ODS 8: trabalho decente e crescimento inclusivo até 2030

ODS 8 busca trabalho decente, produtividade e crescimento econômico sustentável; veja metas, indicadores, gargalos e caminhos práticos.

Por Por Altarir Câmara-
8 Min

Garantir crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável com emprego pleno e produtivo e trabalho decente para todos é a essência do ODS 8 da ONU. Em linguagem direta: não basta crescer — é preciso gerar bons empregos, elevar a produtividade, reduzir informalidade e ampliar direitos trabalhistas, com atenção especial a jovens, mulheres e pessoas com deficiência. É um objetivo transversal: impulsiona renda, reduz pobreza e cria base fiscal para financiar saúde, educação e clima.

Nos relatórios mais recentes, o mundo exibiu sinais mistos. A taxa global de desemprego ficou próxima de 5% em 2024 e deve se manter nesse patamar em 2025, patamar historicamente baixo — mas por trás do número há desigualdades regionais e fragilidades: desemprego juvenil segue na casa dos dois dígitos, a informalidade ainda abarca mais de 2 bilhões de trabalhadores (58% do total), e a produtividade cresce lentamente. Em paralelo, a economia mundial desacelera e deve avançar por volta de 2,3% em 2025, o que limita a criação de postos qualificados.

O que é o ODS 8 e quais são suas metas

O ODS 8 – Trabalho Decente e Crescimento Econômico é estruturado em metas concretas. Entre as principais: 8.1 (crescimento do PIB per capita, com ênfase de 7% ao ano nos Países Menos Desenvolvidos), 8.5 (até 2030, emprego pleno e produtivo e igualdade de remuneração por trabalho de igual valor), 8.6 (reduzir substancialmente a proporção de jovens fora da escola e do trabalho – NEETs), 8.7 (erradicar trabalho forçado e infantil), 8.8 (proteger direitos trabalhistas e ambientes de trabalho seguros), 8.9 (turismo sustentável), 8.10 (ampliar acesso a serviços financeiros) e 8.b (estratégias de emprego jovem). Cada meta tem indicadores oficiais que monitoram progresso e permitem comparações entre países e regiões. 

Onde o mundo está: avanços e gargalos

Desemprego “baixo”, qualidade do trabalho em xeque. A estabilização do desemprego geral perto de 5% em 2024 mascara assimetrias: países de baixa renda exibem taxas mais altas e maior pobreza laboral; e a juventude enfrenta barreiras de entrada, com taxas de desemprego em torno de 12%, além de desafios de qualidade e adequação dos empregos. 

Jovens fora da escola e do trabalho. A ONU e a OIT alertam: o progresso rumo à Meta 8.6 está fora de rota em muitos países. Em 2024, um terço da juventude global vivia em nações “fora do trilho” para reduzir NEETs. Nas Américas, a taxa de desemprego juvenil caiu para 11,8% em 2023, um piso de décadas, mas a retomada não elimina o contingente de jovens em subutilização ou informalidade

Informalidade persistente. A informalidade continua sendo o “calcanhar de Aquiles” do ODS 8: mais de 2 bilhões de pessoas, ou 58% da força de trabalho global, estavam em empregos informais em 2023, situação associada a baixa proteção social, produtividade menor e vulnerabilidade a choques. 

Produtividade e crescimento fraco. A desaceleração do PIB global e o arrefecimento do comércio pressionam a produtividade — motor de salários reais e competitividade. Instituições multilaterais apontam para a necessidade de reformas pró-produtividade (infraestrutura, capital humano, inovação e clima de negócios) para evitar uma década perdida. 

Por que o ODS 8 é crucial para a agenda 2030

Sem trabalho decente, metas de pobreza zero, fome zero e saúde e educação de qualidade ficam inalcançáveis. Empregos produtivos geram renda estável, elevam a arrecadação e criam espaço para políticas sociais e investimentos verdes. Do ponto de vista microeconômico, bons empregos reduzem rotatividade, estimulam capacitação e elevam a inovação no chão de fábrica e nos serviços. Em síntese: o ODS 8 é um acelerador sistêmico dos demais ODS.

Indicadores-chave do ODS 8: como medir o progresso
  • Crescimento do PIB per capita (8.1.1): mede a velocidade do crescimento inclusivo; o destaque normativo é a meta de 7% a.a. nos PMDs. unstats.un.org

  • Produtividade do trabalho: monitorada por PIB por pessoa ocupada; melhora sustentável depende de investimento, tecnologia e qualificação. Banco Mundial

  • Desemprego por sexo/idade (8.5.2): capta gargalos de acesso e desigualdades (mulheres/jovens). unstats.un.org

  • NEETs (8.6.1): porcentagem de jovens nem-nem (fora da escola e do trabalho) — um termômetro de exclusão e mismatch de habilidades. International Labour Organization

  • Informalidade: indicador transversal ao trabalho decente; 58% da força global estava na informalidade em 2023. unstats.un.org

  • Segurança e direitos (8.8): acidentes, doenças ocupacionais e cumprimento regulatório compõem o quadro da dignidade no trabalho. ILOSTAT

O que funciona: alavancas para acelerar o trabalho decente

1) Política macro estável e pró-investimento. Estabilidade fiscal e monetária reduz custo de capital e encoraja investimento produtivo em setores intensivos em emprego e tecnologia. Em ciclos de desaceleração (como o previsto para 2025), políticas que preservem infraestrutura, educação e inovação ajudam a manter a produtividade em rota de alta. 

2) Educação técnica e requalificação. A ponte entre escola e trabalho precisa ser encurtada. Ensino técnico, aprendizagem dual, estágios e parcerias com empresas reduzem NEETs e o mismatch de habilidades. Países que alinham currículos a competências digitais e verdes tendem a acelerar a empregabilidade jovem

3) Formalização inteligente. Simplificar tributação e custos de folha para pequenos negócios, ampliar serviços financeiros e digitalizar cadastros favorece a transição para a formalidade. Isso amplia proteção social e produtividade, com impacto direto na meta 8.5

4) Políticas ativas de emprego. Intermediação pública/privada, seguro-desemprego com condicionalidades de qualificação e subsídios temporários à contratação de jovens e mulheres têm evidência de impacto quando focalizados e avaliados continuamente. 

5) Segurança e saúde no trabalho. Padrões robustos de SST diminuem acidentes, elevam moral e produtividade e dialogam com a meta 8.8 (direitos trabalhistas). 

6) Acesso a crédito e digitalização. Meta 8.10: inclusão financeira para micro, pequenas e médias empresas (MPMEs). Fintechs, open finance e garantias públicas ampliam capital de giro e investimento, gerando empregos e efeitos de encadeamento

Juventude no centro: como cumprir a Meta 8.6

A juventude é a face mais visível do descompasso entre educação e mercado. Mesmo com a queda do desemprego em algumas regiões, NEETs persistem. A receita envolve: orientação vocacional precoce, currículos modulares, microcredenciais alinhadas à demanda local, estágios remunerados, codesign com empresas e estímulos a empreendedorismo de base tecnológica e verde. Nas Américas, a queda do desemprego juvenil para 11,8% em 2023 mostra que políticas consistentes e retomada pós-pandemia podem produzir resultados, mas manter a tendência exigirá investimento contínuo em qualificações e serviços de intermediação

Produtividade: o motor silencioso do ODS 8

Sem produtividade, não há salários crescentes e empregos de qualidade. A agenda combina:

  • Infraestrutura física e digital (logística, conectividade, 5G);

  • I&D e difusão tecnológica (adoção de IA, automação, design de processos);

  • Capital humano (STEM, soft skills, gestão);

  • Ambiente de negócios (regulação estável, segurança jurídica).

Relatos recentes mostram oscilações por país, mas o consenso é que a produtividade global ainda está abaixo do necessário para uma década de crescimento inclusivo. Políticas de concorrência, investimento em P&D e transição energética (eficiência, renováveis, reindustrialização verde) potencializam ganhos sustentáveis. 

Turismo sustentável, transição justa e futuro do trabalho

A meta 8.9 incentiva modelos de turismo que gerem empregos de qualidade, preservem cultura e minimizem impactos ambientais. Já a discussão sobre transição justa conecta o ODS 8 ao clima: setores intensivos em carbono precisam de requalificação e proteções para trabalhadores durante a migração para cadeias limpas; ao mesmo tempo, a economia verde abre novos postos em eficiência energética, energias renováveis e serviços ambientais

Como países e empresas podem acelerar já

Governos: priorizar educação técnica, infraestrutura, apoio a MPMEs, digitalização, SST e políticas ativas de emprego avaliadas por evidência. Planos Nacionais de Emprego Jovem alinhados à Meta 8.6 e à estratégia de desenvolvimento produtivo são essenciais. 

Empresas: investir em formação contínua, diversidade e inclusão, automação com requalificação e cadeias responsáveis. Valorizar aprendizagem, estágio e programas trainee que conversem com competências do futuro.

Financiadores: ampliar crédito e investimento em MPMEs, com métricas de empregabilidade e produtividade, além de incentivar projetos que gerem empregos verdes e digitais.