O novo Adaptation Gap Report 2025, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA/UNEP), acendeu um alerta vermelho às vésperas da COP30 em Belém: a ajuda internacional para adaptação climática aos países em desenvolvimento caiu para US$ 26 bilhões em 2023, recuo de 7% em relação a 2022 — e bem abaixo da meta política de US$ 40 bilhões anuais até 2025.
Ao mesmo tempo, a necessidade projetada de financiamento para adaptação salta para US$ 310 bilhões/ano em 2035 quando medida por custos modelados, chegando a US$ 365 bilhões/ano quando se extrapolam as demandas expressas em NDCs e Planos Nacionais de Adaptação. A conclusão é inequívoca: a lacuna de financiamento se ampliou, e a conta do clima está aterrissando onde há menos recursos para pagá-la.
O recado foi reforçado pela diretora-executiva do PNUMA, Inger Andersen, durante o lançamento do relatório: sem investir em adaptação agora, os custos humanos e econômicos crescerão ano a ano. O apelo acontece em um momento particularmente delicado: a temporada de furacões no Atlântico já deixou um exemplo doloroso com o furacão Melissa, categoria 5, que atingiu a Jamaica com força histórica — antes de seguir rumo a Cuba —, evidenciando a urgência de infraestruturas resilientes, sistemas de alerta e planos de proteção social.
Enquanto isso, a diplomacia climática chega a Belém sob pressão adicional. O secretariado da UNFCCC reporta que, embora haja novas NDCs sendo apresentadas, apenas uma fração dos países cumpriu prazos-chave, e os compromissos atuais ainda não colocam o mundo numa trajetória compatível com 1,5 °C: as projeções falam em queda de cerca de 10% nas emissões até 2035 frente a 2019, quando seriam necessários 60%. Ou seja, mitigação e adaptação andam devagar — e isso tende a encarecer o esforço de ambos os lados.
O que o Adaptation Gap Report 2025 diz — e por que isso importa
O relatório anual do PNUMA se tornou o termômetro global do financiamento para adaptação climática. A edição de 2025 aponta três mensagens centrais:
Fluxos em queda: o financiamento público internacional para adaptação diminuiu para US$ 26 bilhões (2023), abaixo de US$ 28 bilhões (2022) — tendência oposta à escalada de riscos.
Necessidades em alta: as necessidades dos países em desenvolvimento atingem US$ 310–365 bilhões/ano até 2035, a depender da metodologia.
Metas descarriladas: é improvável que os países ricos cumpram o piso de US$ 40 bilhões/ano para adaptação até 2025; e, mesmo cumprindo, seria uma fração do necessário.
O pano de fundo é conhecido: oceanos mais quentes intensificam furacões; ondas de calor se tornam mais longas; chuvas extremas se precipitam mais rápido; secas e incêndios ganham força. Cada fração de grau adiciona custo, desde diques e elevação de edificações até cultivos resistentes à seca, relocalização planejada e resiliência hospitalar. Sem capital, governos reagem depois do desastre, em vez de planejar de modo antecipatório — e pagam mais caro.
A COP30 foi vendida como a COP da implementação. Na prática, isso significa três entregas urgentes: (i) aumentar a ambição de mitigação nas novas NDCs; (ii) fechar o gap de adaptação com dinheiro novo, previsível e acessível; (iii) tornar o financiamento climático mais justo e eficiente. Os números do PNUMA dão o tom: sem multiplicar o capital dedicado à adaptação — público, concessional e catalisador de investimento privado onde fizer sentido —, os ganhos de resiliência não chegarão à escala necessária.
O momento também é político. A presidência da COP30, no Brasil, tem insistido na necessidade de planos nacionais mais robustos e de mecanismos financeiros que façam a ponte entre necessidades locais e fluxos internacionais. A realidade, porém, é que muitos países perderam prazos para NDCs 3.0 ou chegaram com metas aquém do necessário, o que contamina o clima das negociações. Para se ter ideia, análise recente mostra que o conjunto de planos considerados pela ONU não cobre a maior parte das emissões globais, e que os cortes prometidos ficam muito aquém do recomendado pela ciência.
A devastação do furacão Melissa na Jamaica — com ventos de categoria 5 e danos generalizados — virou símbolo da urgência. Os impactos em energia, saúde, habitação e mobilidade expõem a dependência de sistemas de alerta precoce, abrigos seguros, critérios construtivos e seguros acessíveis para populações vulneráveis. A tempestade segue em direção a Cuba, ampliando a zona de risco no Caribe. O episódio representa o que o PNUMA vem repetindo: adaptação salva vidas e dinheiro, mas requer planejamento e recursos à altura.
Por que a adaptação climática recebe menos que a mitigação? Parte da resposta é econômica: muitas ações de adaptação não geram fluxos de caixa claros (ex.: diques, reforço de hospitais, redes de drenagem), logo não atraem capital privado sem apoio público. A edição 2025 do relatório reforça essa assimetria e lembra que é tarefa dos países ricos cumprirem promessas e expandirem a base de financiamento — inclusive por meio de bancos de desenvolvimento, fundos temáticos e parcerias que misturem (blended) recursos concessional e privados.
Ao mesmo tempo, há oportunidades para investimento privado em nichos: reuso de água, resfriamento eficiente, seguros paramétricos, agrotechs de culturas resistentes, infraestrutura verde (como manguezais que protegem costa e sequestram carbono). Mas a escala de US$ 310–365 bilhões/ano pedida para 2035 exige liderança pública inequívoca.
Segundo a ONU, 172 países já possuem ao menos um plano nacional de adaptação. O avanço é relevante, mas a implementação patina quando falta financiamento previsível, capacidade técnica e coordenação entre ministérios e municípios. A boa notícia: soluções eficazes — barreiras contra inundações, sombra urbana, ar-condicionado eficiente com energia limpa, sistemas de alerta para ciclones — salvam vidas: as mortes globais por eventos extremos caíram cerca de dois terços entre 1970 e 2021, segundo a OMM. Mesmo assim, respostas reativas ainda dominam, e cada “reforma após desastre” custa mais do que prevenir.
1) Sinal claro sobre a meta de US$ 40 bi/ano (2025)
Um mapa de cumprimento com fontes identificadas (orçamentos, bancos multilaterais, novos instrumentos) e cronograma de desembolso pode recuperar credibilidade. A queda para US$ 26 bilhões em 2023 mina a confiança — e precisa ser revertida com atos, não comunicados.
2) “Pacote Belém” de acesso simplificado
Países pobres relatam barreiras para acessar recursos. Um pacote de simplificação — padrões de MRV proporcionais, janelas rápidas para perigo iminente (como furacões) e custos de projeto cofinanciados — destravaria iniciativas locais com alto impacto.
3) Mecanismos de seguro e resiliência escaláveis
Países insulares e costeiros pedem seguros soberanos e paramétricos mais acessíveis. Uma parceria COP30 com bancos regionais e o setor de resseguros pode diluir riscos e baixar prêmios.
4) Integração com finanças de mitigação e mercados de carbono
Projetos que reduzem risco climático e emissões — como manguezais (proteção costeira + sumidouro de carbono) — devem acessar duas gavetas de recursos. Em paralelo, a integração de mercados (como a Coalizão Aberta proposta pelo Brasil) pode canalizar receitas para resiliência em países vulneráveis, via reciclagem de receitas.
5) Planos setoriais e urbanos de alta prioridade
Adaptar saúde, educação, energia e logística ao calor extremo, tempestades e inundações incorpora resiliência ao cotidiano. Cidades — onde vive a maioria da população — devem liderar com zonas frescas, drenagem verde-azul, habitação segura e alertas multimodais.