ODS 9: A Agenda Global para Infraestrutura, Indústria e Inovação
Conheça o nono Objetivo de Desenvolvimento Sustentável e como o Brasil se posiciona para alcançar as metas de transformação econômica até 2030
ODS 9: conheça o objetivo da ONU para infraestrutura, inovação e indústria sustentável até 2030. Foto: Canva
O mundo estabeleceu em 2015 um compromisso audacioso: transformar a forma como vivemos, produzimos e nos relacionamos com o planeta.
Dentro desse pacto global, conhecido como Agenda 2030, encontra-se o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 9 (ODS 9), focado em construir infraestruturas resilientes, promover a industrialização inclusiva e sustentável, e fomentar a inovação.
Este objetivo representa um pilar essencial para qualquer nação que deseja compatibilizar crescimento econômico com responsabilidade ambiental.
Durante duas décadas, governos, organizações e setores privados em todo o mundo movimentaram-se para cumprir essas metas.
No Brasil, a tarefa é particularmente complexa: o país enfrenta simultaneamente a necessidade de modernizar sua infraestrutura envelhecida, reverter um processo de desindustrialização que começou há 40 anos e consolidar uma economia baseada em conhecimento, tecnologia e inovação.
Entender o ODS 9 significa compreender os desafios e as oportunidades que moldarão a economia brasileira até o final desta década.
O que é o ODS 9O ODS 9 não é apenas um objetivo ambiental. Diferentemente de metas que focalizam explicitamente a proteção climática ou conservação de ecossistemas, este objetivo reconhece que infraestrutura, indústria e inovação são os motores pelos quais uma nação funciona.
Nações Unidas destacam que cada emprego criado no setor industrial gera 2,2 empregos em setores conexos da economia, multiplicando oportunidades de trabalho e renda.
A pandemia global acelerou a compreensão dessa importância. Países com infraestruturas robustas, indústrias adaptáveis e ecossistemas de inovação avançados conseguiram se recuperar mais rapidamente das crises.
Tecnologias de comunicação, sistemas de distribuição de energia, redes de transporte confiáveis e laboratórios de pesquisa demonstraram ser fundamentais não apenas para crescimento econômico, mas também para a resiliência das sociedades.
Para o Brasil, especificamente, o ODS 9 representa uma oportunidade de corrigir décadas de negligência em investimento em infraestrutura.
Dados da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB) indicam que os investimentos em infraestrutura caíram 16,4% entre 2001 e 2023.
Essa queda afeta diretamente a competitividade do país: estradas precárias aumentam custos logísticos, atrasos em investimentos em energia prejudicam a atração de indústrias limpas, e a falta de centros de pesquisa modernos desestimula talentos técnicos a permanecerem no país.
Os pilares do ODS 9: compreendendo as metas globaisA Organização das Nações Unidas detalhou o ODS 9 em oito submetas específicas, cada uma atacando um aspecto diferente dos três eixos principais: infraestrutura, indústria e inovação.
Infraestrutura resiliente e de qualidade é a primeira prioridade. A meta estabelecida pela ONU busca infraestrutura que seja não apenas funcional, mas confiável, sustentável e acessível para todos. Isso inclui sistemas de transporte moderno, redes de energia renovável, saneamento básico adequado e acesso à internet de banda larga.
Um elemento frequentemente negligenciado é a resiliência: a infraestrutura deve ser capaz de suportar choques climáticos, demográficos e econômicos sem que a sociedade entre em colapso.
Industrialização inclusiva e sustentável reconhece que o crescimento industrial tradicional, baseado em exploração de recursos naturais e mão de obra barata, não é mais viável.
A meta propõe que a indústria cresça enquanto incorpora práticas sustentáveis, oferece empregos dignos e distribui oportunidades para pequenas e médias empresas, não apenas para gigantes corporativas.
No Brasil, isso significa reverter o processo de desindustrialização através de políticas que atraiam manufatura de base tecnológica, em vez de continuar exportando apenas commodities.
Pesquisa científica e inovação constituem o terceiro pilar. Globalmente, a orientação é que nações aumentem substancialmente seus investimentos em pesquisa e desenvolvimento, criem parcerias entre universidades e indústria, e incentivem o empreendedorismo.
Para países em desenvolvimento, isto é crítico: sem acesso a tecnologias avançadas e capacidade de pesquisa local, permanecerão dependentes de importações tecnológicas caras.
As Metas Brasileiras até 2030O Brasil traduziu as metas globais do ODS 9 para sua realidade específica, reconhecendo que cada país enfrenta contextos únicos. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), responsável por essa adaptação, estabeleceu metas concretas:
Em pesquisa e desenvolvimento, o Brasil se comprometeu a aumentar para 3 mil o número de trabalhadores de P&D por milhão de habitantes até 2030.
Nas empresas especificamente, a meta é ampliar para 120 mil o número de técnicos e pesquisadores ocupados em P&D.
Mais ambiciosamente, o país busca elevar seus gastos públicos e privados em pesquisa e desenvolvimento para 2% do Produto Interno Bruto.
Atualmente, o Brasil investe apenas 1,27% de seu PIB em P&D, enquanto países como a Coreia do Sul destinam mais de 4% e a média dos países da OCDE é 2,4%.
Em infraestrutura e sustentabilidade industrial, o Brasil visa modernizar sua infraestrutura com foco em uso de recursos renováveis e adoção de tecnologias e processos industriais limpos.
Isso vai além de simplesmente construir novas estradas: significa transformar como as atividades econômicas operam, reduzindo poluentes e danos ambientais.
Um indicador fundamental para avaliar progresso é a emissão de CO2 pelo PIB: quanto menos carbono produzido por unidade de riqueza gerada, melhor o desempenho.
Em acesso ao crédito para pequenas empresas, o Brasil se comprometeu a desburocratizar e ampliar o acesso de microempresas a serviços financeiros.
Reconhecendo que pequenas empresas são motores de emprego e inovação, mas frequentemente enfrentam dificuldades para obter financiamento em condições razoáveis, a meta inclui desenvolvimento de soluções tecnológicas inovadoras para incluir essas empresas nas cadeias de valor.
Desafios estruturais e oportunidadesO Brasil enfrenta obstáculos formidáveis no caminho para cumprir essas metas. O Índice Global de Inovação 2023 posicionou o país em 66ª lugar entre 132 nações.
Embora esse ranking reconheça avanços, revela também as lacunas persistentes em infraestrutura, financiamento e adoção de tecnologia.
A escassez de investimento é talvez o maior desafio. Empresas brasileiras, especialmente pequenas e médias, enfrentam custos de crédito elevados e incerteza regulatória. Universidades e centros de pesquisa operam com orçamentos limitados.
Infraestrutura ferroviária, portuária e energética requer investimentos bilionários, um montante que supera a capacidade do Estado sozinho. Isso exige parcerias público-privadas estruturadas e reformas que atraiam capital estrangeiro.
A fuga de talentos agrava a situação. Cientistas e engenheiros brasileiros, frequentemente formados em universidades de qualidade reconhecida mundialmente, migram para países desenvolvidos onde encontram melhores salários, infraestrutura de pesquisa mais robusta e maior reconhecimento profissional.
Reversão desse cenário demanda não apenas investimento em pesquisa, mas criação de carreiras atrativas e ecossistemas inovadores que retenham talentos.
A desconexão entre pesquisa e mercado é outro obstáculo. Muitas descobertas científicas feitas em universidades e institutos de pesquisa brasileiros não se convertem em produtos ou serviços comerciáveis.
Essa lacuna entre descoberta e aplicação prática significa perda de oportunidades econômicas e inovações que poderiam resolver problemas locais.
Apesar desses desafios, o Brasil possui vantagens comparativas significativas. Em biotecnologia, agricultura de precisão, aeronáutica e exploração espacial, o país já se destaca globalmente.
A sua biodiversidade oferece oportunidades únicas para desenvolvimento de soluções sustentáveis e inovações em energia renovável.
Transformação de ativos e financiamento para a inovaçãoPara alcançar as metas do ODS 9, o Brasil necessita de mecanismos financeiros inovadores que direcionem capital para infraestrutura sustentável, pesquisa e empreendimentos industriais limpos.
A transformação de ativos sustentáveis emerge como estratégia promissora para esse objetivo.
Quando ativos ambientais e sociais ganham estrutura e transparência—através de certificação rigorosa, rastreabilidade baseada em tecnologia blockchain e precificação justa—eles atraem capital privado que de outra forma permaneceria alocado em setores menos sustentáveis.
Certificados de Ação Climática em formato NFT, por exemplo, permitem que projetos de impacto ambiental comprovável sejam negociados em mercados estruturados, multiplicando oportunidades de financiamento.
Esse mecanismo é particularmente relevante para o ODS 9 porque permite que pequenas e médias empresas acessem capital para modernizar processos industriais, adotar tecnologias limpas e investir em inovação sem depender exclusivamente de crédito bancário tradicional.
Empresas que implementam energia renovável, sistemas de eficiência energética ou processos produtivos de baixo carbono podem converter essas conquistas em ativos comerciáveis.
Setores-chave para implementaçãoDiferentes setores da economia brasileira apresentam oportunidades distintas para avançar o ODS 9.
Energia renovável é talvez o mais óbvio. O Brasil tem potencial imenso em energia eólica, solar e de biomassa. Expandir a geração renovável não apenas cumpre metas de sustentabilidade ambiental, mas também cria oportunidades de pesquisa em armazenamento de energia, redes inteligentes e tecnologias de transição energética.
Mobilidade e transporte oferece outra frente. Investimento em sistemas metroferroviários em cidades brasileiras, expansão de frotas de ônibus elétricos e desenvolvimento de tecnologias de transporte inteligente não apenas moderniza infraestrutura, mas também cria demanda por inovações em engenharia, manufatura de componentes eletrônicos e software.
Agricultura de precisão e bioeconomia aproveita vantagens naturais do país. Pesquisa em melhoramento genético, uso eficiente de água, rotação de culturas sustentáveis e processamento de biomassa geram tanto alimentos e matérias-primas quanto conhecimento aplicável globalmente.
Tecnologia da informação e comunicação é infraestrutura invisível mas essencial. Expansão de acesso à internet de banda larga em zonas rurais, desenvolvimento de plataformas digitais para governo eletrônico, educação à distância e comércio eletrônico, além de segurança cibernética, são áreas onde inovação brasileira pode prosperar.
Próximos passosO caminho para cumprir o ODS 9 até 2030 exige ação coordenada. Iniciativas como a Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI) e o Plano de Ação para a Neoindustrialização (Nova Indústria Brasil) representam reconhecimento governamental dessa necessidade.
Universidades e institutos de pesquisa precisam fortalecer parcerias com o setor produtivo, convertendo descobertas científicas em aplicações práticas. Incubadoras de empresas e hubs de inovação devem proliferar, oferecendo aos empreendedores infraestrutura, mentooria e acesso a capital.
Políticas de atração e retenção de talentos—bolsas de doutorado, auxílios à pesquisa, incentivos para empresas contratarem pesquisadores—são imperativas.
O investimento privado é crucial. Empresas com visão de longo prazo devem reconhecer que investimento em inovação, modernização de processos e adoção de práticas sustentáveis não é custo, mas investimento em competitividade futura.
Regulamentações que facilitam esse tipo de investimento—como marcos legais claros para startups, incentivos fiscais para pesquisa e desenvolvimento, e mercados estruturados para ativos sustentáveis—ampliam o leque de oportunidades.
Finalmente, o reconhecimento de que infraestrutura, indústria e inovação são inseparáveis é fundamental. Não é possível prosperar em inovação sem infraestrutura adequada.
Não é viável modernizar indústria sem investimento em pesquisa. Essas três dimensões trabalham sinergeticamente: quando combinadas estrategicamente, criam multiplicador econômico que eleva padrões de vida e oferece respostas aos desafios do século XXI.
O Brasil tem até 2030 para demonstrar que é possível crescer economicamente enquanto se constrói uma sociedade mais sustentável, inclusiva e baseada em conhecimento.
O ODS 9 é o mapa; a execução depende da vontade política, investimento inteligente e colaboração entre múltiplos atores da sociedade.