Caso Master expõe falhas graves no mercado de créditos de carbono

Escândalo envolvendo terras públicas e bilhões em ativos levanta alerta sobre créditos de carbono e reforça a defesa da rastreabilidade e transparência no setor

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
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Caso Master revela falhas graves no mercado de créditos de carbono e reforça a urgência de rastreabilidade e transparência. Foto: Divulgação Reag

O caso revelado pela investigação em torno do Banco Master, fundos ligados à Reag e empresas como Golden Green e Global Carbon escancara um dos maiores riscos do ainda imaturo mercado de créditos de carbono no Brasil: a construção de ativos sustentáveis bilionários sem lastro jurídico, ambiental ou técnico adequado.

Mais do que um episódio isolado, trata-se de um sintoma estrutural de um sistema que, sem critérios rigorosos de rastreabilidade, transparência e governança, pode se tornar terreno fértil para distorções financeiras, greenwashing e até ilícitos penais.

Segundo reportagem da FolhaPress, duas empresas alcançaram juntas uma valorização superior a R$ 45,5 bilhões, baseada em milhões de supostos “créditos de estoque de carbono” associados a uma área pública da União, destinada à reforma agrária. A terra, localizada no município de Apuí (AM), conhecida como Fazenda Floresta Amazônica, jamais poderia servir de base para ativos privados, segundo confirmação oficial do Incra.

O episódio acende um alerta vermelho para investidores, reguladores e para toda a agenda climática brasileira. Em um momento em que o país se apresenta ao mundo como potencial líder global em soluções ambientais e mercado de carbono, casos como esse corroem a credibilidade do setor e comprometem a confiança internacional.

Leia Também Terra pública, ativo privado: a origem do problema

O cerne da controvérsia está no fato de que a área utilizada como lastro dos chamados “estoques de carbono” pertence à União. Trata-se de um Projeto de Assentamento Federal, arrecadado nos anos 1980, com matrícula pública e destinação social clara. Ou seja, não existe direito de propriedade privada, nem possibilidade legal de exploração econômica exclusiva dos ativos sustentáveis ali existentes.

O próprio Incra foi categórico ao afirmar que qualquer comercialização de ativos de carbono baseados nessa floresta é irregular e causa danos à União, informando, inclusive, que medidas administrativas e judiciais já estão em curso. Para impedir negociações, a autarquia bloqueou o cadastro do imóvel no Sistema Nacional de Cadastro Rural (SNCR) e negou certificação no Sigef, o que, na prática, inviabiliza qualquer reconhecimento fundiário privado.

Ainda assim, isso não impediu que auditorias, consultorias e laudos de avaliação econômica chancelassem valores bilionários, sem ressalvas explícitas sobre a origem fundiária do ativo.

Crédito de carbono não é “estoque de carbono”

Um dos pontos mais sensíveis do caso é a confusão, intencional ou não, entre conceitos técnicos distintos. Crédito de carbono é um certificado reconhecido no mercado, emitido por programas validados internacionalmente, que representa uma redução real, mensurável e adicional de emissões de gases de efeito estufa.

Já o chamado “crédito de estoque de carbono” não passa de uma estimativa teórica da quantidade de carbono armazenada em determinada área florestal. Isso, por si só, não gera um ativo negociável, não garante liquidez, nem preço de mercado. Trata-se de um dado ambiental bruto, não de um instrumento financeiro reconhecido.

As próprias empresas envolvidas admitem, em documentos internos, que utilizam premissas internas de precificação, justamente porque não existem transações de mercado que validem esses valores. Ainda assim, os números foram inflados em balanços patrimoniais, criando uma aparência de solidez financeira que não encontra respaldo no funcionamento real do mercado de carbono.

Auditorias, laudos e a zona cinzenta da responsabilidade

Outro aspecto crítico diz respeito ao papel das auditorias e consultorias. Empresas de renome internacional analisaram metodologias matemáticas, balanços e demonstrações financeiras, mas sem verificar a origem jurídica dos ativos sustentáveis.

A Ernst & Young declarou que sua atuação se limitou à checagem de fórmulas matemáticas, não à validação dos valores ou da origem do carbono. A PwC analisou demonstrações financeiras, enquanto a Crowe aprovou atualizações relevantes de valuation. Em nenhum desses casos, segundo a reportagem, houve alertas claros sobre o litígio fundiário.

O economista responsável por laudos de avaliação econômica foi direto ao afirmar que apenas reproduziu informações constantes em balanços apresentados pelas próprias empresas. Essa lógica revela um problema sistêmico: a fragmentação de responsabilidades, em que cada agente valida apenas uma parte do processo, sem uma visão integrada do risco.

Rastreabilidade e transparência: o que poderia ter evitado o escândalo

É justamente nesse ponto que ganha força o posicionamento defendido pela B4, que sustenta que, se houvesse blockchain, rastreabilidade e transparência desde a origem, esse tipo de projeto não teria passado sequer pela fase inicial de criação.

"Em um ambiente estruturado com tecnologia de registro imutável, como blockchain, seria impossível dissociar o ativo ambiental da sua origem fundiária, jurídica e ambiental. A cadeia de dados, desde a titularidade da terra, passando por autorizações legais, inventário ambiental, auditorias independentes e certificações reconhecidas, estaria registrada de forma pública, verificável e auditável", detalha o CEO da B4, Odair Rodrigues.

O executivo explica ainda que a transformação de ativos sustentáveis exige governança clara. Não se trata apenas de precificar carbono, mas de garantir que cada unidade representada tenha existência real, legitimidade legal e impacto ambiental comprovado. "Sem isso, abre-se espaço para distorções que podem ser usadas como instrumentos de alavancagem financeira artificial", pontua Rodrigues.

Risco sistêmico para o mercado e para a agenda climática

Casos como esse vão além de um escândalo financeiro. Eles colocam em risco a própria agenda climática. O mercado de carbono depende essencialmente de confiança. Quando ativos sustentáveis passam a ser associados a suspeitas de fraude, lavagem de dinheiro ou grilagem de terras, todo o ecossistema sofre.

Investidores se retraem, projetos sérios enfrentam desconfiança e o Brasil perde competitividade em um setor estratégico que pode movimentar centenas de bilhões de reais nas próximas décadas. A consequência prática é o atraso na transição para uma economia de baixo carbono e na consolidação de soluções reais de ação climática.

Um marco para repensar o modelo

O caso Master pode se tornar um divisor de águas. Ele evidencia a urgência de critérios mais rígidos, integração entre dados ambientais, fundiários e financeiros, e adoção de tecnologias que impeçam a criação de ativos sustentáveis sem lastro.

Mais do que punir eventuais responsáveis, o desafio agora é estrutural: criar um mercado de carbono baseado em credibilidade, rastreabilidade e impacto real, onde ativos sustentáveis não sejam apenas números em balanços, mas instrumentos efetivos de transformação ambiental e econômica.

Sem isso, o risco é transformar uma das maiores oportunidades do século em mais um capítulo de desconfiança institucional.