A Petrobras e a Shell Brasil lançaram o Carbon Countdown, o maior projeto já realizado no país para medir estoques de carbono em escala nacional. Com investimento superior a R$ 100 milhões, a iniciativa vai criar uma linha de base científica inédita sobre a quantidade de carbono armazenada nos solos e florestas de todos os estados brasileiros, fornecendo dados cruciais para o mercado de ativos sustentáveis.
O anúncio oficial foi feito em 12 de dezembro de 2025, em parceria com o Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON), vinculado à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP).
O projeto tem duração prevista de cinco anos e deve ser concluído em 2030, abrangendo os seis biomas terrestres brasileiros: Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa.
Com metodologias reconhecidas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o Carbon Countdown representa avanço estratégico para posicionar o Brasil como referência internacional em dados ambientais.
A iniciativa responde a demandas antigas do setor agropecuário brasileiro, que criticava o uso de parâmetros estrangeiros para calcular balanços de emissões de gases de efeito estufa.
O Carbon Countdown vai realizar coletas em 6.500 áreas demarcadas em todo território nacional, com mais de 250 mil amostras de solo e número ainda maior de amostras de vegetação. Serão coletadas também outras 400 mil amostras de atributos complementares, caracterizando o maior inventário do tipo já realizado no país.
O levantamento medirá os estoques de carbono tanto acima quanto abaixo do solo, incluindo áreas agrícolas e ecossistemas nativos. Esta abrangência permitirá avaliar com precisão a capacidade de captura de CO2 das diferentes regiões brasileiras, gerando dados fundamentais para projetos de créditos de carbono e estratégias de mitigação climática.
Maurício Cherubin, coordenador científico do projeto e professor do departamento de ciência do solo da Esalq-USP, explica que o desenho final surgiu após anos de negociação com as petroleiras. "A Shell trouxe a ideia há três anos e meio, e a partir de sugestões do nosso time, desenvolvemos o projeto que temos hoje", afirma o pesquisador.
O projeto implementa uma rede nacional de pesquisa com polos regionais distribuídos pelos seis biomas brasileiros. Cada núcleo envolve pesquisadores, equipes de campo e infraestrutura laboratorial local, garantindo metodologias unificadas e protocolos técnicos padronizados de Segurança, Meio Ambiente e Saúde.
A participação de diversas universidades e centros de pesquisa de todas as regiões do Brasil agrega expertise e conhecimento local à iniciativa. Esta capilaridade é fundamental para adaptar as metodologias internacionais à realidade tropical dos biomas, cultivos agrícolas e tipos de solo nacionais.
Lílian Melo, gerente executiva do Centro de Pesquisas, Desenvolvimento e Inovação da Petrobras (CENPES), destaca as principais entregas do projeto. "São a geração de um banco de dados geoespacial público, com base em coletas representativas de amostras ambientais, implantação de infraestrutura de pesquisa e a tropicalização confiável das metodologias internacionais à realidade dos nossos biomas", afirma.
Todos os dados coletados pelo Carbon Countdown serão disponibilizados publicamente, criando uma base integrada para armazenamento, análise e compartilhamento dos resultados. Esta transparência visa oferecer segurança para investidores e formuladores de políticas públicas, fortalecendo o mercado brasileiro de créditos de carbono.
A produção de uma base de dados realista e cientificamente validada é considerada essencial para aumentar a competitividade de projetos de restauração e produção sustentável. Com valores de referência nacionais sobre estoques de carbono no solo e na vegetação, será possível aprimorar metodologias de quantificação e reduzir incertezas que hoje afetam a precificação de ativos sustentáveis.
Olivier Wambersie, diretor de Tecnologia da Shell Brasil, ressalta a relevância estratégica da iniciativa. "O projeto Carbon Countdown nos dá as ferramentas para criar uma base sólida e confiável de dados sobre os estoques naturais de carbono. Essas informações são essenciais para fortalecer projetos de créditos de carbono, iniciativas de restauração e ações de uso do solo, além de consolidar o papel da ciência brasileira nesse mercado emergente", afirma.
O objetivo principal do Carbon Countdown é gerar uma linha de base do estoque de carbono no país, estabelecendo uma média da quantidade do elemento armazenada nos solos e na vegetação brasileira. Esta é uma demanda histórica do agronegócio nacional, que questiona a aplicação de parâmetros desenvolvidos para realidades climáticas e ecológicas distintas.
Maurício Cherubin explica a conexão direta com o pleito do setor. "A justificativa é total. Por isso conseguimos convencer os financiadores a investirem no projeto. Estamos no CCARBON, que visa entender as oportunidades para o agronegócio e também para os ecossistemas naturais, e cada vez mais sentimos falta dessa linha de base", declara o coordenador científico.
A iniciativa permitirá avaliar com precisão a capacidade de captura de dióxido de carbono das áreas agrícolas brasileiras, trazendo dados que podem influenciar significativamente a geração de créditos de carbono no setor. Alexandre Breda, da Shell Brasil, afirma que o objetivo é aumentar a integridade e a precisão do ativo carbono no Brasil.
O investimento de mais de R$ 100 milhões no Carbon Countdown é originário da Cláusula de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) prevista nos contratos de exploração e produção de óleo e gás, com aplicação regulada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
Cada empresa aportou R$ 54 milhões no projeto, realizando os repasses como investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação conforme estabelecido nos contratos de exploração junto à ANP. Este mecanismo permite que recursos da indústria de petróleo e gás sejam direcionados para avanços científicos em áreas estratégicas.
André Bueno, gestor de meio ambiente do centro de pesquisa da Petrobras, explica que a empresa acompanhará de perto todas as etapas. "Nossa equipe técnica vai acompanhar todas as metodologias empregadas, todos os resultados gerados e vai criticar, avaliar e validar essas informações", declara. "Todas as etapas, desde o planejamento, a execução e os resultados, vão ser acompanhados através de um comitê técnico e gestor."
Apesar do potencial científico reconhecido, organizações não governamentais manifestaram preocupações sobre possíveis conflitos de interesse no financiamento por empresas de combustíveis fósseis.
O Instituto Arayara alerta que este tipo de investimento pode ser usado para legitimar créditos de carbono enquanto as companhias continuam explorando petróleo e gás.
Impacto na implementação do SBCE
Os dados gerados pelo Carbon Countdown terão papel fundamental na implementação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), criado pela Lei 15.042/2024. O mercado regulado brasileiro, que entrará em operação plena até 2030, necessita de metodologias credenciadas e dados confiáveis para a geração de Certificados de Redução ou Remoção Verificada de Emissões (CRVEs).
A linha de base científica estabelecida pelo projeto permitirá maior precisão na quantificação de estoques de carbono e na verificação de reduções efetivas de emissões. Esta informação é crucial para evitar fraudes e garantir a integridade ambiental dos créditos negociados no mercado regulado.
Questionado sobre o uso dos dados para compensar emissões da própria Petrobras, André Bueno admite a possibilidade. "Existe a chance de aproveitar as conclusões para gerar créditos de carbono com áreas conservadas", afirma o gestor. A empresa poderá utilizar os resultados para desenvolver projetos próprios de geração de ativos sustentáveis baseados em áreas preservadas.
O Carbon Countdown fornece base sólida para o desenvolvimento de Soluções Baseadas na Natureza, como projetos agroflorestais, de conservação e reflorestamento. Estas iniciativas ganham credibilidade com dados científicos que comprovam sua efetividade na captura e armazenamento de carbono.
A produção de uma base de dados realista apoia a transição para uma economia de baixo carbono e amplia o protagonismo do Brasil no mercado global de créditos de carbono. O país, com sua vasta área preservada correspondente a cerca de 60% do território nacional, tem potencial para se tornar líder global neste mercado emergente.
Estimativas indicam que o mercado brasileiro de carbono pode movimentar até US$ 120 bilhões até 2030. Com dados científicos robustos sobre estoques de carbono, projetos nacionais ganham competitividade internacional e atraem investimentos de empresas e governos comprometidos com metas climáticas.