Governador da Califórnia detona ausência dos EUA na COP30

Gavin Newsom critica vácuo de liderança americana na conferência climática de Belém e chama postura de Trump de "vergonhosa"

Por Por Geisa Silva-
8 Min

Governador da Califórnia detona ausência dos EUA na COP30
Governador da Califórnia, Gavin Newsom, durante o Simpósio Global de Investidores do Instituto Milken em São Paulo — Foto: Divulgação/Gavin Newsom no X

O governador da Califórnia, Gavin Newsom, um dos principais nomes do Partido Democrata nos Estados Unidos, lançou fortes críticas à ausência total de representantes do governo federal americano na COP30, conferência climática da ONU que acontece em Belém, no Pará.

Durante sua participação no Global Investors' Symposium São Paulo 2025, organizado pelo Milken Institute nesta segunda-feira (10), o político não poupou palavras ao classificar a situação como "um vácuo de liderança" que deixa o queixo caído.

A presença de Newsom no Brasil não é coincidência. O governador está no país justamente para preencher o espaço deixado pela administração Trump, que tomou a decisão inédita de não enviar sequer um observador para o evento climático mais importante do ano.

"Estou aqui por conta da ausência de qualquer liderança do governo dos EUA, é um vácuo. É de deixar o queixo caído. Nem um representante, nem um espectador para tomar notas foi levado a Belém. Isso é uma reversão completa do progresso feito pelo governo Biden", declarou o democrata.

Guerra ideológica e interesses econômicos na questão climática

Durante o simpósio que reuniu investidores globais e autoridades para discutir parcerias em sustentabilidade e inovação, Newsom foi categórico ao apontar os bastidores da política ambiental americana. "É uma guerra ideológica a nível federal. São interesses, siga o dinheiro. Estamos dobrando a aposta na estupidez nos EUA, mas não no estado da Califórnia", disparou o governador, deixando claro o posicionamento divergente entre seu estado e o governo federal.

O político revelou estar chocado com a postura do presidente Donald Trump em relação ao evento. Com quatro filhos, Newsom demonstrou preocupação pessoal com o futuro: "Não sei que droga está acontecendo no meu país. Nenhuma pessoa do governo americano para mostrar respeito a vocês. Esqueça a política, é um desrespeito".

O governador destacou a importância do Brasil como parceiro comercial e democrático dos Estados Unidos, criticando duramente a abordagem tarifária de Trump.

"Estamos no Brasil, um dos nossos maiores parceiros comerciais e uma das grandes democracias do mundo. Tanta terra rara aqui, mas em vez disso dedo do meio com tarifas de 50%. É vergonhoso", afirmou Newsom, referindo-se às ameaças protecionistas da atual administração americana.

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Califórnia como exemplo de crescimento econômico sustentável

A presença de Newsom na COP30 não é apenas simbólica. O governador lidera o estado americano que se tornou referência mundial em políticas climáticas sem comprometer o crescimento econômico. Dados recentes mostram que a Califórnia reduziu suas emissões de gases de efeito estufa em 21% desde 2000, enquanto sua economia cresceu 81% no mesmo período, consolidando-se como a quarta maior economia do mundo.

Com investimentos superiores a 50 bilhões de dólares em ação climática, o estado californiano criou uma proporção de sete empregos verdes para cada emprego em combustíveis fósseis. A transição energética californiana tem proporcionado também benefícios diretos à população: mais de 11,5 milhões de residências receberam recentemente reembolsos automáticos em suas contas de energia através do California Climate Credit.

O compromisso ambiental da Califórnia vai além dos números econômicos. O estado estabeleceu a meta de conservar 30% de suas terras e águas costeiras até 2030, tendo já protegido 26% de suas terras e 21% de suas águas costeiras. Esta abordagem integrada demonstra que sustentabilidade e prosperidade econômica podem caminhar juntas.

Embate digital entre Trump e governador do Pará

A tensão diplomática em torno da COP30 ganhou um capítulo adicional quando o presidente Trump criticou publicamente a construção da Avenida Liberdade, em Belém. Nas redes sociais, o republicano afirmou que o Brasil "devastou a floresta" para construir uma rodovia de quatro pistas para ambientalistas, classificando o projeto como "um grande escândalo".

A declaração de Trump, baseada em reportagem da Fox News que alegava o corte de 100 mil árvores, provocou resposta imediata do governador do Pará, Helder Barbalho. O político brasileiro rebateu as críticas com dados concretos e um convite inusitado: "No mínimo, deveria seguir o exemplo do Governo do Brasil e investir mais de R$ 1 bilhão para salvar florestas no mundo. Ainda dá tempo de passar na COP30, presidente Trump. Esperamos você com um tacacá. É melhor agir do que postar".

O governo federal brasileiro esclareceu que a Avenida Liberdade não faz parte das 33 intervenções previstas para a COP30 e que a obra é de responsabilidade exclusiva do estado do Pará, tendo sido licenciada antes mesmo de Belém ser confirmada como sede da conferência climática. Além disso, autoridades locais destacaram que a rodovia foi construída seguindo o traçado de uma linha de transmissão de energia, em área onde a vegetação já havia sido suprimida.

Representação subnacional na ausência federal

A viagem de Newsom ao Brasil inclui uma delegação robusta de autoridades californianas, entre elas o Secretário de Recursos Naturais Wade Crowfoot, a Secretária de Alimentação e Agricultura Karen Ross, a Presidente da Comissão de Serviços Públicos Alice Reynolds, a Presidente do Conselho de Recursos do Ar Lauren Sanchez e a Secretária de Assuntos Tribais Christina Snider-Ashtari.

Esta não é a primeira vez que o governador assume protagonismo internacional em questões climáticas. Newsom foi nomeado copresidente do Fórum de Líderes Locais da COP30, que reúne prefeitos, governadores e líderes subnacionais de todo o mundo. Ele também copreside a Aliança Climática dos EUA e a coalizão bipartidária "America is All-In", demonstrando liderança que transcende partidarismos quando o tema é meio ambiente.

Parceria Brasil-Califórnia fortalece cooperação climática

Em setembro, durante a Semana do Clima em Nova York, Brasil e Califórnia assinaram memorando de entendimento para ampliar cooperação em clima, energia limpa e mercados de carbono. O acordo, firmado pela ministra Marina Silva e por Newsom, prevê ações conjuntas em transporte de baixa emissão, conservação de ecossistemas, desenvolvimento de tecnologias limpas e fortalecimento de mercados de carbono.

Esta parceria estratégica ganha ainda mais relevância diante do isolacionismo climático da administração Trump, que retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris. Para especialistas em diplomacia ambiental, iniciativas como esta demonstram que governos subnacionais podem preencher lacunas deixadas por lideranças federais em retrocesso.

Primeira ausência americana em conferência climática desde 1992

A decisão da administração Trump de não enviar delegação oficial à COP30 marca um momento histórico: é a primeira vez desde 1992 que os Estados Unidos não participam de uma conferência da ONU sobre mudanças climáticas. A Casa Branca justificou a ausência afirmando que "o presidente Trump não colocará em risco a segurança econômica e nacional do país para perseguir metas climáticas vagas que estão prejudicando outras nações".

Essa postura isolacionista contrasta drasticamente com a do governo anterior. Durante a administração Biden, os Estados Unidos retornaram ao Acordo de Paris e estabeleceram metas ambiciosas de redução de emissões. O democrata havia prometido investimentos massivos em infraestrutura verde e a criação de 500 mil pontos de recarga para veículos elétricos até 2030.

Impacto econômico da agenda ambiental californiana

Os números da Califórnia desmentem o argumento de que políticas climáticas prejudicam a economia. Em 2023, o estado registrou queda de 3% nas emissões de gases de efeito estufa, equivalente à retirada de mais de 2,6 milhões de carros movidos a gasolina das ruas por um ano inteiro. Simultaneamente, a economia estadual se expandiu, consolidando sua posição como quarta maior do planeta.

A liderança californiana em crédito de carbono e tecnologias limpas tem atraído investimentos bilionários e posicionado o estado como hub de inovação verde. Com políticas que incluem a proibição de venda de veículos novos movidos a combustíveis fósseis a partir de 2035, a Califórnia estabelece padrões que frequentemente são adotados por outros estados americanos e países ao redor do mundo.

Newsom enfatiza que a transição energética não é apenas uma questão ambiental, mas estratégica. "Estamos cedendo a liderança do crescimento de baixo carbono para nosso maior competidor, a China. Isso terá um impacto profundo e desproporcional em nossa competitividade como nação no futuro", alertou o governador, destacando as implicações geopolíticas da inação climática.

A participação de Newsom no Global Investors' Symposium São Paulo 2025 incluiu conversa com o CEO do Milken Institute, Rich Ditizio, onde o governador destacou como a Califórnia está provando que energia limpa e inovação geram empregos e lucros. O evento, realizado estrategicamente junto à COP30, teve como tema "Conectando Mercados Globais: Parcerias para Sustentabilidade e Prosperidade".


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