A Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca) formalizou um pedido polêmico à Comissão de Valores Mobiliários: derrubar a obrigatoriedade dos relatórios de sustentabilidade baseados nos padrões internacionais IFRS S1 e S2.
A regra, que entrará em vigor a partir do exercício de 2026 com divulgação em 2027, passou a ser alvo de questionamentos por parte das empresas de capital aberto.
O principal argumento da entidade centra-se nos custos adicionais que os relatórios financeiros de sustentabilidade gerariam para as companhias em um momento econômico delicado.
A Abrasca também manifesta preocupação com possíveis impactos no acesso a créditos no mercado. A solicitação é clara: manter a adoção dos novos padrões em caráter voluntário, como acontece atualmente.
Odair Rodrigues, CEO da primeira Bolsa de Ação Climática do Brasil, a B4, contesta a visão de que os relatórios representem custos proibitivos. Para o executivo, trata-se fundamentalmente de uma questão de planejamento orçamentário.
"Fazer um relatório não é barato nem caro. O que precisa é organizar o orçamento destinado às práticas sustentáveis. Compliance e auditoria estão na margem do produto", reflete.
O posicionamento da B4 vai além da discussão sobre custos. Rodrigues enfatiza que os departamentos de marketing e publicidade corporativos precisam compreender que a comunicação inteligente e de boa reputação gera valor tangível para as organizações e engaja o consumidor final de forma efetiva.
"Já temos vários exemplos no mercado que mostram esse resultado na prática, como Boticário e Natura", destaca o CEO. Essas empresas demonstraram que transparência e compromisso genuíno com práticas sustentáveis se traduzem em vantagem competitiva e fortalecimento da marca.
O executivo também aponta para as novas tecnologias como aliadas estratégicas na redução de custos operacionais relacionados à fiscalização e aos reportes. "A B4 utiliza tecnologia blockchain para que os contratos inteligentes otimizem monitoramento, auditoria e compliance", explica Rodrigues, referindo-se à transformação de ativos sustentáveis que a plataforma realiza.
O contexto brasileiro para a discussão sobre relatórios de sustentabilidade tornou-se ainda mais relevante com importantes avanços institucionais. Em outubro de 2025, o Ministério da Fazenda oficializou a criação da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono, órgão que ficará responsável pela gestão do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SBCE).
A economista Cristina Reis assumiu a liderança da nova secretaria, deixando o cargo de subsecretária de Desenvolvimento Econômico Sustentável. Em novembro, a secretária afirmou que o governo pretende publicar todas as normas infralegais necessárias para a adoção do mercado regulado de carbono no País até dezembro de 2026, com operação plena prevista para 2030.
As projeções econômicas são expressivas. De acordo com dados da Secretaria, o setor pode elevar o crescimento adicional da economia em quase 6% até 2040 e 8,5% até 2050. Segundo estimativas do Banco Mundial, as emissões de gás carbônico dos setores regulados poderiam cair 21% até 2040 e 27% até 2050.
O preço da tonelada de carbono no mercado brasileiro pode chegar a US$ 30 por tonelada, avançando para US$ 60 numa segunda fase. Esses números reforçam o potencial do Brasil de se tornar protagonista global no mercado de carbono, aproveitando seus diferenciais ambientais únicos.
Para Odair Rodrigues, retroceder na obrigatoriedade dos relatórios seria um erro estratégico. "Não vale a pena retroceder para que esses relatórios sejam voluntários. Um bom caminho agora seria aprimorá-los, adotar medidas de forma mais transparente e mais organizada, alinhada aos melhores padrões internacionais, para que a gente consiga bater a meta de transição energética", defende.
O CEO da B4 também questiona a lógica empresarial por trás da resistência aos relatórios. "A sobrevivência está sempre na prioridade. Mas será que as empresas que estão procurando capital, se tivessem adotado práticas sustentáveis mais adequadas, não teriam acesso mais fácil a crédito em vez de abrir uma oferta pública na bolsa? Ou, fazer isso de uma forma ainda melhor?", provoca.
A reflexão toca em um ponto fundamental: empresas com práticas ESG consolidadas tendem a ter melhor avaliação de risco por instituições financeiras e investidores, o que pode facilitar o acesso a recursos em condições mais favoráveis.
Os padrões IFRS S1 e S2, desenvolvidos pelo International Sustainability Standards Board (ISSB), representam um marco na padronização global dos relatórios de sustentabilidade. O Brasil foi pioneiro ao adotar essas normas através da Resolução CVM 193, tornando-se referência internacional nesse processo.
O IFRS S1 estabelece requisitos gerais para divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade, abrangendo governança, estratégias, riscos e oportunidades. Já o IFRS S2 foca especificamente em divulgações relacionadas ao clima, incluindo emissões de gases de efeito estufa e riscos climáticos com impacto financeiro.
No Brasil, esses padrões foram internalizados através dos Pronunciamentos Técnicos CBPS 01 e CBPS 02, emitidos pelo Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade. A obrigatoriedade começa em 2026, mas empresas podem adotar voluntariamente desde 2024, com exigências flexibilizadas.
Uma pesquisa recente da Abrasca revelou que 71% das empresas brasileiras ainda não concluíram o diagnóstico inicial para adaptação às normas. Esse dado é preocupante, considerando que o diagnóstico é essencial para mapear lacunas, estimar investimentos e iniciar mudanças estruturais necessárias.
A primeira Bolsa de Ação Climática do Brasil anunciou em dezembro o início da divulgação diária de boletins sobre a flutuação de preços dos ativos sustentáveis listados em seu ambiente de negociação. A proposta é divulgar a evolução dos ativos considerando tanto as leis de oferta e demanda quanto as variações do dólar.
Atualmente, a B4 opera por meio de 10 nichos de sustentabilidade: florestas, biodiversidade, agronegócio, commodities, construção civil, reciclagem, projetos sociais, energia limpa, derivativos e logística. É possível acompanhar a cotação dos ativos listados em tempo real pelo Índice B4.
A plataforma contabiliza 44 projetos em processo de listagem, 11 aprovados e 7 listados em apenas dois anos de operação. O volume de créditos em análise chega a 146,695 milhões de toneladas de CO₂, enquanto 12,762 milhões de toneladas já foram listadas, projetando R$ 1,1 bilhão em créditos.
A discussão levantada pela Abrasca toca em questões legítimas sobre custos de adequação, mas também revela tensões mais amplas sobre o papel das empresas na transição para uma economia de baixo carbono. Especialistas argumentam que a transparência nos relatórios ESG não é apenas uma exigência regulatória, mas uma necessidade de mercado.
Investidores institucionais e fundos internacionais cada vez mais incorporam critérios de sustentabilidade em suas decisões de alocação de recursos. Empresas que não apresentam informações claras e auditáveis sobre seus impactos ambientais e sociais podem enfrentar dificuldades crescentes para atrair investimentos.
Além disso, a União Europeia já implementou diretrizes rigorosas através da Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD), que afeta empresas brasileiras que fazem negócios com o bloco. A harmonização com padrões internacionais facilita o acesso a esses mercados.
Com a aproximação da obrigatoriedade, empresas brasileiras enfrentam o desafio de estruturar sistemas robustos para coleta, análise e verificação de dados socioambientais. Será necessário integrar informações climáticas à gestão de riscos, investir em capacitação de equipes e adaptar processos internos.
A criação da Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono sinaliza o comprometimento do governo brasileiro com a agenda climática e com a estruturação de um mercado regulado robusto. A meta de publicar todas as normas infralegais até dezembro de 2026 estabelece um cronograma ambicioso mas necessário.
Para a B4 e outras instituições do setor, a expectativa é que o mercado de carbono brasileiro se consolide como referência global, aproveitando os ativos ambientais únicos do país. A demanda por compensação de carbono é crescente, impulsionada por compromissos corporativos e acordos internacionais.
O CEO da B4 reitera a urgência da ação climática: "A demanda é crescente. A temperatura média do planeta já ultrapassou 1,5°C de aquecimento em 2024. A hora de adotarmos medidas urgentes é agora". Essa urgência contrasta com pedidos de postergação ou flexibilização das exigências de transparência.
Enquanto o debate entre a Abrasca e a CVM se desenrola, o que está em jogo vai além de custos operacionais imediatos. Trata-se de definir o papel do Brasil na economia global de baixo carbono e da capacidade das empresas brasileiras de se posicionarem competitivamente nesse novo cenário.