O Brasil reduziu suas emissões de gases de efeito estufa em 16,7% em 2024, para 2,145 GtCO₂e, o menor patamar desde 2009. O avanço foi medido pela 13ª edição do SEEG, do Observatório do Clima, e reflete sobretudo a forte queda do desmatamento na Amazônia e no Cerrado.
Nas emissões líquidas, que descontam as remoções por florestas e áreas protegidas, a queda foi ainda maior, –22%, para 1,489 GtCO₂e. Apesar do resultado expressivo, o país ainda não está no trilho da NDC de 2025.
Mesmo com o tombo nas emissões, o Brasil continua 9% acima do compromisso assumido no Acordo de Paris para 2025, que é limitar as emissões líquidas a 1,32 GtCO₂e. As projeções do SEEG indicam 1,44 GtCO₂e até o fim de 2025, mantendo o alerta de que as reduções precisam se espalhar por todos os setores da economia, e não depender quase exclusivamente do controle do desmate.
Segundo o SEEG, 2024 marcou a segunda maior queda anual da série histórica (iniciada em 1990). O resultado foi sustentado por uma retração de 32,5% nas emissões da mudança de uso da terra, que passaram de 1,34 GtCO₂e em 2023 para 906 MtCO₂e em 2024 — setor que continua a liderar a “pizza” das emissões do país.
O detalhe setorial traz nuances importantes. Agropecuária ficou praticamente estável (–0,7%), energia teve alta de 0,8% (de 420 para 424 MtCO₂e), processos industriais subiram 2,8% e resíduos avançaram 3,6%. O retrato confirma a avaliação do coordenador do SEEG, David Tsai: “o desmatamento cai, mas todos os outros setores sobem”, o que deixa a mitigação concentrada demais numa única frente.
Com isso, a participação relativa de cada área mudou: 42% das emissões brasileiras vieram da mudança de uso da terra, 29% da agropecuária, 20% da energia, 5% de resíduos e 4% de processos industriais. É uma recomposição relevante, mas que não elimina a necessidade de cortes mais amplos, sobretudo em energia e agro.
No setor de energia, o aumento de 0,8% poderia ser maior não fosse o efeito dos biocombustíveis. O consumo de etanol atingiu 36 bilhões de litros em 2024 — recorde histórico — e ajudou a reduzir 3% as emissões no transporte de passageiros, mesmo com mais quilometragem rodada. Foi a primeira queda desde a pandemia no segmento. Ainda assim, a geração elétrica emitiu mais por conta da menor oferta hídrica, o que mantém o alerta para uma transição que precisa acelerar em eficiência e eletrificação.
O fogo segue como fator de risco. Pesquisadores do Ipam observam um descolamento entre secas severas e desmatamento: mesmo com o desmate em queda num ano de estiagem forte, as queimadas independentes de corte raso mantiveram altas emissões e ampliaram a vulnerabilidade das florestas — um sintoma de que a mudança do clima já interfere perigosamente nos ecossistemas amazônicos. Em 2024, queimadas não associadas ao desmate liberaram 241 MtCO₂, quase o mesmo que as emissões líquidas por mudança de uso da terra (249 MtCO₂). O recado é simples: sem fogo sob controle, o ganho do desmatamento pode evaporar. (Contexto baseado em divulgações de SEEG/OC e análises correlatas).
A pecuária continua como o principal motor das emissões do país. O rebanho bovino é fonte de metano (CH₄) — gás com potencial de aquecimento dezenas de vezes maior que o CO₂ — e sustenta a maior fatia do setor agropecuário. Em 2024, houve queda de 0,2% no rebanho e alta de 11% no confinamento, o que segurou o aumento esperado de emissões. O uso de fertilizantes nitrogenados (–3,8%) e calcário (–3,3%) também cedeu, reduzindo óxido nitroso (N₂O) e CO₂ no lado agrícola. O potencial de remoções de carbono por boas práticas — de integração lavoura-pecuária-floresta a manejo de pastagens — permanece subaproveitado. (Síntese do SEEG/OC e entidades técnicas).
A NDC brasileira estabelece, entre outros pontos, limite de 1,32 GtCO₂e em 2025 (em emissões líquidas). Se confirmada a projeção de 1,44 GtCO₂e até o fim do ano, a distância de ~9% evidencia a lacuna de implementação: o país avançou no controle do desmate, mas energia, resíduos, indústria e parte da agropecuária ainda não entregaram cortes compatíveis com a trajetória de 1,5°C–2°C. O SEEG lembra que não basta prometer: é preciso executar.
1) Desmatamento e fogo: consolidar desmatamento zero com fiscalização permanente, cadeias livres de desmate e política integrada de combate a incêndios.
2) Metano: atacar fontes de CH₄ na pecuária (manejo, genética, alimentação, recuperação de pastagens) e no óleo e gás (controle de vazamentos, queima e ventilação).
3) Energia: acelerar eficiência, eletrificação de frotas urbanas e expansão renovável com transmissão e armazenamento, reduzindo térmicas fósseis.
4) Resíduos: ampliar tratamento de esgoto, aterros com captura de biogás e reciclagem, reduzindo CH₄ urbano.
5) Indústria: substituir insumos emissivos, ampliar clínquer verde no cimento e hidrogênio renovável em processos intensivos em calor.
(Alinhado às recomendações recorrentes do SEEG e literatura setorial).
A poucos dias da COP30, em Belém, o Brasil chega com um número histórico de queda nas emissões e um desafio político: transformar ganho setorial em estratégia nacional de médio prazo, que destrave investimentos e alinhe todos os setores à NDC e à meta de neutralidade climática. O Observatório do Clima e veículos especializados resumem o dilema: não há mais “atalho” via florestas; energia, agro, indústria e resíduos terão de entregar.
A experiência de 2024 reforça que biocombustíveis continuam estratégicos. O etanol recorde evitou uma pressão maior nas emissões de transporte de passageiros; a expansão do etanol de milho e o avanço de misturas (como o biodiesel) podem manter a tendência enquanto a eletrificação ganha escala. Para capturar o dividendo climático desses combustíveis, é crucial garantir sustentabilidade na cadeia (uso do solo, insumos, logística) e regras estáveis que deem previsibilidade ao investimento.
— Emissões brutas: 2,145 GtCO₂e (–16,7% vs. 2023).
— Emissões líquidas: 1,489 GtCO₂e (–22%).
— Mudança de uso da terra: 906 MtCO₂e (–32,5%).
— Energia: 424 MtCO₂e (+0,8%).
— Agropecuária: estabilidade (–0,7%).
— Processos industriais: +2,8%.
— Resíduos: +3,6%.
— Composição (%): 42% uso da terra; 29% agro; 20% energia; 5% resíduos; 4% indústria.
(Fontes: SEEG/Observatório do Clima e compilações da imprensa especializada).