Petrobras e Shell investem R$ 100 mi em linha de base carbono

Projeto Carbon Countdown vai mapear estoques de carbono em todos os biomas brasileiros até 2030 com metodologias reconhecidas pelo IPCC

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
8 Min

A Petrobras e a Shell Brasil lançaram o Carbon Countdown, o maior projeto já realizado no país para medir estoques de carbono em escala nacional. Com investimento superior a R$ 100 milhões, a iniciativa vai criar uma linha de base científica inédita sobre a quantidade de carbono armazenada nos solos e florestas de todos os estados brasileiros, fornecendo dados cruciais para o mercado de ativos sustentáveis.

O anúncio oficial foi feito em 12 de dezembro de 2025, em parceria com o Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON), vinculado à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP).

O projeto tem duração prevista de cinco anos e deve ser concluído em 2030, abrangendo os seis biomas terrestres brasileiros: Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa.

Com metodologias reconhecidas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o Carbon Countdown representa avanço estratégico para posicionar o Brasil como referência internacional em dados ambientais.

A iniciativa responde a demandas antigas do setor agropecuário brasileiro, que criticava o uso de parâmetros estrangeiros para calcular balanços de emissões de gases de efeito estufa.

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Maior inventário de carbono já realizado no Brasil

O Carbon Countdown vai realizar coletas em 6.500 áreas demarcadas em todo território nacional, com mais de 250 mil amostras de solo e número ainda maior de amostras de vegetação. Serão coletadas também outras 400 mil amostras de atributos complementares, caracterizando o maior inventário do tipo já realizado no país.

O levantamento medirá os estoques de carbono tanto acima quanto abaixo do solo, incluindo áreas agrícolas e ecossistemas nativos. Esta abrangência permitirá avaliar com precisão a capacidade de captura de CO2 das diferentes regiões brasileiras, gerando dados fundamentais para projetos de créditos de carbono e estratégias de mitigação climática.

Maurício Cherubin, coordenador científico do projeto e professor do departamento de ciência do solo da Esalq-USP, explica que o desenho final surgiu após anos de negociação com as petroleiras. "A Shell trouxe a ideia há três anos e meio, e a partir de sugestões do nosso time, desenvolvemos o projeto que temos hoje", afirma o pesquisador.

Rede nacional de pesquisa fortalece infraestrutura científica

O projeto implementa uma rede nacional de pesquisa com polos regionais distribuídos pelos seis biomas brasileiros. Cada núcleo envolve pesquisadores, equipes de campo e infraestrutura laboratorial local, garantindo metodologias unificadas e protocolos técnicos padronizados de Segurança, Meio Ambiente e Saúde.

A participação de diversas universidades e centros de pesquisa de todas as regiões do Brasil agrega expertise e conhecimento local à iniciativa. Esta capilaridade é fundamental para adaptar as metodologias internacionais à realidade tropical dos biomas, cultivos agrícolas e tipos de solo nacionais.

Lílian Melo, gerente executiva do Centro de Pesquisas, Desenvolvimento e Inovação da Petrobras (CENPES), destaca as principais entregas do projeto. "São a geração de um banco de dados geoespacial público, com base em coletas representativas de amostras ambientais, implantação de infraestrutura de pesquisa e a tropicalização confiável das metodologias internacionais à realidade dos nossos biomas", afirma.

Dados públicos impulsionam mercado de carbono nacional

Todos os dados coletados pelo Carbon Countdown serão disponibilizados publicamente, criando uma base integrada para armazenamento, análise e compartilhamento dos resultados. Esta transparência visa oferecer segurança para investidores e formuladores de políticas públicas, fortalecendo o mercado brasileiro de créditos de carbono.

A produção de uma base de dados realista e cientificamente validada é considerada essencial para aumentar a competitividade de projetos de restauração e produção sustentável. Com valores de referência nacionais sobre estoques de carbono no solo e na vegetação, será possível aprimorar metodologias de quantificação e reduzir incertezas que hoje afetam a precificação de ativos sustentáveis.

Olivier Wambersie, diretor de Tecnologia da Shell Brasil, ressalta a relevância estratégica da iniciativa. "O projeto Carbon Countdown nos dá as ferramentas para criar uma base sólida e confiável de dados sobre os estoques naturais de carbono. Essas informações são essenciais para fortalecer projetos de créditos de carbono, iniciativas de restauração e ações de uso do solo, além de consolidar o papel da ciência brasileira nesse mercado emergente", afirma.

Resposta a demandas do agronegócio brasileiro

O objetivo principal do Carbon Countdown é gerar uma linha de base do estoque de carbono no país, estabelecendo uma média da quantidade do elemento armazenada nos solos e na vegetação brasileira. Esta é uma demanda histórica do agronegócio nacional, que questiona a aplicação de parâmetros desenvolvidos para realidades climáticas e ecológicas distintas.

Maurício Cherubin explica a conexão direta com o pleito do setor. "A justificativa é total. Por isso conseguimos convencer os financiadores a investirem no projeto. Estamos no CCARBON, que visa entender as oportunidades para o agronegócio e também para os ecossistemas naturais, e cada vez mais sentimos falta dessa linha de base", declara o coordenador científico.

A iniciativa permitirá avaliar com precisão a capacidade de captura de dióxido de carbono das áreas agrícolas brasileiras, trazendo dados que podem influenciar significativamente a geração de créditos de carbono no setor. Alexandre Breda, da Shell Brasil, afirma que o objetivo é aumentar a integridade e a precisão do ativo carbono no Brasil.

Financiamento via cláusula de Pesquisa e Desenvolvimento

O investimento de mais de R$ 100 milhões no Carbon Countdown é originário da Cláusula de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) prevista nos contratos de exploração e produção de óleo e gás, com aplicação regulada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Cada empresa aportou R$ 54 milhões no projeto, realizando os repasses como investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação conforme estabelecido nos contratos de exploração junto à ANP. Este mecanismo permite que recursos da indústria de petróleo e gás sejam direcionados para avanços científicos em áreas estratégicas.

André Bueno, gestor de meio ambiente do centro de pesquisa da Petrobras, explica que a empresa acompanhará de perto todas as etapas. "Nossa equipe técnica vai acompanhar todas as metodologias empregadas, todos os resultados gerados e vai criticar, avaliar e validar essas informações", declara. "Todas as etapas, desde o planejamento, a execução e os resultados, vão ser acompanhados através de um comitê técnico e gestor."

Críticas de ONGs sobre possível greenwashing

Apesar do potencial científico reconhecido, organizações não governamentais manifestaram preocupações sobre possíveis conflitos de interesse no financiamento por empresas de combustíveis fósseis.

O Instituto Arayara alerta que este tipo de investimento pode ser usado para legitimar créditos de carbono enquanto as companhias continuam explorando petróleo e gás.

Impacto na implementação do SBCE

Os dados gerados pelo Carbon Countdown terão papel fundamental na implementação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), criado pela Lei 15.042/2024. O mercado regulado brasileiro, que entrará em operação plena até 2030, necessita de metodologias credenciadas e dados confiáveis para a geração de Certificados de Redução ou Remoção Verificada de Emissões (CRVEs).

A linha de base científica estabelecida pelo projeto permitirá maior precisão na quantificação de estoques de carbono e na verificação de reduções efetivas de emissões. Esta informação é crucial para evitar fraudes e garantir a integridade ambiental dos créditos negociados no mercado regulado.

Questionado sobre o uso dos dados para compensar emissões da própria Petrobras, André Bueno admite a possibilidade. "Existe a chance de aproveitar as conclusões para gerar créditos de carbono com áreas conservadas", afirma o gestor. A empresa poderá utilizar os resultados para desenvolver projetos próprios de geração de ativos sustentáveis baseados em áreas preservadas.

Soluções baseadas na natureza ganham fundamento científico

O Carbon Countdown fornece base sólida para o desenvolvimento de Soluções Baseadas na Natureza, como projetos agroflorestais, de conservação e reflorestamento. Estas iniciativas ganham credibilidade com dados científicos que comprovam sua efetividade na captura e armazenamento de carbono.

A produção de uma base de dados realista apoia a transição para uma economia de baixo carbono e amplia o protagonismo do Brasil no mercado global de créditos de carbono. O país, com sua vasta área preservada correspondente a cerca de 60% do território nacional, tem potencial para se tornar líder global neste mercado emergente.

Estimativas indicam que o mercado brasileiro de carbono pode movimentar até US$ 120 bilhões até 2030. Com dados científicos robustos sobre estoques de carbono, projetos nacionais ganham competitividade internacional e atraem investimentos de empresas e governos comprometidos com metas climáticas.


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