Práticas ESG na mineração podem gerar R$ 399 bi ao ano no Brasil

Estudo da EY lançado na COP30 mostra que setor pode elevar atividade econômica em 20,81% com adoção estratégica de critérios ambientais, sociais e de governança

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
9 Min

Práticas ESG na mineração podem gerar R$ 399 bi ao ano no Brasil
Mineração brasileira demonstra na COP30 potencial de gerar R$ 399 bilhões anuais adicionais com práticas ESG. Foto: Canva

A incorporação estratégica de práticas ambientais, sociais e de governança (ESG) na mineração brasileira pode gerar incremento de 20,81% na atividade econômica do setor, valor equivalente ao crescimento acumulado dos últimos cinco anos, segundo dados da PIA/IBGE. As informações integram o estudo Impact Edge, da EY-Parthenon, lançado durante a COP30 em Belém, revelando potencial transformador das iniciativas sustentáveis para toda a economia nacional.

O levantamento apresentado na EY House durante a conferência climática destaca que os benefícios ultrapassam as fronteiras das empresas que adotam essas práticas e se estendem a toda a economia brasileira. Os ganhos totais podem alcançar impressionantes R$ 399 bilhões adicionais por ano, montante comparável ao PIB do estado da Bahia em 2022.

A análise aponta a geração de mais de 3 milhões de novos empregos, número equivalente à população do estado de Alagoas, reforçando o impacto transformador das iniciativas sustentáveis para o mercado de trabalho brasileiro. Esses dados demonstram que investimentos em ESG transcendem a responsabilidade corporativa e se convertem em motor de desenvolvimento econômico e social.

O setor de mineração mantém papel central na economia brasileira, tendo alcançado em 2024 um PIB de R$ 290,6 bilhões, o que representa 2,67% de tudo que o país produz. Essa participação significativa na economia nacional torna ainda mais relevantes os impactos potenciais da adoção abrangente de práticas ESG no setor.

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Ganhos ambientais mensuráveis e significativos

Os resultados são expressivos no campo ambiental. A adoção efetiva das iniciativas divulgadas pelas empresas mapeadas no estudo pode evitar a emissão de 19,52 milhões de toneladas de CO₂ e preservar cerca de 4,8 trilhões de litros de água, além de impedir a geração de 400 milhões de toneladas de resíduos.

A indústria mineral tem agido em busca de uma grande transformação em seus processos, incluindo segurança operacional, mitigação de impactos, desenvolvimento das comunidades anfitriãs, entre outras pautas relevantes. Essas ações demonstram reconhecimento crescente do setor sobre a necessidade de reconciliar atividade econômica com responsabilidade ambiental.

A preservação de recursos hídricos assume importância crítica, especialmente considerando que a demanda mundial por água doce está projetada para superar a oferta em 40% até 2030, e na América Latina, o aumento no estresse hídrico estimado é de 80% ou mais até 2030. Nesse contexto, as práticas de gestão hídrica eficiente tornam-se não apenas responsabilidade ambiental, mas imperativo estratégico.

Diversidade, inclusão e impactos sociais

No campo social, o estudo destaca a criação de 7.152 vagas afirmativas em posições de liderança, demonstrando disposição do setor em impulsionar diversidade, inclusão e equidade. Há ações importantes a serem tomadas para a inclusão de pessoas de diferentes etnias, pessoas LGBTQI+, PCDs e povos tradicionais, ampliando o conceito de diversidade para além da igualdade de gênero.

O Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) lançou em 2024 o DIVERSIBRAM – Diversidade e Inclusão da Mineração do Brasil, evento dedicado a reflexões sobre temas relacionados à igualdade de gênero, mulheres na mineração e liderança inclusiva, consolidando o compromisso setorial com essas pautas.

Na esfera da saúde pública, os números impressionam. Estima-se que 93.056 internações seriam evitadas anualmente, representando economia de R$ 47,77 milhões ao Sistema Único de Saúde. Esse valor pode ser estrategicamente realocado para áreas prioritárias como educação, segurança e infraestrutura, demonstrando como práticas ambientais responsáveis geram benefícios transversais para toda a sociedade.

A redução de internações reflete impactos positivos na qualidade do ar, gestão adequada de resíduos e minimização de contaminação ambiental, fatores que afetam diretamente a saúde das populações próximas a empreendimentos minerários.

Transição de paradigma no setor

Elanne Almeida, Líder Global de Sustentabilidade para Mineração e Metais da EY, enfatizou que a mineração brasileira vive momento decisivo. Segundo ela, existe oportunidade de deixar para trás visão arcaica de que o setor estava fundamentalmente vinculado a riscos ambientais e sociais.

As empresas vêm investindo significativamente em práticas robustas de gestão de riscos com o objetivo de aumentar a resiliência de sua infraestrutura aos efeitos das mudanças climáticas e mitigar seu impacto nos biomas onde opera. A transição já começou, e os resultados mostram que é plenamente possível conciliar competitividade econômica com responsabilidade ambiental e inclusão social.

A executiva destacou que quem conseguir alinhar estratégia, dados e execução estará preparado para transformar a transição climática em vantagem competitiva de longo prazo. Essa perspectiva reposiciona a agenda ESG não como custo ou obrigação, mas como investimento estratégico com retornos mensuráveis.

A mineração ocupa posição estratégica na economia brasileira, fornecendo matérias-primas essenciais para setores como indústria de base, construção civil, energia e tecnologias emergentes. O Brasil é hoje o segundo maior produtor mundial de minério de ferro e o quinto maior produtor de minerais em geral, o que o coloca em destaque no cenário global.

Com o avanço acelerado da indústria tecnológica, cresce também a demanda por minerais críticos e terras raras, recursos fundamentais para a transição energética e digital. Para atender à crescente demanda, a indústria de mineração precisará construir novos projetos em uma escala sem precedentes, com mais de 300 novas minas necessárias até 2035.

ESG

O setor atravessa momento de profundas transformações. O compromisso com práticas ESG deixou de ser apenas exigência regulatória e passou a representar nova forma de operar. A implementação de medidas de redução de emissões, eficiência energética, melhor gestão hídrica e de resíduos têm mostrado que investir em sustentabilidade é decisão estratégica cujo valor extrapola os típicos indicadores ESG.

O ESG é considerado o maior "risco" e, ao mesmo tempo, a maior "oportunidade" para o setor de mineração e metais no Brasil, segundo estudo da consultoria EY e do IBRAM. Essa dupla natureza reflete a complexidade do momento: empresas que não se adaptarem enfrentarão riscos crescentes, enquanto aquelas que liderarem a transição colherão oportunidades significativas.

Elanne Almeida ressaltou que o impacto gerado extrapola o território onde as empresas atuam, gerando efeitos na economia como um todo. O Impact Edge demonstrou que esse impacto é muito maior do que se conhecia anteriormente, quantificando benefícios que antes eram apenas estimados qualitativamente.

Desafios persistentes e necessários

Os desafios, no entanto, seguem expressivos. Aspectos como gestão dos recursos hídricos, descarbonização de processos intensivos em energia e segurança de barragens e rejeitos continuam sob forte escrutínio público e regulatório, e competem por capital em contexto de instabilidade política internacional que reduz o apetite ao risco.

Esse cenário cria mindset de cautela, redução de custos e preservação do capital, pelo menos no curto prazo. Além disso, é necessário fortalecer a governança socioambiental, ampliar o diálogo com as comunidades e garantir maior transparência e rastreabilidade nas cadeias de suprimentos minerais.

As principais empresas de mineração estão ajudando a alimentar o mundo. Ao mesmo tempo, pavimentam o caminho para um futuro de baixa emissão de carbono e fornecem recursos essenciais para infraestrutura. Essa dupla responsabilidade – produzir recursos essenciais enquanto minimiza impactos ambientais – define o desafio central do setor nas próximas décadas.

Modelos de valor compartilhado

Essas dinâmicas vêm redefinindo as prioridades de investimento no setor. Modelos antes focados em conformidade deram lugar a estratégias estruturadas de criação de valor compartilhado, que unem eficiência operacional e impacto socioambiental positivo.

O IBRAM estabeleceu diversos propósitos voluntários para a indústria minerária alinhados com os propósitos do ESG relacionados a 12 áreas: Segurança operacional; Barragens e estruturas de disposição de rejeitos; saúde e segurança ocupacional; mitigação de impactos ambientais; desenvolvimento local e futuro dos territórios; relacionamento com comunidades; comunicação & reputação; diversidade & inclusão; Inovação; Água; Energia; e Gestão de resíduos.

Essa abordagem abrangente demonstra reconhecimento de que sustentabilidade no setor mineral não se resume a questões ambientais, mas engloba dimensões sociais, econômicas e de governança interconectadas.

Papel na segurança alimentar global

A mineração desempenha papel fundamental na segurança alimentar global e na redução do impacto da produção agrícola sobre o meio ambiente, devido a sua conexão direta com o fornecimento de matérias-primas necessárias para uma ampla gama de insumos e produtos consumíveis exigidos na agricultura.

A melhoria da produtividade das colheitas favorece a redução no desmatamento, responsável atualmente por 20% do total de emissões globais de gases de efeito estufa. Essa conexão entre mineração, agricultura e clima demonstra interdependências complexas que tornam ainda mais relevante a adoção de práticas sustentáveis no setor.

Timing estratégico com COP30

O lançamento do estudo Impact Edge durante a COP30 em Belém não foi casual. Com o Brasil posicionando-se como liderança climática global e preparando-se para sediar novamente conferências internacionais sobre meio ambiente, o setor mineral busca demonstrar que pode ser parte da solução, não apenas do problema.

A mineração fornece materiais essenciais para a transição energética – de baterias para veículos elétricos a componentes para painéis solares e turbinas eólicas. Sem mineração sustentável, a transição para economia de baixo carbono simplesmente não será possível em escala global.

O estudo da EY-Parthenon oferece base quantitativa robusta para argumentar que investimentos em ESG no setor mineral não representam trade-off entre economia e meio ambiente, mas sim convergência de interesses que beneficia empresas, trabalhadores, comunidades, meio ambiente e economia nacional como um todo.


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