Emissões do Brasil caem 16,7% em 2024, mas país segue fora da meta

Relatório do SEEG aponta menor nível desde 2009, com queda puxada pelo desmatamento em baixa, mas alerta para distância da NDC

Por Por Geisa Silva-
7 Min

Emissões do Brasil caem 16,7% em 2024, mas país segue fora da meta
Brasil teve a maior queda em 16 anos, mas está longe de cumprir sua meta climática. Foto: Canva

O Brasil reduziu suas emissões de gases de efeito estufa em 16,7% em 2024, para 2,145 GtCO₂e, o menor patamar desde 2009. O avanço foi medido pela 13ª edição do SEEG, do Observatório do Clima, e reflete sobretudo a forte queda do desmatamento na Amazônia e no Cerrado.

Nas emissões líquidas, que descontam as remoções por florestas e áreas protegidas, a queda foi ainda maior, –22%, para 1,489 GtCO₂e. Apesar do resultado expressivo, o país ainda não está no trilho da NDC de 2025

Mesmo com o tombo nas emissões, o Brasil continua 9% acima do compromisso assumido no Acordo de Paris para 2025, que é limitar as emissões líquidas a 1,32 GtCO₂e. As projeções do SEEG indicam 1,44 GtCO₂e até o fim de 2025, mantendo o alerta de que as reduções precisam se espalhar por todos os setores da economia, e não depender quase exclusivamente do controle do desmate. 

Segundo o SEEG, 2024 marcou a segunda maior queda anual da série histórica (iniciada em 1990). O resultado foi sustentado por uma retração de 32,5% nas emissões da mudança de uso da terra, que passaram de 1,34 GtCO₂e em 2023 para 906 MtCO₂e em 2024 — setor que continua a liderar a “pizza” das emissões do país. 

Leia Também

Setores: onde a emissão caiu — e onde subiu

O detalhe setorial traz nuances importantes. Agropecuária ficou praticamente estável (–0,7%), energia teve alta de 0,8% (de 420 para 424 MtCO₂e), processos industriais subiram 2,8% e resíduos avançaram 3,6%. O retrato confirma a avaliação do coordenador do SEEG, David Tsai: “o desmatamento cai, mas todos os outros setores sobem”, o que deixa a mitigação concentrada demais numa única frente. 

Com isso, a participação relativa de cada área mudou: 42% das emissões brasileiras vieram da mudança de uso da terra, 29% da agropecuária, 20% da energia, 5% de resíduos e 4% de processos industriais. É uma recomposição relevante, mas que não elimina a necessidade de cortes mais amplos, sobretudo em energia e agro

No setor de energia, o aumento de 0,8% poderia ser maior não fosse o efeito dos biocombustíveis. O consumo de etanol atingiu 36 bilhões de litros em 2024 — recorde histórico — e ajudou a reduzir 3% as emissões no transporte de passageiros, mesmo com mais quilometragem rodada. Foi a primeira queda desde a pandemia no segmento. Ainda assim, a geração elétrica emitiu mais por conta da menor oferta hídrica, o que mantém o alerta para uma transição que precisa acelerar em eficiência e eletrificação

Fogo, secas e “nova fase” da destruição

O fogo segue como fator de risco. Pesquisadores do Ipam observam um descolamento entre secas severas e desmatamento: mesmo com o desmate em queda num ano de estiagem forte, as queimadas independentes de corte raso mantiveram altas emissões e ampliaram a vulnerabilidade das florestas — um sintoma de que a mudança do climainterfere perigosamente nos ecossistemas amazônicos. Em 2024, queimadas não associadas ao desmate liberaram 241 MtCO₂, quase o mesmo que as emissões líquidas por mudança de uso da terra (249 MtCO₂). O recado é simples: sem fogo sob controle, o ganho do desmatamento pode evaporar. (Contexto baseado em divulgações de SEEG/OC e análises correlatas). 

A pecuária continua como o principal motor das emissões do país. O rebanho bovino é fonte de metano (CH₄) — gás com potencial de aquecimento dezenas de vezes maior que o CO₂ — e sustenta a maior fatia do setor agropecuário. Em 2024, houve queda de 0,2% no rebanho e alta de 11% no confinamento, o que segurou o aumento esperado de emissões. O uso de fertilizantes nitrogenados (–3,8%) e calcário (–3,3%) também cedeu, reduzindo óxido nitroso (N₂O) e CO₂ no lado agrícola. O potencial de remoções de carbono por boas práticas — de integração lavoura-pecuária-floresta a manejo de pastagens — permanece subaproveitado. (Síntese do SEEG/OC e entidades técnicas). 

A NDC brasileira estabelece, entre outros pontos, limite de 1,32 GtCO₂e em 2025 (em emissões líquidas). Se confirmada a projeção de 1,44 GtCO₂e até o fim do ano, a distância de ~9% evidencia a lacuna de implementação: o país avançou no controle do desmate, mas energia, resíduos, indústria e parte da agropecuária ainda não entregaram cortes compatíveis com a trajetória de 1,5°C–2°C. O SEEG lembra que não basta prometer: é preciso executar

O que fazer já: cinco frentes de alto impacto

1) Desmatamento e fogo: consolidar desmatamento zero com fiscalização permanente, cadeias livres de desmate e política integrada de combate a incêndios.
2) Metano: atacar fontes de CH₄ na pecuária (manejo, genética, alimentação, recuperação de pastagens) e no óleo e gás (controle de vazamentos, queima e ventilação).
3) Energia: acelerar eficiência, eletrificação de frotas urbanas e expansão renovável com transmissão e armazenamento, reduzindo térmicas fósseis.
4) Resíduos: ampliar tratamento de esgoto, aterros com captura de biogás e reciclagem, reduzindo CH₄ urbano.
5) Indústria: substituir insumos emissivos, ampliar clínquer verde no cimento e hidrogênio renovável em processos intensivos em calor.
(Alinhado às recomendações recorrentes do SEEG e literatura setorial). 

A poucos dias da COP30, em Belém, o Brasil chega com um número histórico de queda nas emissões e um desafio político: transformar ganho setorial em estratégia nacional de médio prazo, que destrave investimentos e alinhe todos os setores à NDC e à meta de neutralidade climática. O Observatório do Clima e veículos especializados resumem o dilema: não há mais “atalho” via florestas; energia, agro, indústria e resíduos terão de entregar.

O papel dos biocombustíveis e da indústria da mobilidade

A experiência de 2024 reforça que biocombustíveis continuam estratégicos. O etanol recorde evitou uma pressão maior nas emissões de transporte de passageiros; a expansão do etanol de milho e o avanço de misturas (como o biodiesel) podem manter a tendência enquanto a eletrificação ganha escala. Para capturar o dividendo climático desses combustíveis, é crucial garantir sustentabilidade na cadeia (uso do solo, insumos, logística) e regras estáveis que deem previsibilidade ao investimento. 

Diagnóstico em números (2024)

Emissões brutas: 2,145 GtCO₂e (–16,7% vs. 2023).
Emissões líquidas: 1,489 GtCO₂e (–22%).
Mudança de uso da terra: 906 MtCO₂e (–32,5%).
Energia: 424 MtCO₂e (+0,8%).
Agropecuária: estabilidade (–0,7%).
Processos industriais: +2,8%.
Resíduos: +3,6%.
Composição (%): 42% uso da terra; 29% agro; 20% energia; 5% resíduos; 4% indústria.
(Fontes: SEEG/Observatório do Clima e compilações da imprensa especializada). 


  • Ir para GoogleNews
Tags »
Notícias Relacionadas »
Comentários »
Comentar

*Ao utilizar o sistema de comentários você está de acordo com a POLÍTICA DE PRIVACIDADE do site https://portalb4.capital/.