BNDES investe R$ 384 mi em projeto de estocagem de CO2

Projeto inédito pode colocar Brasil na vanguarda da inovação em biocombustíveis sustentáveis

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
6 Min

BNDES investe R$ 384 mi em projeto de estocagem de CO2
BNDES aprova R$ 384 mi para projeto inédito de captura de CO₂ da FS. Foto: Canva

O BNDES aprovou um recurso expressivo para fomentar uma iniciativa tecnológica inovadora no setor de biocombustíveis. A FS Indústria de Biocombustíveis, uma das maiores produtoras de etanol de milho do país, receberá R$ 384,3 milhões destinados ao desenvolvimento de uma unidade singular de transformação de ativos sustentáveis. Esse financiamento, oriundo do programa BNDES Mais Inovação, marca um passo significativo na estratégia de descarbonização brasileira.

A iniciativa coloca em evidência um desafio crescente no contexto global: a necessidade de reduzir drasticamente as emissões de gases de efeito estufa.

Segundo dados da própria empresa, a operação industrial da FS em Lucas do Rio Verde (MT) emite aproximadamente 423 mil toneladas de CO₂ anualmente apenas no processo de fermentação da produção de etanol. Com a implementação do projeto, esse passivo ambiental será transformado em um diferencial estratégico.

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O que é BECCS e como funciona?

A solução adotada pela FS denomina-se Bioenergy with Carbon Capture and Storage (BECCS), uma metodologia que vai além do simples armazenamento: captura, comprime, desidrata e injeta o dióxido de carbono em depósitos subterrâneos de forma permanente.

O procedimento é tecnicamente sofisticado e ambientalmente seguro. O dióxido será injetado a profundidades superiores a 800 metros no subsolo, utilizando os reservatórios salinos da Bacia dos Parecis, formação geológica que se estende por toda a região onde a empresa opera suas três plantas.

Os estudos de viabilidade concluídos pela empresa revelaram condições geológicas ideais para essa operação.

A formação rochosa Diamantino, localizada especificamente na Bacia mencionada, possui características de porosidade e permeabilidade adequadas para receber o gás com segurança. Ainda mais importante, existe uma camada selante de rocha com 128 metros de espessura (equivalente a um prédio de 40 andares) que evita qualquer vazamento do carbono de volta à superfície, garantindo armazenamento permanente.

Globalmente, apenas duas unidades de produção de etanol utilizam essa tecnologia em operação comercial, ambas localizadas nos Estados Unidos.

No entanto, o diferencial brasileiro é substancial: enquanto as instalações americanas usam energia de origem fóssil em seus processos e milho de safra única, a operação da FS em Lucas do Rio Verde operará com bioenergia renovável proveniente de florestas plantadas e utilizará exclusivamente milho de segunda safra.

Essa combinação permite que o Brasil produza o que seria tecnicamente o primeiro etanol com pegada de carbono negativa do mundo.

Transformação de ativos sustentáveis em escala

O projeto representa mais do que uma solução pontual para uma empresa. Sua implementação inicial em Lucas do Rio Verde abre caminho para expansão das operações.

A FS planeja estender a tecnologia BECCS para suas demais unidades localizadas em Sorriso e Primavera do Leste, cidades que também se situam sobre a mesma formação geológica propícia.

Quando a tecnologia for plenamente implantada em todas essas operações, o potencial de remoção de carbono da atmosfera superará 1,8 milhão de toneladas anualmente.

Rafael Abud, líder executivo da FS, considera essa transformação de ativos sustentáveis crucial para a visão corporativa. Segundo ele, o BECCS abre mercados inteiramente novos para a organização, particularmente o segmento de créditos de carbono. A empresa estabeleceu como meta atingir 32 milhões de CBIOs (Certificados de Operação de Bioenergia) até 2030, através da implementação de seu plano de expansão conjugado com essa inovação tecnológica.

Implicações para o mercado de carbono brasileiro

O contexto é estratégico para o Brasil. O país tem se posicionado como protagonista nas discussões climáticas internacionais, particularmente com a proximidade da COP30 em Belém.

O investimento do BNDES na FS alinha-se perfeitamente com os compromissos assumidos pelo governo na conferência climática anterior. Em particular, aproxima o Brasil do objetivo de implementar um mercado de carbono regulado verdadeiramente funcional.

Segundo Aloizio Mercadante, presidente do BNDES, o financiamento reflete o compromisso institucional com a agenda de transição energética do governo federal. O executivo destacou que a remoção de 423 mil toneladas anuais de CO₂ contribui diretamente com as metas assumidas pelo país no Acordo de Paris, compromisso internacional que estabelece reduções de emissões obrigatórias.

O setor de biocombustíveis representa um dos maiores diferenciais competitivos do Brasil no mercado global. Estudos indicam que se a indústria de etanol adotasse em larga escala a tecnologia BECCS, as emissões de carbono poderiam ser reduzidas em aproximadamente 77 milhões de toneladas anuais, volume equivalente a quase 39% das emissões do setor de transporte rodoviário brasileiro.

Tecnologia além do etanol

A solução não se limita ao combustível para veículos. O etanol produzido mediante a tecnologia BECCS pode alimentar a produção de Combustível Sustentável de Aviação (SAF) e combustíveis para navegação, segmentos em acelerada expansão no contexto global de descarbonização do transporte. Isso multiplica exponencialmente o impacto potencial da iniciativa.

José Luís Gordon, diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES, reforçou a importância estratégica. Segundo ele, o crescimento da oferta de etanol de milho tem sido fundamental para garantir o abastecimento doméstico. Em 2023, o setor alcançou quase 6 bilhões de litros, representando cerca de 20% da produção nacional de etanol.

Desafios regulatórios por diante

Apesar da aprovação do financiamento, a implementação completa do projeto depende de avanços regulatórios. A FS necessita obter licenças junto aos órgãos competentes, incluindo a Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso e particularmente a Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP).

Esta agência assume papel central na regulamentação de atividades correlatas de armazenamento de carbono, conforme previsto na legislação do programa Combustível do Futuro.

O cronograma previsto indica que as operações de injeção de CO₂ no subsolo poderão iniciar em 2026, condicionado à conclusão de todos os procedimentos de licenciamento. Até lá, a empresa investirá adicionalmente aproximadamente R$ 350 milhões em equipamentos especializados de captura, compressão e desidratação do gás.


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