Bancos lucram mais com projetos verdes que com fósseis

Finanças sustentáveis superam receitas de petróleo e gás pelo quarto ano seguido em Wall Street, apesar de pressões políticas

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
6 Min

Bancos lucram mais com projetos verdes que com fósseis
Instituições financeiras americanas lideram receitas com projetos de energia limpa e títulos verdes pelo quarto ano consecutivo. Foto: Freepik

Os maiores bancos de Wall Street consolidaram uma tendência que redefine o mercado financeiro global: pela quarta vez consecutiva, as receitas provenientes de financiamentos verdes superaram os ganhos obtidos com empresas de combustíveis fósseis.

Em 2025, instituições financeiras arrecadaram aproximadamente US$ 3,7 bilhões com empréstimos e emissões de títulos vinculados a projetos climáticos, marca 28% superior aos US$ 2,9 bilhões gerados por operações ligadas a petróleo, gás e carvão.

Os números, compilados pela agência Bloomberg, revelam uma mudança estrutural no setor financeiro internacional. Mesmo diante de um cenário político desfavorável nos Estados Unidos, com o retorno de Donald Trump à presidência e sua postura contrária às políticas climáticas, os bancos mantêm o foco em ativos sustentáveis como principal fonte de receita no segmento de financiamentos corporativos.

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A transição não aconteceu sem obstáculos. O volume total de receitas com projetos verdes registrou queda em relação a 2024, quando os bancos arrecadaram US$ 4,2 bilhões. Essa redução coincide com o fim da Net-Zero Banking Alliance, coalizão internacional que reunia instituições financeiras comprometidas em reduzir a pegada de carbono de suas carteiras de investimento e empréstimos.

Pressão política e reconfiguração do mercado verde

A dissolução da aliança climática dos bancos representa um capítulo significativo nas finanças sustentáveis globais. Criada em 2021 durante a COP26 em Glasgow, a coalizão chegou a reunir mais de 130 bancos de 45 países, controlando cerca de US$ 70 trilhões em ativos. O objetivo era alinhar as operações bancárias com as metas do Acordo de Paris e alcançar emissões líquidas zero até 2050.

Entretanto, a pressão política exercida pela administração Trump levou diversas instituições americanas a abandonarem o compromisso. O ex-presidente classificou as iniciativas climáticas como "ideologia ambientalista radical" que prejudicaria a competitividade da economia dos Estados Unidos. Entre as instituições que deixaram a aliança estão gigantes como JPMorgan Chase, Bank of America, Citigroup, Wells Fargo, Goldman Sachs e Morgan Stanley.

Apesar da saída formal dessas instituições, os dados de 2025 demonstram que a lógica de mercado prevalece sobre posicionamentos políticos. Os bancos continuam encontrando maior lucratividade em projetos de energia renovável, eficiência energética e infraestrutura sustentável do que em empreendimentos tradicionais do setor de combustíveis fósseis.

Títulos verdes dominam emissões corporativas

O crescimento das receitas com financiamento verde está diretamente relacionado à expansão do mercado de green bonds (títulos verdes). Esses instrumentos financeiros permitem que empresas e governos captem recursos especificamente para projetos com benefícios ambientais comprovados, como geração de energia solar e eólica, transporte público limpo, eficiência hídrica e construções sustentáveis.

Segundo a Climate Bonds Initiative, organização internacional especializada no mercado de títulos verdes, as emissões globais desse tipo de papel devem ultrapassar US$ 1 trilhão em 2025, estabelecendo novo recorde. Para os bancos, estruturar essas operações significa receitas através de taxas de subscrição, serviços de consultoria financeira, certificação de projetos e intermediação nas negociações secundárias.

A demanda crescente por esses ativos vem tanto de investidores institucionais quanto de fundos de pensão e gestoras de recursos que adotam critérios ESG (ambientais, sociais e de governança) em suas políticas de investimento. Muitos desses investidores enfrentam pressão de clientes e reguladores para demonstrar contribuições efetivas na mitigação das mudanças climáticas.

Brasil e o potencial do mercado de carbono

A dinâmica observada em Wall Street encontra paralelo no desenvolvimento do mercado de carbono brasileiro. Com a aprovação da Lei 15.042/2024, que institui o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), o país avança na regulamentação de um mercado que pode movimentar até R$ 580 bilhões até 2030, segundo estimativas do setor.

Plataformas como a B4, primeira bolsa de ação climática do Brasil, utilizam tecnologia blockchain para garantir transparência e rastreabilidade na negociação de créditos de carbono e outros ativos sustentáveis. A plataforma transforma projetos ambientais em Certificados de Ação Climática em formato NFT, criando um mercado digital que combate duplicidades e fraudes, problemas recorrentes no mercado voluntário de carbono.

A experiência internacional demonstra que instituições financeiras que investem em transformação de ativos sustentáveis e desenvolvimento de infraestrutura verde conquistam vantagens competitivas de longo prazo. Esse movimento inclui desde a estruturação de produtos financeiros específicos até a capacitação de equipes especializadas em avaliação de riscos climáticos.

Desafios e oportunidades para o setor financeiro

Apesar dos números positivos, o setor financeiro enfrenta desafios significativos na transição para uma economia de baixo carbono. A principal dificuldade reside em equilibrar compromissos climáticos com a rentabilidade dos investimentos, especialmente considerando que muitas empresas de combustíveis fósseis ainda representam clientes importantes para os bancos.

Outro ponto crítico é a necessidade de padronização na classificação de projetos verdes. Sem critérios claros e universalmente aceitos, aumentam os riscos de greenwashing (lavagem verde), prática onde empresas exageram ou distorcem seus benefícios ambientais para atrair investimentos. Órgãos reguladores em diversos países trabalham no desenvolvimento de taxonomias que definam precisamente o que pode ser considerado um investimento sustentável.

Para o Brasil, o momento é particularmente estratégico. Com a COP30 marcada para 2025 em Belém, o país busca se posicionar como protagonista global em soluções climáticas. A combinação de recursos naturais abundantes, legislação ambiental robusta e crescente sofisticação do mercado financeiro cria condições favoráveis para que instituições brasileiras capturem parcela significativa dos recursos internacionais destinados a projetos de ação climática.

Futuro

Analistas do mercado financeiro projetam que a tendência de crescimento das receitas com financiamento verde deve se manter nos próximos anos, independentemente de oscilações políticas. Fatores estruturais, como custos decrescentes de tecnologias limpas, aumento da frequência de eventos climáticos extremos e pressão regulatória em diversas jurisdições, reforçam a atratividade econômica dos investimentos sustentáveis.

Instituições que se anteciparem nessa transição, desenvolvendo expertise em avaliação de projetos climáticos e criando produtos financeiros inovadores, tendem a conquistar posições de liderança no mercado. A experiência de 2025, quando mesmo sob pressão política as receitas verdes mantiveram supremacia sobre combustíveis fósseis, confirma que a sustentabilidade deixou de ser apenas um valor social para se tornar imperativo econômico no setor financeiro global.


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