ODS 11: como as cidades podem salvar o planeta até 2030
Objetivo de Desenvolvimento Sustentável para cidades e comunidades sustentáveis enfrenta desafios urgentes
Vista aérea de cidade brasileira: transformar áreas urbanas em espaços sustentáveis, seguros e inclusivos é desafio central da ODS 11 até 2030. Foto: Canva
Mais da metade da população mundial vive hoje em áreas urbanas. Até 2050, essa proporção deve chegar a 70% da humanidade concentrada em cidades.
Esse dado, por si só, revela por que o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 11 (ODS 11) é considerado estratégico na luta contra as mudanças climáticas e na construção de um futuro mais justo. Afinal, se as cidades são o problema, também podem ser a solução.
O ODS 11, estabelecido pela Organização das Nações Unidas como parte da Agenda 2030, tem uma missão clara: tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis.
Mas a apenas cinco anos do prazo final, o mundo enfrenta uma realidade complexa - avanços significativos em algumas frentes, retrocessos preocupantes em outras, e um Brasil que caminha lentamente em direção às transformações necessárias.
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No Brasil, os números revelam a urgência do desafio. Segundo o Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades (IDSC-BR) 2025, divulgado em outubro pelo Instituto Cidades Sustentáveis, a média nacional alcançou 49,9 pontos em uma escala de zero a 100.
Embora represente uma melhora em relação aos 46,7 pontos de 2024, o país ainda permanece em uma classificação considerada baixa.
Mais alarmante: segundo a plataforma Adapta Brasil, 2.807 dos 5.570 municípios brasileiros já estão em situação de alta ou muito alta vulnerabilidade climática.
Em 2023, o Brasil foi o país que mais registrou deslocamentos internos por desastres nas Américas, com 745 mil pessoas afetadas.
Os prejuízos econômicos causados por eventos climáticos extremos já somam R$ 132 bilhões apenas nesta década.
As sete metas principais do ODS 11
O ODS 11 está estruturado em sete metas centrais e três submetas de implementação. Cada uma delas aborda aspectos críticos da vida urbana que precisam ser transformados até 2030.
A primeira meta busca garantir o acesso universal à habitação segura e adequada a preço acessível, incluindo a urbanização de favelas e assentamentos precários. No Brasil, onde mais de 87% da população vive em áreas urbanas, essa meta esbarra em desafios históricos de déficit habitacional e precariedade de moradias em comunidades vulneráveis.
O transporte público acessível e sustentável é o foco da segunda meta. O objetivo é proporcionar sistemas de mobilidade que priorizem o transporte coletivo de massa e a mobilidade ativa (como caminhada e bicicleta), com atenção especial às necessidades de pessoas com deficiência, mulheres, crianças e idosos.
A realidade brasileira, dominada por uma cultura automotiva e com investimentos insuficientes em transporte público de qualidade, mostra o longo caminho a percorrer.
A terceira meta trata da urbanização inclusiva e sustentável, promovendo capacidades para planejamento e gestão participativa dos assentamentos humanos.
Aqui surge um dado preocupante: metade dos municípios brasileiros não tem plano diretor atualizado e, mesmo entre os que têm, há pouca integração com planos climáticos.
Proteger e salvaguardar o patrimônio cultural e natural do mundo é a quarta meta. Isso significa preservar não apenas monumentos históricos, mas também áreas verdes urbanas, paisagens culturais e elementos que dão identidade às cidades.
A quinta meta visa reduzir significativamente o número de mortes e pessoas afetadas por desastres, além de diminuir as perdas econômicas causadas por catástrofes - especialmente aquelas relacionadas à água, como enchentes e deslizamentos.
Com o número de eventos extremos relacionados à chuva triplicando desde os anos 1990, essa meta se tornou urgente para o Brasil.
A redução do impacto ambiental negativo das cidades é abordada na sexta meta, com atenção especial à qualidade do ar e à gestão de resíduos municipais.
A poluição atmosférica nos centros urbanos brasileiros, dominada pelas emissões dos transportes, representa um desafio crescente à saúde pública.
Por fim, a sétima meta busca proporcionar acesso universal a espaços públicos seguros, inclusivos e verdes, particularmente para mulheres, crianças, pessoas idosas e pessoas com deficiência.
A democratização do espaço urbano é fundamental para a qualidade de vida e o bem-estar coletivo.
Como estamos: a situação atual do Brasil
O panorama brasileiro revela uma realidade de contrastes. O relatório GEO Brasil 2025, apresentado durante a COP30 em Belém, trouxe dados reveladores sobre os principais desafios ambientais e urbanos do país.
Entre 1991 e 2022, 89% dos municípios brasileiros registraram algum tipo de desastre natural. A urbanização acelerada e não planejada intensificou problemas estruturais como saneamento insuficiente, gestão ineficiente de resíduos e poluição atmosférica.
Comunidades de baixa renda estão mais expostas aos efeitos das mudanças climáticas, evidenciando a conexão direta entre desigualdade social e vulnerabilidade ambiental.
A adoção de políticas climáticas municipais permanece limitada. Até 2025, apenas 13 capitais brasileiras tinham Planos de Ação Climática, e muitas dessas estratégias carecem de força legal e continuidade entre gestões. Limitações técnicas e financeiras, especialmente em cidades pequenas e médias, comprometem respostas mais robustas ao enfrentamento da emergência climática.
No ranking de desenvolvimento sustentável, as maiores cidades brasileiras apresentam desempenhos variados. São José dos Campos (SP), São Paulo e Brasília lideram com pontuações de 58,3, 57,9 e 57,6 respectivamente.
Na outra ponta, Belém, Maceió e São Luís registram os piores índices, entre 40,1 e 42,2 pontos - revelando as profundas desigualdades regionais do país.
Em 2025, 47% das cidades brasileiras alcançaram nível médio de desenvolvimento sustentável, enquanto 45,7% permaneceram com classificação baixa. Apenas 3% atingiram classificação "alta", e nenhum município chegou ao nível "muito alto". Os dados apontam progressos, mas em velocidade insuficiente para cumprir as metas da Agenda 2030.
Os caminhos para atingir as metas até 2030
Especialistas e instituições internacionais apontam que a transformação urbana necessária depende de ações integradas em múltiplas frentes. O planejamento urbano participativo emerge como elemento central. Não basta que gestores públicos elaborem planos - é fundamental que as comunidades participem ativamente das decisões sobre o futuro de seus territórios.
As soluções baseadas na natureza representam estratégias eficazes e cada vez mais reconhecidas. Ampliação de áreas verdes, recuperação de nascentes urbanas, criação de parques lineares ao longo de córregos e rios, telhados verdes e jardins de chuva são exemplos de intervenções que melhoram a qualidade do ar, reduzem ilhas de calor urbano e aumentam a capacidade de absorção da água em eventos de chuvas intensas.
A descarbonização do transporte público é prioritária. Investimentos em metrôs, VLTs (Veículos Leves sobre Trilhos), corredores de ônibus elétricos ou movidos a hidrogênio, e infraestrutura para bicicletas podem transformar radicalmente a mobilidade urbana.
A Política Nacional de Mobilidade Urbana já reconhece a relevância do transporte ativo e coletivo, mas a implementação efetiva ainda enfrenta obstáculos políticos e orçamentários.
A gestão integrada de riscos climáticos precisa sair do papel. O Marco de Sendai para a Redução do Risco de Desastres estabelece diretrizes claras, mas sua aplicação nas cidades brasileiras permanece fragmentada.
Sistemas de alerta precoce, mapeamento de áreas de risco, relocação de famílias de zonas perigosas e infraestrutura resiliente são investimentos que salvam vidas e reduzem prejuízos econômicos.
A economia circular na gestão de resíduos representa outro caminho fundamental. Transformar lixo em recurso, reduzir a geração de resíduos na fonte, ampliar a coleta seletiva e valorizar o trabalho de catadores de materiais recicláveis são ações que reduzem o impacto ambiental e geram empregos.
Habitação e saneamento como pilares estruturantes
Não há cidade sustentável sem garantia de moradia digna e acesso universal a saneamento básico. O déficit habitacional brasileiro continua sendo um desafio monumental.
O programa Minha Casa, Minha Vida, retomado com força em 2023, registrou números recordes de contratações, mas ainda há milhões de famílias vivendo em condições precárias.
O saneamento ambiental perpassa todas as discussões sobre adaptação climática. Água potável, esgotamento sanitário adequado, drenagem urbana eficiente e gestão apropriada de resíduos sólidos são elementos estruturantes da resiliência urbana. As conexões entre saneamento deficiente, vulnerabilidade a desastres e desigualdade social são evidentes - e exigem ação urgente.
Justiça climática e inclusão social
Um dos conceitos que ganhou força nos debates sobre ODS 11 é a justiça climática. Os impactos das mudanças climáticas não afetam todos igualmente. Comunidades periféricas, populações negras e indígenas, moradores de áreas de risco e pessoas em situação de vulnerabilidade social são desproporcionalmente atingidas por enchentes, deslizamentos, ondas de calor e outros eventos extremos.
O programa Periferia Viva, do Ministério das Cidades, foi reconhecido internacionalmente como referência em governança climática ao integrar urbanização, prevenção de riscos, infraestrutura resiliente e participação social. Iniciativas como essa demonstram que é possível conectar adaptação climática com redução de desigualdades.
Educação climática e participação cidadã
A transformação das cidades não acontecerá apenas por decisões de governos. A educação ambiental e climática é apontada como essencial para consolidar apoio político e popular às medidas de resiliência. Cidadãos informados sobre os riscos climáticos e as soluções disponíveis tendem a apoiar e cobrar políticas públicas mais ambiciosas.
A participação social precisa ser um pilar das políticas urbanas. Conselhos municipais atuantes, orçamento participativo, audiências públicas significativas e mecanismos de controle social fortalecem a governança urbana e garantem que as políticas reflitam as reais necessidades das comunidades.
O papel da tecnologia e da inovação
Cidades inteligentes e sustentáveis integram tecnologia com práticas ecológicas. Sistemas de monitoramento da qualidade do ar em tempo real, aplicativos para gestão de transporte público, sensores para detectar vazamentos de água, iluminação pública eficiente com LED, edifícios com certificação ambiental e uso de energias renováveis são exemplos de inovações que podem acelerar o cumprimento das metas.
A tecnologia blockchain, por exemplo, pode trazer transparência e rastreabilidade para programas de compensação ambiental urbana, garantindo que investimentos em arborização, recuperação de áreas degradadas e outros projetos sejam devidamente registrados e verificáveis.
Financiamento climático para cidades
Um dos grandes obstáculos à implementação de políticas urbanas sustentáveis é o financiamento. A COP30 reforçou a necessidade de ampliar o acesso das cidades ao financiamento climático internacional. Bancos multilaterais, fundos climáticos globais e parcerias público-privadas podem viabilizar projetos de grande escala.
O Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) inclui investimentos significativos em infraestrutura urbana sustentável, saneamento e mobilidade. A execução eficiente desses recursos será determinante para o avanço do Brasil nas metas do ODS 11.
Lições de outras cidades
Exemplos internacionais inspiram. Copenhague, na Dinamarca, investe pesadamente em mobilidade por bicicleta e tem meta de ser a primeira capital neutra em carbono.
Medellín, na Colômbia, transformou-se através de investimentos em transporte público de qualidade e urbanização de favelas. Curitiba, no Brasil, é referência histórica em planejamento urbano integrado, embora precise atualizar suas políticas para os desafios climáticos atuais.
2030 está próximo: é preciso acelerar
Faltam apenas cinco anos para o prazo final da Agenda 2030. O Brasil, que se posicionou como liderança climática ao sediar a COP30, tem a oportunidade de transformar discurso em ação concreta.
O Ministério das Cidades apresentou na conferência instrumentos como o Catálogo de Iniciativas Climáticas Urbanas e o Mapeamento de ações de adaptação e mitigação já implementadas em cidades brasileiras, consolidando um novo ciclo de planejamento urbano baseado em evidências.
A Declaração das Cidades pelo Clima na COP30 elenca dez ações necessárias: cuidados com ar, água e solo, prevenção e gestão de riscos climáticos, aumento de áreas verdes, compras públicas sustentáveis, tratamento adequado de resíduos, educação ambiental, agricultura local, justiça climática e outras medidas estruturantes.
Municípios de todo o país podem aderir voluntariamente a essa declaração, assumindo compromissos concretos. Mais do que documentos, essas iniciativas representam o reconhecimento de que as cidades são protagonistas centrais na luta contra as mudanças climáticas.
Conclusão: cidades como motores da transformação
O ODS 11 não é apenas mais um objetivo entre dezessete. Ele é estratégico porque as cidades concentram a maior parte da população, consomem grande parcela dos recursos naturais e são responsáveis por significativa proporção das emissões globais de gases de efeito estufa. Ao mesmo tempo, cidades bem governadas e planejadas podem ser motores de inovação, inclusão social e proteção ambiental.
O Brasil tem todos os ingredientes para liderar essa transformação: vasta biodiversidade, legislação ambiental robusta, experiências urbanas bem-sucedidas e uma sociedade civil engajada. O que falta é vontade política, investimentos consistentes e coordenação entre diferentes níveis de governo.
Até 2030, cada decisão conta. Cada prédio construído, cada linha de transporte inaugurada, cada parque criado, cada política implementada pode nos aproximar ou afastar das metas do ODS 11. A escolha está em nossas mãos - e o futuro das próximas gerações depende dela.