Conselhos têm papel decisivo na governança ESG empresarial

Brasil avança em práticas de sustentabilidade corporativa, com governança ESG integrando estratégias de longo prazo nas organizações

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
9 Min

Conselheiros de administração em reunião estratégica discutindo metas ESG e governança climática corporativa. Foto: Canva

A governança corporativa está passando por uma transformação sem precedentes no Brasil e no mundo. Os conselhos de administração deixaram de ser apenas guardiões do desempenho financeiro para assumirem responsabilidades estratégicas sobre questões ambientais, sociais e de governança. Este movimento ganha força especialmente no Brasil, país que sediou a COP30 em Belém e se posiciona como protagonista global nas discussões sobre ação climática.

As empresas brasileiras enfrentam um novo cenário de negócios, onde riscos climáticos, perda de recursos naturais e expectativas sociais influenciam diretamente as decisões de investimento e a competitividade de longo prazo.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), 71% dos conselheiros brasileiros indicam que ESG será o principal tópico a ocupar mais tempo dos conselhos no futuro, percentual significativamente superior aos 50% registrados em outras regiões do mundo.

Esta mudança não representa apenas uma tendência passageira. Trata-se de uma reformulação profunda sobre como as organizações operam e geram valor para todas as partes interessadas. Os conselhos de administração estão sendo cobrados para demonstrar supervisão ativa, discernimento estratégico e responsabilidade sobre questões que antes eram consideradas periféricas.

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Riscos climáticos exigem supervisão estratégica

A gestão de riscos ambientais tornou-se um dos testes mais claros da capacidade de supervisão dos conselhos empresariais. Eventos climáticos extremos, estresse hídrico e degradação de ecossistemas já afetam estruturas de custos, continuidade operacional e crescimento de diversos setores da economia brasileira.

Conselhos eficazes tratam os riscos climáticos e ambientais como questões estratégicas centrais, não como notas técnicas secundárias.

A análise de cenários passou a orientar decisões de investimento e planejamento, enquanto os riscos ambientais são integrados às estruturas de gestão de riscos empresariais. Em resposta a essas demandas, muitas organizações ajustaram os mandatos de seus comitês, aumentaram o tempo dedicado às discussões de sustentabilidade e aprimoraram os relatórios internos sobre questões ESG.

Pesquisa da Russell Reynolds identificou que inovações disruptivas como inteligência artificial, diversidade e iniciativas ESG estão entre os principais desafios dos conselhos de administração em 2024. No Brasil, a sustentabilidade ganha destaque adicional pela realização da COP30 e pela recuperação do mercado de capitais como tema prioritário na agenda das lideranças empresariais.

Alocação de capital reflete compromisso com sustentabilidade

A sustentabilidade se torna real quando influencia a estratégia e a alocação de capital das empresas. Os conselhos de administração aprovam investimentos, definem tolerância ao risco e supervisionam planos de longo prazo. À medida que os mercados se ajustam às novas realidades climáticas e sociais, essas decisões determinam se as empresas permanecerão competitivas ao longo do tempo.

Conselhos que lideram de forma eficaz integram a sustentabilidade à discussão estratégica central, em vez de tratá-la como uma vertente paralela. Os principais investimentos são analisados sob a ótica da sustentabilidade, a estratégia é testada em cenários regulatórios e físicos, e os planos de crescimento refletem restrições ambientais e sociais.

Dados da consultoria EY indicam que os investimentos ESG podem alcançar US$ 53 trilhões até 2025. Este volume expressivo de recursos demonstra que empresas com boas práticas de governança terão acesso privilegiado a capital, enquanto aquelas com pontuações ESG inadequadas tendem a ser excluídas de fundos e índices de investimento sustentável.

COP30 coloca Brasil no centro da governança climática

A realização da COP30 em Belém, ocorrida entre 10 e 21 de novembro de 2025, representou uma oportunidade histórica para o Brasil demonstrar liderança na agenda ambiental global. O evento reuniu mais de 40 mil participantes de 190 países e consolidou importantes avanços em justiça climática, transição energética justa e participação social.

Entre as conquistas da conferência destacam-se a criação do Mecanismo de Belém para a Transição Global Justa, a adoção de indicadores voluntários para medir avanços na construção de resiliência, e o lançamento do Programa de Implementação de Tecnologia para fortalecer prioridades tecnológicas dos países em desenvolvimento. O Brasil também anunciou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre e a Coalizão Aberta para Integração do Mercado de Carbono.

Este contexto reforça a necessidade de conselhos de administração preparados para navegar na transição climática. As empresas brasileiras que integram critérios ESG em suas estratégias demonstram maior resiliência, melhor acesso a capital e maior confiança das partes interessadas. Organizações que tratam aspectos ESG como periféricos enfrentam maior exposição ao ativismo, danos à reputação e pontos cegos estratégicos.

Capacitação e diversidade fortalecem conselhos

Apesar dos progressos, muitos conselhos administrativos ainda enfrentam lacunas de competências. Questões de sustentabilidade são técnicas, evoluem rapidamente e muitas vezes estão fora da experiência tradicional dos conselheiros. Ciência climática, dependência da natureza, risco do capital humano e governança de dados não faziam parte da formação inicial da maioria dos diretores.

Estudo sobre diversidade de gênero e expertise dos conselhos brasileiros, realizado com 56 empresas entre 2016 e 2020, demonstrou que conselhos de administração com participação feminina influenciam positivamente a minimização dos impactos das atividades empresariais no meio ambiente e na sociedade. A diversidade de gênero e a expertise são mecanismos de governança que apresentam efeitos potenciais significativos nas dimensões ambiental, social e de governança.

Conselhos eficazes estão respondendo de diversas formas: recrutando diretores com experiência relevante em sustentabilidade, investindo na educação continuada de seus membros e recorrendo a conhecimentos especializados externos quando apropriado. A Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas à Natureza publicou guia específico para diretores de conselho, focado em como formular perguntas adequadas sobre riscos e oportunidades relacionados à natureza.

Incentivos alinham estratégia com resultados

Uma das mudanças mais significativas na governança foi a transição da elaboração de relatórios de sustentabilidade para a prestação de contas efetiva em sustentabilidade. Conselhos mais avançados vinculam incentivos executivos a resultados de sustentabilidade, incorporam metas ESG na avaliação de desempenho e recebem relatórios regulares focados na tomada de decisões.

Quando os incentivos refletem os resultados de sustentabilidade, as discussões mudam de qualidade. Metas climáticas, desempenho em segurança, indicadores de desempenho da força de trabalho e resiliência da cadeia de suprimentos ganham peso nas deliberações do conselho. A estrutura de remuneração executiva contendo condições de pagamento atreladas ao cumprimento de metas de sustentabilidade representa uma forma explícita de influenciar o comportamento e as decisões organizacionais.

Os próprios conselhos de administração também estão sob maior escrutínio. O comportamento de voto dos investidores evoluiu significativamente. Os diretores são cada vez mais responsabilizados por lacunas percebidas na supervisão de critérios ESG, o que aguçou a atenção sobre a capacidade, o engajamento e o discernimento dos conselhos.

Estruturas de governança apoiam supervisão eficaz

A estrutura organizacional é importante quando favorece o engajamento efetivo com questões de sustentabilidade. As empresas utilizam modelos diferentes: alguns criam comitês dedicados à sustentabilidade ou ESG, outros ampliam as atribuições dos comitês de risco ou auditoria, enquanto alguns atribuem ao conselho pleno a responsabilidade pelas principais questões de sustentabilidade.

O Instituto Brasileiro de Governança Corporativa oferece curso específico sobre Comitês ESG, posicionando essas instâncias como estratégicas no assessoramento ao conselho em pautas ESG. Os comitês podem debater com mais profundidade assuntos da agenda sustentável, acompanhar tendências, identificar riscos e oportunidades, e influenciar no desenho estratégico da organização.

Mecanismos de governança eficazes geralmente incluem responsabilidade clara pela supervisão da sustentabilidade, relatórios regulares ao conselho de administração, coordenação entre comissões e alinhamento com a estratégia, o risco e a remuneração. A sustentabilidade deve aparecer constantemente nas agendas, não apenas durante os ciclos de relatórios ou crises.

Mercado brasileiro exige liderança sustentável

O mercado brasileiro de créditos de carbono tem potencial para movimentar até US$ 120 bilhões até 2030, segundo estimativas do setor. O país possui legislação ambiental rigorosa e vasta área preservada, representando aproximadamente 60% do território nacional. Este contexto posiciona o Brasil como potencial líder global no mercado de carbono.

Plataformas como o Portal B4 desempenham papel fundamental nesta transformação, oferecendo infraestrutura baseada em blockchain para transformação de ativos sustentáveis. A tecnologia garante imutabilidade, rastreabilidade e transparência nas negociações de Certificados de Ação Climática em formato NFT, combatendo práticas de greenwashing e garantindo impacto real dos investimentos em sustentabilidade.

Os conselhos de administração que compreendem este novo cenário estão posicionando suas organizações para capturar oportunidades significativas. Empresas que integram a sustentabilidade à estratégia geralmente demonstram maior resiliência, melhor acesso a capital e maior confiança das partes interessadas.

Perspectivas para o futuro da governança

O papel do conselho de administração está evoluindo porque as condições em que as empresas operam mudaram fundamentalmente. Conselhos que se adaptam ajudam suas organizações a navegar pela transição com credibilidade e resiliência. Aqueles que não se preparam correm o risco de reagir aos eventos em vez de moldar os resultados.

A liderança sustentável em nível de diretoria não se trata de respostas perfeitas. Trata-se de julgamento informado, supervisão consistente e responsabilidade pelas consequências de longo prazo. Os conselhos devem perguntar regularmente: de que forma a sustentabilidade influencia nossa estratégia de longo prazo? Quais riscos climáticos ou naturais podem afetar o desempenho? Temos capacidade para supervisionar essas questões adequadamente?

Esta responsabilidade agora recai claramente sobre os conselhos de administração. As organizações que reconhecem esta realidade e agem proativamente estarão melhor posicionadas para prosperar em um ambiente de negócios cada vez mais influenciado por considerações ambientais, sociais e de governança.