Biocombustíveis avançam com novos acordos no Brasil

Enquanto petróleo domina debates globais, gigantes do setor investem em alternativas renováveis com parcerias estratégicas para descarbonização

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
8 Min

Biocombustíveis avançam com novos acordos no Brasil
Biocombustíveis ganham força com joint venture BP-Corteva e contratos estratégicos entre Petrobras e Vale para descarbonização do transporte. Foto: Canva

Em meio às tensões geopolíticas que colocaram o petróleo no centro das atenções internacionais após ações dos Estados Unidos contra a Venezuela, o mercado brasileiro de biocombustíveis registra movimentações estratégicas que reforçam a transição energética no setor de transportes.

A semana foi marcada por anúncios de peso: a petroleira britânica BP formalizou sociedade com a multinacional agrícola Corteva, enquanto a Petrobras amplia sua atuação com contrato de fornecimento para a Vale.

As iniciativas demonstram que, apesar da volatilidade do mercado de combustíveis fósseis, as empresas seguem apostando em soluções de baixo carbono como caminho inevitável para o futuro da mobilidade. O movimento ganha relevância especial no Brasil, país que historicamente lidera em biocombustíveis desde a criação do Proálcool na década de 1970 e que agora busca protagonismo também em combustíveis de aviação sustentáveis.

O momento reflete uma contradição característica da transição energética global: enquanto conflitos e sanções elevam os preços do petróleo e reforçam a dependência de combustíveis fósseis no curto prazo, investimentos bilionários em alternativas renováveis seguem crescendo, impulsionados por metas climáticas corporativas e regulações cada vez mais rigorosas.

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Gigantes do agro e energia se unem por SAF

A aliança entre BP e Corteva resultou na criação da Etlas, nova empresa com participação igualitária entre as companhias. O foco do empreendimento está na produção de matéria-prima vegetal destinada à fabricação de combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês) e diesel renovável, dois dos segmentos mais promissores da bioenergia.

A Etlas vai desenvolver culturas agrícolas específicas como canola, mostarda e girassol, todas com alto potencial de conversão em óleo para biocombustíveis. A escolha dessas oleaginosas não é casual: elas apresentam rendimento energético superior e podem ser cultivadas em áreas que não competem diretamente com a produção de alimentos, um dos principais pontos de atenção no debate sobre biocombustíveis.

A meta estabelecida pela joint venture é ambiciosa: alcançar uma produção anual de um milhão de toneladas métricas de matéria-prima até 2030. Esse volume tem potencial de gerar mais de 800 mil toneladas de biocombustível por ano, quantidade significativa para atender à crescente demanda do setor de aviação, que busca alternativas para reduzir suas emissões de gases de efeito estufa.

O fornecimento de óleo deve começar em 2027, prazo que considera desde o desenvolvimento das variedades vegetais até a estruturação da cadeia produtiva. Para a BP, a parceria representa um passo estratégico na diversificação de seu portfólio energético, enquanto a Corteva, gigante do agronegócio, expande sua atuação para além dos insumos tradicionais.

Desafio da aviação sustentável

O segmento de aviação enfrenta pressões crescentes para reduzir sua pegada de carbono. Responsável por cerca de 2% a 3% das emissões globais de CO2, o setor tem poucas alternativas tecnológicas viáveis no curto prazo. Diferentemente do transporte terrestre, que pode recorrer à eletrificação, a aviação comercial ainda depende de combustíveis líquidos de alta densidade energética.

Nesse contexto, o SAF surge como a principal solução de transição. Produzido a partir de biomassa, óleos vegetais ou resíduos, esse combustível pode reduzir as emissões de carbono em até 80% comparado ao querosene de aviação convencional, considerando todo o ciclo de vida do produto. A União Europeia já estabeleceu metas mandatórias para mistura de SAF nos aeroportos do bloco, começando com 2% em 2025 e chegando a 70% em 2050.

O Brasil tem vantagens competitivas naturais para se tornar um grande produtor de SAF: disponibilidade de terras agricultáveis, clima favorável, experiência consolidada em biocombustíveis e uma indústria aeronáutica desenvolvida. No entanto, o país ainda não possui regulação específica para o produto, diferentemente do biodiesel e etanol.

Petrobras aposta em diesel verde

Em outra frente, a Petrobras fechou acordo com a Vale para fornecimento de diesel S10 com adição de 15% de biodiesel destinado às operações da mineradora em Minas Gerais. Embora as empresas não tenham divulgado valores ou volumes do contrato, a parceria sinaliza a estratégia da petroleira de se aproximar de grandes consumidores industriais após a venda da BR Distribuidora.

O contrato vai além do fornecimento tradicional. Prevê também a possibilidade de comercialização de Diesel R e negociações para o futuro fornecimento de HVO (Hydrotreated Vegetable Oil, ou óleo vegetal hidrotratado), tecnologia avançada de produção de diesel renovável que oferece desempenho superior ao biodiesel convencional.

O HVO representa uma evolução tecnológica no setor de biocombustíveis. Diferentemente do biodiesel tradicional produzido por transesterificação, o HVO passa por processo de hidrotratamento que resulta em um combustível quimicamente idêntico ao diesel de petróleo, mas de origem renovável. Isso permite seu uso puro ou em qualquer proporção de mistura, sem necessidade de adaptações nos motores.

Histórico de parceria verde

A colaboração entre Petrobras e Vale na área de descarbonização não é nova. Desde 2023, as companhias desenvolvem conjuntamente soluções de baixo carbono para o setor de mineração e transporte. Em 2024, firmaram acordo de cooperação que incluiu testes de diesel R5 (com 5% de conteúdo renovável além dos 15% obrigatórios de biodiesel) e de bunker com 24% de parcela renovável para embarcações.

Para a Vale, que estabeleceu meta de reduzir em 33% suas emissões absolutas de escopos 1 e 2 até 2030, a substituição de combustíveis fósseis por renováveis em sua frota e operações é estratégica. A mineradora opera centenas de caminhões, locomotivas e embarcações que consomem milhões de litros de diesel anualmente.

A Petrobras, por sua vez, busca reposicionar-se no mercado de renováveis após anos focada exclusivamente em petróleo e gás. A estatal anunciou investimentos crescentes em biocombustíveis em seu último plano estratégico, incluindo a construção de biorefinarias e o desenvolvimento de rotas tecnológicas para produção de diesel verde e bioquerosene de aviação.

Latam corta emissões em solo

Ainda no setor de transporte, a companhia aérea Latam divulgou resultados de suas iniciativas de redução de emissões em operações terrestres nos aeroportos brasileiros. Em 2025, a empresa evitou a emissão de 16 mil toneladas de CO2 em oito aeroportos do país através de medidas como substituição de equipamentos movidos a combustível fóssil e conexão das aeronaves à infraestrutura elétrica dos terminais.

O projeto faz parte de uma estratégia mais ampla da Latam para diminuir em 80% o consumo de combustível necessário para manter os sistemas das aeronaves funcionando enquanto estão estacionadas no pátio. Durante esse período, chamado de APU (Auxiliary Power Unit), os aviões tradicionalmente queimam querosene para alimentar sistemas elétricos, ar-condicionado e outros equipamentos.

Ao conectar as aeronaves à rede elétrica dos aeroportos através de equipamentos de GPU (Ground Power Unit), a companhia elimina a necessidade de manter os motores auxiliares ligados. A medida também substituiu tratores e outros veículos de apoio movidos a diesel por versões elétricas ou híbridas.

Economia além do ambiental

Os números divulgados pela Latam revelam que sustentabilidade e economia caminham juntas. Com as soluções em solo, a companhia deixou de consumir cerca de 6,4 milhões de litros de combustível no último ano, gerando economia de US$ 2 milhões. O resultado demonstra que iniciativas de descarbonização podem trazer retorno financeiro direto, especialmente em momentos de preços elevados do petróleo.

Para o setor de aviação brasileiro, essas iniciativas ganham importância adicional. O país sediará a COP30 em Belém em 2025, evento que colocará o Brasil no centro dos debates climáticos globais. Empresas que demonstrarem avanços concretos em redução de emissões estarão melhor posicionadas reputacionalmente e podem se beneficiar de futuras regulações e incentivos.

O conjunto de notícias da semana reforça uma tendência: mesmo com o petróleo voltando aos holofotes por questões geopolíticas, a transição para uma economia de baixo carbono no setor de transportes segue seu curso. Os investimentos em biocombustíveis, combustíveis de aviação sustentáveis e eletrificação de operações terrestres indicam que as empresas enxergam a descarbonização não apenas como obrigação regulatória ou de imagem, mas como oportunidade de negócio e diferencial competitivo no médio e longo prazo.


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