP 30, conferência climática que acontecerá em Belém no próximo mês de novembro. Em uma articulação estratégica que envolve mais de duas dezenas de nações e grandes líderes empresariais, o país busca consolidar apoio internacional para um ambicioso plano de financiamento climático que pode transformar a forma como o mundo enfrenta a emergência ambiental.

A secretária de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, Tatiana Rosito, lidera esta semana em Washington uma série de encontros cruciais durante as reuniões anuais do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial. O objetivo central é apresentar e garantir assinaturas para um documento que propõe caminhos concretos para mobilizar US$ 1,3 trilhão anuais até 2035 destinados especificamente aos países em desenvolvimento.

Este montante representa muito mais do que números em uma planilha. Trata-se de recursos essenciais para que nações vulneráveis possam implementar ações de adaptação às mudanças climáticas, desenvolver infraestrutura resiliente e fazer a transição para uma economia de baixo carbono. O documento brasileiro não estabelece compromissos obrigatórios, mas busca consolidar peso político suficiente para que as medidas sejam incorporadas nas decisões finais da conferência amazônica.

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Coalizão global sem os Estados Unidos na mesa

A lista de países que devem endossar a proposta brasileira inclui Azerbaijão, Barbados, Canadá, Chile, Colômbia, China, Dinamarca, Egito, Etiópia, França, Alemanha, Gana, Índia, Indonésia, Itália, Holanda, Coreia do Sul, Arábia Saudita, África do Sul, Espanha, Turquia, Emirados Árabes Unidos e Reino Unido. A diversidade geográfica e econômica desta coalizão demonstra a amplitude do apoio que o Brasil conseguiu construir.

No entanto, há uma ausência notável: os Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, não participam deste debate. A postura norte-americana representa um desafio significativo, já que o país é historicamente um dos maiores emissores de gases de efeito estufa e possui papel relevante em instituições financeiras multilaterais. Apesar disso, o governo brasileiro segue confiante de que a força do grupo reunido será suficiente para impulsionar as transformações necessárias.

A estratégia brasileira reflete aprendizados da presidência do G20 em 2024, quando o país conseguiu inserir temas climáticos de forma central na agenda do grupo. Agora, a missão é ampliar esse consenso e traduzi-lo em compromissos que ultrapassem declarações genéricas.

Reformas estruturais no sistema de financiamento global

O documento que o Brasil apresenta em Washington vai muito além de estabelecer uma meta financeira ambiciosa. Ele propõe reformas estruturais profundas no sistema global de financiamento climático, começando pela transformação de fundos multilaterais já existentes. O Green Climate Fund e o Climate Investment Funds precisam, segundo a proposta, liberar recursos com muito mais agilidade e direcionar esses valores prioritariamente para países em desenvolvimento.

A lentidão burocrática que caracteriza esses mecanismos hoje é apontada como um dos principais entraves para que o dinheiro chegue efetivamente a quem mais precisa. Projetos de adaptação climática em países africanos ou asiáticos, por exemplo, frequentemente enfrentam anos de espera entre a aprovação inicial e o desembolso efetivo dos recursos. Esta demora pode significar a diferença entre prevenir desastres ou apenas responder a eles quando já é tarde demais.

Bancos multilaterais sob pressão para mudança

Outra frente crítica do plano brasileiro envolve a reforma dos bancos multilaterais de desenvolvimento, incluindo o Banco Mundial e o Novo Banco de Desenvolvimento (Banco dos Brics). A proposta exige que essas instituições adotem uma postura mais ousada: assumir mais riscos, estabelecer conexões mais fortes com o capital privado e executar operações de forma substancialmente mais ágil.

O roteiro sugere que esses bancos precisam triplicar sua capacidade de financiamento climático. Durante a COP29 em Baku, no Azerbaijão, os bancos multilaterais comprometeram-se a fornecer US$ 120 bilhões anuais até 2030 para países de baixa e média renda. Esse valor, embora significativo, representa menos de 10% da meta de US$ 1,3 trilhão que especialistas apontam como necessária.

Grande parte do conteúdo apresentado em Washington resgata avanços conquistados durante a reunião do G20 liderada pelo Brasil. A diferença agora é ampliar essa base de apoio para além do grupo das 20 maiores economias, incorporando países de diferentes níveis de desenvolvimento e criando uma pressão política difícil de ignorar quando os holofotes se voltarem para Belém.

Do G20 para o setor privado: próximos passos da estratégia

Após a rodada de conversas na capital norte-americana, o documento brasileiro seguirá para uma audiência diferente, mas igualmente crucial: os grandes empresários. Nos dias 3 e 4 de novembro, São Paulo sediará encontros com CEOs de empresas multinacionais, com a presença confirmada do ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

Esta etapa da estratégia reconhece uma realidade incontornável: o setor privado precisará desempenhar papel central na mobilização dos recursos necessários. Dos US$ 1,3 trilhão anuais almejados, uma parcela substancial deverá vir de investimentos privados. No entanto, para que isso aconteça, é fundamental criar condições regulatórias adequadas, mecanismos de redução de risco e garantias que tornem esses investimentos atrativos.

A presença de grandes corporações na discussão também serve para demonstrar que a transição ecológica não representa apenas custos, mas oportunidades de negócio em setores como energias renováveis, eficiência energética, agricultura sustentável e tecnologias de adaptação climática. O Brasil busca posicionar-se como ponte entre essas oportunidades e os mercados emergentes que precisam desses investimentos.

COP 30 em Belém: expectativas e desafios da conferência amazônica

A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas acontecerá entre 10 e 21 de novembro de 2025 na capital paraense. Esta será a primeira vez que uma cidade amazônica sedia um evento desta magnitude, colocando o maior bioma tropical do planeta no epicentro das discussões sobre o futuro climático global.

Belém vem passando por transformações significativas para receber os mais de 40 mil visitantes esperados. O governo federal investiu cerca de R$ 4,7 bilhões em infraestrutura urbana, transporte, saneamento e construção de espaços para a conferência, incluindo o Parque da Cidade, que após o evento será entregue à população local.

As expectativas para a COP 30 vão além das questões logísticas. A conferência acontecerá em um momento crítico, quando os países devem apresentar suas novas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) para o período até 2035, estabelecendo metas mais ambiciosas de redução de emissões de gases de efeito estufa. O embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP 30, tem defendido que o evento seja marcado pela implementação concreta de políticas, e não apenas por discursos e promessas.

Financiamento climático: histórico de promessas não cumpridas

O contexto que torna a missão brasileira ainda mais desafiadora é o histórico de promessas não cumpridas no financiamento climático internacional. Em 2009, durante a COP15 em Copenhague, os países desenvolvidos comprometeram-se a mobilizar US$ 100 bilhões anuais até 2020 para apoiar nações em desenvolvimento. Essa meta, considerada insuficiente desde o início, só foi efetivamente alcançada em 2022, com dois anos de atraso.

Na COP29 em Baku, após negociações intensas e tensas, foi estabelecida uma nova meta de US$ 300 bilhões anuais até 2035. No entanto, este valor permanece muito aquém dos US$ 1,3 trilhão que especialistas independentes calculam ser necessário para que os países em desenvolvimento possam efetivamente enfrentar a crise climática. O Grupo Independente de Especialistas de Alto Nível em Financiamento Climático estima que essas nações precisam de US$ 2,7 trilhões anuais até 2030 quando se somam investimentos domésticos e internacionais.

A lacuna entre o que é prometido e o que é realmente necessário explica por que o documento brasileiro busca ir além dos compromissos formais, propondo mudanças sistêmicas que facilitem o fluxo de recursos em escala inédita. Não se trata apenas de aumentar valores, mas de transformar todo o sistema de finanças climáticas para torná-lo mais eficiente, acessível e adequado à urgência da crise.

Desafios de infraestrutura e custos em Belém

Enquanto a diplomacia climática avança, Belém enfrenta desafios práticos significativos. A cidade amazônica não possui infraestrutura comparável às capitais que tradicionalmente sediam COPs, como Cairo ou Dubai. Hotéis aumentaram drasticamente seus preços para o período da conferência, com denúncias de aumentos superiores a 1.000% em relação aos valores históricos, o que levou a Secretaria Nacional do Consumidor a notificar estabelecimentos para que justifiquem esses valores.

O setor hoteleiro local argumenta que os custos refletem a complexidade de um evento desta magnitude e o investimento necessário para atender padrões internacionais. No entanto, há preocupação de que preços exorbitantes possam afastar participantes importantes, especialmente representantes de organizações da sociedade civil e de países com recursos limitados.

Para amenizar o problema de hospedagem, o governo está construindo a Vila dos Líderes, com cerca de 500 quartos de padrão cinco estrelas, que posteriormente será convertida em sede administrativa do governo estadual. Além disso, há articulação com plataformas de aluguel de imóveis para ampliar a oferta de acomodações.

O papel estratégico do Brasil na governança climática global

A articulação brasileira em Washington e São Paulo demonstra a ambição do país de consolidar-se como liderança na governança climática internacional. Desde o retorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao poder, o Brasil tem buscado recuperar o protagonismo que exerceu em conferências históricas como a Eco-92 e a Rio+20.

A escolha de sediar a COP 30 na Amazônia não é apenas simbólica. A floresta tropical desempenha papel crucial na regulação climática global, armazena carbono equivalente a décadas de emissões mundiais e abriga biodiversidade insubstituível. Trazer os negociadores para ver de perto essa realidade pode influenciar decisões e criar senso de urgência que discursos em salas fechadas não conseguem provocar.

O sucesso da estratégia brasileira dependerá da capacidade de transformar apoio político em compromissos concretos. O documento que circula em Washington não terá força de tratado internacional, mas pode criar momentum suficiente para que, em Belém, os países sintam-se pressionados a apresentar propostas à altura dos desafios climáticos que a humanidade enfrenta.


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