O mercado corporativo brasileiro enfrenta uma encruzilhada. A obrigatoriedade de adotar os padrões internacionais de divulgação de informações financeiras de sustentabilidade IFRS S1 e S2 a partir de 2026, definida pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), tornou-se objeto de intenso debate entre empresas de capital aberto, reguladores e especialistas.
De um lado, a Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca) argumenta que o momento é inadequado para implementação obrigatória desses padrões, exigindo maior flexibilidade. Do outro, a CVM mantém posição firme: não há recuo, e o Brasil consolidará sua liderança como primeiro país do mundo a adotar formalmente as normas.
Essa Guerra de narrativas reflete, na verdade, um conflito fundamental entre dois vetores do desenvolvimento contemporâneo: a urgência da transparência em sustentabilidade e as pressões operacionais imediatas enfrentadas pelas organizações.
Empresas de capital aberto brasileiro lidam simultaneamente com reformas tributárias complexas, desafios de mercado, fluxo de investimento instável e, agora, a perspectiva de arcabouço regulatório robusto que exigirá revisão completa de seus sistemas de governança e auditoria.
A Resolução CVM nº 193, editada em outubro de 2023, estabeleceu cronograma claro: adoção voluntária durante 2024 e 2025, com obrigatoriedade a partir de primeiro de janeiro de 2026 para companhias abertas. O Brasil tornou-se o primeiro país do mundo a implementar formalmente essas normas.
Essa liderança, celebrada internacionalmente, coloca o país em posição de evidência global para a qualidade e consistência de sua implementação. Porém, também amplifica pressões internas das empresas que enfrentam dificuldades concretas para adequação.
Recentemente, a associação que representa centenas de companhias abertas entregou à CVM pedido formal para que a obrigatoriedade seja substituída por regime voluntário permanente. O argumento central é desprovido de sofisticação retórica: as empresas brasileiras não conseguem, simultaneamente, absorver a implementação dos novos padrões e cumprir outras demandas regulatórias recentes.
A Reforma Tributária do Consumo, que alterou sistemática fiscal fundamental, ainda está sendo assimilada pelos setores produtivos. Empresas enfrentam, ainda, pressão de fechamentos de capital e migração de ofertas públicas iniciais para mercados internacionais mais atraentes financeiramente.
Pablo Cesário, presidente-executivo da Abrasca, apresenta tese que aparenta razoável à primeira vista: se adotar mecanismos de gestão de riscos ambientais e climáticos constitui diferencial competitivo genuíno, por que seria necessário imposição regulatória? A lógica mercadológica deveria ser suficiente para incentivar adoção voluntária.
Segundo Cesário, pesquisa conduzida pela associação junto a investidores institucionais domésticos e internacionais revelou ausência de demanda efetiva pelos relatórios no novo formato, pelo menos no presente momento.
Adicionalmente, a Abrasca solicita, caso a CVM não ceda quanto à voluntariedade, que ao menos estenda o período de obrigatoriedade em três anos. A implementação poderia ocorrer de forma modulada, respeitando diferentes capacidades institucionais das companhias conforme seu porte, maturidade e tipo.
Estimativas sugerem que custos de reporte IFRS S1 e S2 podem atingir até 70% dos gastos com auditoria – quantidade substancial quando considerado o contexto de empresas brasileiras operando em ambiente econômico desafiador.
A resposta da CVM foi breve e inequívoca: permanece aberta ao diálogo franco, mas não alterará as datas. Nos bastidores, segundo reportagens especializadas, a CVM reafirmou que não haverá novas datas.
Essa posição reflete cálculo estratégico: recuar agora significaria comprometer a credibilidade de Brasil como liderança regulatória global em sustentabilidade corporativa. O país já recebeu prêmio da ONU – ISAR Honours 2024 – reconhecendo sua ousadia em ser o primeiro a adotar as normas.
A intransigência da CVM, porém, não é irracional. Ela assenta-se em compreensão diferente do problema regulatório: não se trata de mero cumprimento de formalidade burocrática, mas de reposicionamento fundamental na forma como empresas comunicam impacto de sustentabilidade em seus resultados financeiros.
Risco climático e oportunidade ambiental não são periféricos à tomada de decisão de investimento, mas centrais. Investidores globais cada vez mais demandam transparência sobre como mudanças climáticas, escassez de recursos e transição energética afetam fluxos de caixa corporativos.
O debate revela complicação interessante: tanto Abrasca quanto CVM encontram evidências empíricas que parecem sustentar suas posições. Abrasca cita pesquisa sobre custos de financiamento, indicando que estudos acadêmicos publicados nos últimos três anos trazem resultados "inconclusivos ou negativos" sobre redução de custos de capital para empresas mais sustentáveis.
A associação afirma que sondagens junto a gestoras de ativos domésticas e internacionais revelaram que IFRS S1 e S2 são "desejáveis e bem-vindos", mas não constituem requisito obrigatório para decisão de investimento. Os nomes específicos dessas gestoras não foram divulgados.
A CVM, por sua vez, apoia-se em tendências globais que contradizem essa narrativa. Pesquisa da FTSE Russell com 415 proprietários de ativos – incluindo fundos de pensão, seguradoras, fundos soberanos e family offices – revelou que 73% relatam aplicar considerações de sustentabilidade em seus investimentos.
Casos emblemáticos reforçam essa tendência: BlackRock sofreu retirada de dois fundos de pensão europeus por preocupações com investimentos climáticos. Gestoras de ativos americanas reduziram investimentos com critérios ambientais em resposta a ações judiciais movidas por republicanos, o que levou alguns defensores da sustentabilidade a questionar se o retrocesso americano justificaria enfraquecimento de padrões em outros mercados.
O exemplo de empresas que já adotaram voluntariamente os padrões oferece perspectiva illuminadora. Vale e Renner foram as únicas companhias brasileiras a embarcar no período de testes em 2024, divulgando números referentes àquele exercício. O relato da Renner ganhou particular relevância para o debate porque revelou, concretamente, como padrões de reporte podem expor oportunidades financeiras.
A varejista de moda identificou, através do exercício IFRS S1/S2, que investimento em energia renovável e comercialização de produtos com menor pegada carbônica têm potencial de gerar impacto positivo entre R$ 424 milhões e R$ 488 milhões no fluxo de caixa operacional em período de dez anos.
Isso superaria significativamente os custos previstos de adaptação a mudanças climáticas: entre R$ 235 milhões e R$ 271 milhões de efeito negativo, derivados de inundações, ondas de calor que reduzem demanda por vestuário de inverno e aumento de custos de refrigeração.
A realidade corporativa, porém, apresenta cenário desafiador. Pesquisa conduzida pela RSM, denominada "ESG Latin America Landscape 2024", revelou que 65% das empresas brasileiras não estão prontas para implementar IFRS S1 e S2. Esse dado ganha peso quando considerado junto à adesão extraordinariamente baixa ao período voluntário: até abril de 2025, apenas duas empresas – Vale e Renner – haviam optado por divulgação antecipada.
Embora pesquisa mais recente da Abrasca tenha identificado que mais de 70% das companhias está trabalhando em diagnósticos preliminares, o que representa movimento positivo, a lacuna entre diagnóstico e implementação completa permanece substancial.
As empresas identificam como principais dificuldades a definição de indicadores de desempenho (KPIs) e a supervisão de práticas ESG, conforme apontado por 47% das organizações consultadas. A falta de padronização em dados não financeiros, carência de profissionais especializados e integração de múltiplas bases de dados constituem obstáculos concretos.
Crítica frequente à obrigatoriedade refere-se a custos de conformidade. Estimativas sugerem que implementação de IFRS S1 e S2 pode equivaler a até 70% do custo anual de auditoria corporativa.
Para grandes companhias, isso representa investimento substancial. Porém, para empresas de menor porte, o custo relativo pode ser ainda mais oneroso, visto que muitos gastos de implementação não escalem proporcionalmente com tamanho organizacional.
A CVM, reconhecendo essa dificuldade, sugeriu implementação modulada que respeitasse capacidades institucionais diferenciadas. Porém, não cedeu na questão de datas. A CVM edita, periodicamente, resoluções menores visando facilitar implementação voluntária – como a Resolução 227, de 2025 – mas mantém posição sobre obrigatoriedade em 2026.
Núcleo conceitual de IFRS S1 reside na noção de materialidade financeira: informação é material quando sua omissão ou ocultação pode influenciar razoavelmente decisões de investidores e outros participantes de mercados de capitais. IFRS S2, por sua vez, detalha requisitos específicos para reporte de riscos e oportunidades climáticas, incluindo análise de cenários, metas de transição e métricas intersetoriais.
Essas normas, quando propriamente implementadas, exigem que empresas integrem sustentabilidade ao cerne de sua governança corporativa. Não se trata de exercício contábil paralelo, desconectado de operações, mas de reconfiguração fundamental de como liderança pensa sobre riscos, oportunidades e alocação de capital.
Bancos brasileiros, que também serão obrigados a adotar os padrões (grandes bancos a partir de 2026, menores a partir de 2028), reconhecem que essa integração tornará seus próprios negócios mais confiáveis quando conseguirem avaliar de forma padronizada riscos climáticos de seus clientes.
O contexto internacional complica a discussão. Nos EUA, administração Trump reverteu incentivos para transição energética e passou a penalizar iniciativas corporativas em sustentabilidade, movendo ações judiciais contra gestoras de ativos que priorizem critérios ESG. Na Europa, regulações de sustentabilidade concorrem com demandas de defesa.
Esse cenário de variabilidade global oferece argumento tanto para Abrasca quanto para CVM: para Abrasca, reduz demanda internacional por relatórios IFRS; para CVM, reforça importância de Brasil manter liderança regulatória enquanto outros mercados vacilar.
O cronograma estabelecido pela CVM é inflexível: exercício de 2026 será primeiro ano de obrigatoriedade, com divulgação em 2027. Para empresas que ainda não iniciaram sua transformação, o tempo é exíguo. Asseguração razoável por auditores independentes – requisito da fase obrigatória – exige qualificação especializada que ainda escasseia no Brasil. Apenas grandes firmas de auditoria possuem expertise necessária, o que pode criar gargalo de capacidade nos próximos dezoito meses.
Alguns setores avançam mais rapidamente. Companhias dos segmentos de materiais básicos, utilidades públicas e petróleo & gás já produzem informações parcialmente alinhadas a IFRS S2, sugerindo maturidade relativa. Vale, além de Renner, oferece exemplo de grande player capaz de absorver a transformação. Porém, agronegócio – setor frequentemente afetado por exigências ambientais – enfrenta desafios significativos dada complexidade de suas cadeias produtivas.
Retorna-se, ao final, à questão que estrutura o debate: são padrões de reporte IFRS S1 e S2 expressos de diferencial competitivo genuíno, ou constituem imposição regulatória necessária para mercados de capitais funcionarem adequadamente em contexto de urgência climática?
Evidência empírica permanece ambígua. Alguns gestores de ativos globais elevaram significativamente alocações em empresas com melhor desempenho ambiental. Outros mantêm seus portfólios primariamente orientados por métricas financeiras convencionais. Custos de financiamento para empresas sustentáveis podem ser menores em alguns casos, maiores em outros, ou indiferentes. A realidade, portanto, não oferece resposta unívoca.
O que parece inegável é que transparência padronizada sobre riscos e oportunidades climáticas beneficia mercados, reduzindo assimetria informacional e permitindo pricing mais preciso de risco. Se empresas não divulgarem voluntariamente essa informação, reguladores razoavelmente optam por impô-la. Brasil, ao fazer essa escolha, posiciona-se como liderança entre economias de mercado em questão que moldará decisões de investimento das próximas décadas.