ODS 10: Reduzir desigualdades é urgência planetária

ODS da ONU busca romper ciclo de pobreza e criar oportunidades iguais para todos até 2030

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
11 Min

ODS 10 propõe reduzir desigualdades até 2030 no Brasil e no mundo. Conheça as metas ambiciosas da Agenda 2030 da ONU

O mundo enfrenta um cenário alarmante. De acordo com dados das Nações Unidas, as disparidades econômicas entre ricos e pobres atingem patamares não vistos desde a década de 1940.

Essa concentração extrema de riqueza não é apenas uma questão moral ou de justiça social, mas um obstáculo concreto ao desenvolvimento sustentável de nações inteiras. Reconhecendo essa realidade crítica, a Organização das Nações Unidas incorporou ao seu rol de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável um compromisso específico: o ODS 10, que propõe a redução das desigualdades dentro dos países e entre eles.

A magnitude desse desafio fica ainda mais evidente quando consideramos a realidade brasileira. O Brasil ocupa posição desconfortável no ranking global de desigualdade, figurando entre as sete nações mais desiguais do planeta.

Essa condição estrutural compromete não apenas o bem-estar de milhões de pessoas, mas também limita o potencial de crescimento econômico, reduz a coesão social e perpetua ciclos de pobreza que se transmitem entre gerações. Investir em ações que combatam essas disparidades, portanto, não representa apenas um ato de solidariedade, mas uma estratégia econômica e política fundamental para o desenvolvimento genuíno.

A estrutura do ODS 10 reconhece a natureza multifatorial da desigualdade. Ela não pode ser reduzida a números de renda ou acesso a bens materiais, mas abrange também diferenças sistemáticas de oportunidades, participação política, acesso a educação e proteção contra discriminação.

Essa compreensão abrangente transformou o objetivo em um pilar estruturante para a realização de todos os demais Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. É impossível, em outras palavras, conceber uma agenda verdadeiramente sustentável que deixe intactas as fundações da desigualdade.

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O compromisso global estabelecido pela Agenda 2030 articula-se através de dez metas específicas, cada uma abordando uma dimensão particular da luta contra desigualdades.

A primeira delas estabelece que os países devem, progressivamente até 2030, conseguir que a renda dos 40% mais pobres cresça em ritmo superior ao da média nacional.

Parece simples em seu enunciado, mas sua implementação revela-se extraordinariamente complexa, exigindo reconfiguração profunda de políticas econômicas e redistribuição de recursos.

A segunda meta enfatiza o empoderamento e promoção da inclusão social, econômica e política de todos, independentemente de sua idade, sexo, deficiência, raça, etnia, origem, religião ou condição econômica.

Essa formulação reconhece que desigualdade não é monolítica: mulheres, negros, pessoas com deficiência e minorias étnicas enfrentam múltiplas camadas de exclusão que demandam intervenções específicas e direcionadas.

A terceira meta dedica-se a garantir igualdade de oportunidades e reduzir disparidades de resultados. Ela propõe a eliminação de leis, políticas e práticas discriminatórias, substituindo-as por legislação e ações que promovam equidade real.

O Brasil, nesse aspecto, carrega heranças históricas ainda não plenamente superadas: racismo institucional, discriminação de gênero e exclusão de pessoas com deficiência continuam presentes em estruturas que perpetuam vantagens para determinados grupos.

As metas de política fiscal e financeira (números 4 e 5) reconhecem uma verdade fundamental: sem transformação profunda dos instrumentos econômicos, dificilmente conseguir-se-á romper com padrões estabelecidos de desigualdade.

A adoção de políticas tributárias, salariais e de proteção social progressivas torna-se, nesse contexto, central. Da mesma forma, a melhoria da regulamentação de mercados e instituições financeiras globais busca evitar que crises econômicas ampliem ainda mais o fosso entre ricos e pobres.

Desigualdades financeiras e o papel dos mercados sustentáveis

Um aspecto particularmente relevante do ODS 10 refere-se à representação e voz de países em desenvolvimento nas tomadas de decisão de instituições econômicas e financeiras internacionais.

Historicamente, nações mais pobres tiveram pouca participação nas estruturas que regem a economia global, vendo-se submetidas a decisões tomadas por potências econômicas tradicionais. Alterar essa dinâmica significa permitir que países como o Brasil tragam suas perspectivas, demandas e propostas para o centro do debate econômico mundial.

Nesse contexto, emergem modelos inovadores de transformação de ativos sustentáveis que merecem atenção especial. Quando empresas, comunidades e projetos ambientais conseguem converter seu potencial de impacto climático e ambiental em ativos sustentáveis, criam-se oportunidades de financiamento antes inexistentes.

Plataformas que utilizam tecnologia blockchain para garantir transparência, rastreabilidade e segurança nessas transações abrem caminhos para que investidores de diversos portes possam participar de iniciativas de impacto real.

Essa democratização do acesso a oportunidades de investimento em sustentabilidade representa, em última análise, uma estratégia de combate à desigualdade.

Quando créditos de carbono, certificações de ação climática e outros ativos sustentáveis tornam-se negociáveis de forma segura e transparente, ampliam-se as possibilidades de que recursos financeiros fluam para projetos de preservação ambiental, energia limpa e reflorestamento em regiões que historicamente foram marginalizadas pelos circuitos financeiros convencionais.

O contexto brasileiro e indicadores recentes

Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam movimento positivo na trajetória brasileira em relação ao ODS 10. O Índice de Gini, medida fundamental de desigualdade que varia de zero (igualdade perfeita) a um (desigualdade máxima), atingiu 0,518 em 2023, representando o menor nível desde o início da série histórica em 2012.

Essa melhora foi impulsionada por diversos fatores, incluindo a ampliação de programas de transferência de renda como o Bolsa Família, reajustes do salário mínimo acima da inflação e fortalecimento do mercado de trabalho.

Entre 2015 e 2023, a renda dos 40% mais pobres cresceu 13,8% no Brasil, taxa que superou o crescimento de 9,6% observado nos 10% mais ricos no mesmo período.

Essa tendência sugere que políticas públicas inclusivas podem, de fato, produzir resultados. Porém, o país ainda carrega desafios estruturais significativos. A proporção de pessoas negras ou pardas entre os 10% mais pobres permanece superior à média nacional, indicando a persistência de discriminação racial em padrões de renda e oportunidade.

Desafios permanentes e a questão da implementação

Apesar desses avanços, o caminho para cumprir as metas do ODS 10 permanece repleto de obstáculos. A evasão fiscal constitui um dos grandes entraves: a sonegação de impostos no Brasil reduz recursos disponíveis para políticas redistributivas que poderiam beneficiar as populações mais vulneráveis. Estima-se que essa prática onera significativamente o Estado, diminuindo sua capacidade de investimento em educação, saúde e proteção social.

Outro desafio diz respeito à implementação política das metas. Resistência econômica e política à redistribuição de recursos permanece considerável em diversos contextos nacionais.

Mudanças estruturais na forma como se distribui renda, acesso a oportunidades e poder político enfrentam oposição de grupos que se beneficiam do status quo. A desigualdade, quando profundamente enraizada em estruturas sociais e econômicas, não desaparece através de boas intenções, mas exige vontade política genuína e inversão de recursos substanciais.

A voz de países em desenvolvimento

Uma das dimensões mais críticas do ODS 10 refere-se ao desafio de assegurar representação e influência genuína de nações em desenvolvimento nas instituições econômicas e financeiras internacionais.

Historicamente, essas organizações foram estruturadas e comandadas por potências econômicas, refletindo seus interesses e perspectivas. Países da América Latina, África e Ásia frequentemente viram-se constrangidos a aceitar decisões tomadas alhures, sem poder efetivo de participação.

O deslocamento dessa dinâmica exige não apenas reformas institucionais, mas transformação nas relações de poder econômico global. Brasil, como potência regional e ator fundamental nos debates sobre clima, biodiversidade e transição energética, possui papel estratégico nessa reconfiguração. Seu potencial em biodiversidade, produção de energia limpa e desenvolvimento de tecnologias sustentáveis posiciona o país como interlocutor natural em discussões sobre futuro econômico mais justo.

Migrações, mobilidade e fluxos de pessoas

O ODS 10 reconhece explicitamente o papel das migrações como fenômeno que define dinâmicas de desigualdade no século XXI. Conflitos, mudanças climáticas extremas, perseguições políticas e buscas por melhores oportunidades econômicas impulsionam fluxos crescentes de pessoas através de fronteiras.

Esses deslocamentos, quando não gerenciados de forma ordenada, segura e respeitosa, podem ampliar vulnerabilidades e desigualdades.

As metas do ODS 10 estabelecem compromissos específicos em relação à redução de custos de remessas de migrantes para seus países de origem. Atualmente, muitos países cobram taxas abusivas para o envio de dinheiro, reduzindo significativamente o valor que efetivamente chega às famílias.

O objetivo é reduzir esses custos para menos de 3%, eliminando rotas de remessas onde as taxas superam 5%. Tal medida garantiria que recursos financeiros enviados por migrantes chegassem com maior volume a seus destinos, fortalecendo economias locais e reduzindo desigualdades.

Integração de políticas: educação, saúde e oportunidade

A redução real de desigualdades exige, como reconhece o Objetivo 10, investimento expressivo em áreas fundamentais como educação e saúde. Sem acesso universal a educação de qualidade, perpetua-se a impossibilidade de grupos marginalizados ascenderem socialmente.

Da mesma forma, quando saúde constitui privilégio de quem possui renda elevada, reduz-se a capacidade de trabalho e produtividade dos mais pobres, aprofundando ciclos de pobreza.

Educação, em particular, emerge como ferramenta transformadora. Populações educadas apresentam maior capacidade de participação política, melhor compreensão de direitos fundamentais e melhores perspectivas de inserção no mercado de trabalho. Investimento em educação, portanto, constitui investimento direto em redução de desigualdades.

Similarmente, acesso igualitário a saúde previne que grupos pobres vejam-se drenados financeiramente por custos médicos catastróficos.

Financiamento e solidariedade internacional

O ODS 10 reconhece também a importância da assistência oficial ao desenvolvimento (AOD) e de fluxos de investimento direto estrangeiro direcionados aos países que enfrentam maiores desafios socioeconômicos. Essa perspectiva reflete compreensão de que redução de desigualdades constitui responsabilidade compartilhada, não apenas nacional.

Nações mais desenvolvidas, historicamente responsáveis por maior volume de emissões de gases de efeito estufa e tendo se beneficiado de processos de industrialização que utilizaram recursos de regiões mais pobres, portam responsabilidades específicas em sua redução.

Mecanismos de financiamento climático e ambiental ganham, nessa ótica, importância redobrada. Quando fundos fluem dos países desenvolvidos para iniciativas de conservação, energia limpa e adaptação climática em países em desenvolvimento, redistribui-se não apenas renda, mas também poder econômico e capacidade de autodeterminação. Plataformas que facilitam esse fluxo de recursos de maneira segura, transparente e verificável constituem ferramentas aliadas na consecução do ODS 10.

O Caminho até 2030

Restam apenas cinco anos para que o mundo atinja as metas da Agenda 2030. O progresso realizado até agora, ainda que positivo em diversas frentes, permanece insuficiente considerando a magnitude dos desafios.

Brasil e mundo necessitam de aceleração nas ações de combate à desigualdade, combinando políticas públicas robustas, regulamentação apropriada de mercados, participação genuína de populações marginalizadas nas decisões que as afetam e investimento solidário entre nações.

A redução de desigualdades não representa luxo ou complemento periférico a uma agenda maior, mas constitui fundamento indispensável para qualquer futuro verdadeiramente sustentável. Um planeta onde desigualdades extremas persistem não pode ser um planeta em paz, com recursos equitativamente distribuídos ou onde direitos humanos fundamentais são respeitados. O ODS 10, portanto, não é apenas objetivo ambiental ou econômico, mas reflexo do compromisso coletivo com justiça, dignidade e oportunidade para todos.