Após anos de debates e iniciativas voluntárias, o país agora caminha para estruturar um mercado regulado, sob amparo legal, que colocará o Brasil entre os líderes globais da transição verde, com a criação de um sistema de comércio de emissões (cap-and-trade), modelo de mercado usado para reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) de forma eficiente e econômica. É o sistema adotado em diversos países para regulamentar o mercado de carbono, e será a base do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), capaz de alinhar crescimento econômico com metas de ‘descarbonização’.
A implementação desse sistema representa a transição de um modelo voluntário para um mercado regulado, com regras claras, metas obrigatórias e mecanismos de controle e transparência para o mercado brasileiro.
Contudo, apesar de todo este potencial, segundo a head de produtos de carbono de importante instituição financeira, Maria Belen Lousada, mesmo com o avanço na implementação da regulamentação do mercado nacional de carbono e do crescente protagonismo do Brasil na agenda climática internacional, a cultura de comprar créditos ainda é incipiente entre empresas brasileiras.
A fala da executiva evidencia um ponto crítico: o Brasil ainda não desenvolveu a cultura de assumir o carbono como parte do seu balanço financeiro. Mas isso está prestes a mudar.
Com a chegada do mercado regulado, as empresas que entenderem esse novo paradigma sairão na frente — não apenas do ponto de vista ambiental, mas também de posicionamento estratégico e acesso a capital.
Segundo ela, o país tem o histórico de ampla geração de créditos de carbono e de investir na geração de créditos, de florestas, reflorestamento, energia, biogás, carbono solo para agro, mas quanto à experiência de comprar créditos, ainda não é algo frequente. O que se vê mais no Brasil é a experiência de gerar créditos de carbono para monetizar projetos, esforços de descarbonizar.
Com a implementação do mercado regulado, as empresas que entenderem esse novo paradigma sairão na frente — não apenas do ponto de vista ambiental, mas também de posicionamento estratégico e acesso a capital.
Segundo, Lousada, “culturalmente, muitas empresas brasileiras ainda veem a compensação de carbono como uma ação acessória, não como parte do core do negócio. Há uma visão distorcida de que sustentabilidade é um custo, quando na verdade é uma forma de proteger valor e acessar novos mercados. Parte disso vinha da ausência, até aqui, de uma regulação clara. Agora, com a obrigatoriedade iminente, será preciso mudar essa mentalidade. Comprar créditos de carbono não será mais um diferencial: será uma necessidade legal, reputacional e estratégica”.
“No Brasil, a Petrobras é a companhia mais ativa, já começa a pensar nos créditos para a sua própria compensação. A Vale tem um programa. As entidades financeiras são as que que mais compram. Compram volumes pequenos, 20 mil a 30 mil toneladas. A Vale ou a Petrobras compram milhões. Os bancos, são bem ativos em comprar e em compensar suas emissões. Natura tem seus projetos, e mais três ou quatro companhias emblemáticas. O Brasil é um mercado que está se acostumado a comprar créditos de carbono”.
Com o processo de implementação do mercado regulado no país, com o avanço do Projeto de Lei nº 412/2022 e a iminente implementação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), empresas de setores intensivos em carbono — de diferentes áreas — passarão a ter suas próprias metas obrigatórias de redução. Quando não conseguirem cumprir essas metas, precisarão comprar créditos de carbono certificados, nacionais ou internacionais.
A falta de preparo para esse novo cenário pode gerar riscos financeiros e operacionais para empresas brasileiras. Aquelas que não se anteciparem, não entenderem o funcionamento do mercado e não se posicionarem estrategicamente, podem sofrer com alta de custos, penalidades e perda de competitividade internacional.