BC alerta para riscos climáticos no sistema financeiro

Relatório de sustentabilidade revela como eventos extremos afetam inflação e estabilidade econômica brasileira

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
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Banco Central analisa dados sobre riscos climáticos no sistema financeiro brasileiro durante apresentação do relatório de sustentabilidade

O Banco Central do Brasil divulgou a quinta edição do Relatório de Riscos e Oportunidades Sociais, Ambientais e Climáticos (RIS), documento que expõe como os riscos climáticos estão se tornando uma força estrutural na economia nacional. O extenso relatório, cobrindo ações realizadas entre julho de 2024 e junho de 2025, demonstra que eventos climáticos extremos já impactam diretamente a inflação e a estabilidade do sistema financeiro.

Segundo o documento oficial, a inflação medida pelo IPCA atingiu 4,83% em 2024, superando a meta estabelecida pelo governo. Entre os principais fatores que contribuíram para esse resultado estão os eventos climáticos extremos, especialmente a seca prolongada que afetou grande parte do território brasileiro, elevando os preços dos alimentos e impactando negativamente a produção agrícola.

O PIB brasileiro cresceu 3,4% no período analisado, mas o setor agropecuário teve contribuição negativa devido às quebras de safra provocadas por adversidades climáticas, incluindo longos períodos de estiagem e altas temperaturas. Essa realidade evidencia como as mudanças climáticas estão se consolidando como um desafio estrutural para a economia nacional.

Impactos das enchentes no Rio Grande do Sul

As fortes chuvas e inundações que atingiram o Rio Grande do Sul em abril e maio de 2024 exemplificam de forma dramática os riscos climáticos físicos enfrentados pelo país. O BC identificou efeitos econômicos significativos, com impactos concentrados principalmente no setor de serviços e no mercado de trabalho da região.

Embora os desequilíbrios iniciais entre oferta e demanda tenham sido intensos, o relatório aponta que os impactos inflacionários foram de curto prazo, com reversão quase integral já em junho de 2024. Essa rápida recuperação foi possibilitada pelas medidas emergenciais adotadas pelo Conselho Monetário Nacional e pelo próprio Banco Central.

Entre as ações implementadas destacam-se a intensificação da comunicação com instituições financeiras, condições excecionais de crédito e permissões regulatórias temporárias. Essas medidas ajudaram a conter os efeitos das enchentes, resultando em impactos no Sistema Financeiro Nacional inferiores aos inicialmente previstos.

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O relatório do BC apresenta simulações detalhadas sobre os impactos de uma possível taxa de carbono na economia brasileira. Os cenários analisados consideram a imposição de US$ 50 ou US$ 100 por tonelada de CO2 até 2030, revelando impactos limitados no capital das instituições financeiras, mas com reduções significativas no valor adicionado dos setores de agricultura, pecuária e transportes.

As perdas para as instituições financeiras se concentrariam principalmente nas indústrias de transformação, construção e transporte, setores que enfrentariam maiores custos de adequação às novas exigências ambientais.

Pesquisa revela materialização dos riscos climáticos

A Pesquisa de Estabilidade Financeira (PEF) 2025, realizada anualmente pelo BC com instituições financeiras, revelou que os riscos climáticos se materializaram com maior intensidade em 2024. Segundo o levantamento, a seca é considerada o evento mais relevante no longo prazo, enquanto o risco de crédito (inadimplência) é o principal canal de transmissão dos riscos climáticos físicos.

A maturidade das instituições financeiras na adoção de ações relacionadas aos riscos climáticos aumentou gradualmente, com avanços especialmente na dimensão "downstream", que envolve a seleção de clientes com processos mais sustentáveis.

Bureau de Crédito Rural combate desmatamento

Uma das principais inovações apresentadas pelo relatório é o aprimoramento do Bureau de Crédito Rural, plataforma que recebe dados de crédito rural e títulos do agronegócio. A Resolução CMN 5.193, de dezembro de 2024, implementou mudanças significativas para direcionar o crédito rural exclusivamente para propriedades que observam critérios rigorosos de preservação ambiental.

A nova regulamentação veda o crédito para projetos que prevejam supressão de vegetação nativa, flexibilizando apenas para casos de recuperação de vegetação em áreas previamente embargadas. Desde 2020, impressionantes 16.271 operações, totalizando R$ 6,38 bilhões, foram bloqueadas devido a impedimentos socioambientais e climáticos.

Preparação para a COP30 intensifica ações

Com a COP30 programada para novembro de 2025 em Belém, o Banco Central organizou um grupo de trabalho específico para sua atuação no evento. A conferência climática, que será realizada no coração da Amazônia, representa uma oportunidade única para o Brasil demonstrar seus avanços em finanças sustentáveis.

O BC colaborará com a Network for Greening the Financial System (NGFS) para engajar a comunidade financeira internacional na agenda de finanças sustentáveis e transição climática justa. A escolha de Belém como sede da conferência reforça o papel estratégico da região amazônica nas discussões climáticas globais.

Reservas internacionais incorporam critérios sustentáveis

A gestão das reservas internacionais do BC passou a incorporar de forma sistemática a análise de riscos associados às mudanças climáticas. O banco tem aumentado progressivamente o percentual de títulos com rótulo sustentável (green, social e sustainability bonds) nas reservas internacionais, investindo também em fundos verdes do Bank for International Settlements (BIS).

As métricas acompanhadas incluem a Intensidade Média Ponderada de Carbono (WACI), emissões de CO2e per capita e o perfil de geração de energia da matriz dos países onde os recursos são aplicados.

Inovações tecnológicas apoiam sustentabilidade

O relatório destaca o papel crescente da tecnologia no monitoramento e mitigação dos riscos climáticos. O BC criou o Comitê de Governança de Tecnologia e Inovação (CGIn) para coordenar a agenda tecnológica em supervisão, com apoio do Escritório de Tecnologia e Inovação.

A iniciativa "Axis", que utiliza inteligência artificial para analisar relatórios de auditoria de instituições financeiras, foi reconhecida como uma das principais inovações financeiras na América Latina em 2025 pela Global Finance.

Perspectivas futuras incluem novos estudos

O documento apresenta diversas pesquisas em andamento que ampliarão o conhecimento sobre os impactos dos riscos climáticos. Entre elas, destaca-se o estudo "Geadas", que avalia o impacto de eventos climáticos extremos na cadeia financeira de empresas, utilizando dados em tempo real de pagamentos e empréstimos.

Outra pesquisa relevante, denominada "Weathering the Storm", analisa como a cadeia de suprimentos brasileira se adapta a eventos climáticos extremos e sua demanda por liquidez, combinando dados de pagamentos e crédito do BC com informações sobre desastres naturais.