Transição energética atinge US$ 2,3 tri em 2025, revela estudo

Relatório revela crescimento de 8% nos investimentos globais em energia limpa, com transporte eletrificado liderando aportes mundiais

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
8 Min

Parque de energia solar em operação: investimentos globais em transição energética atingiram US$ 2,3 trilhões em 2025, com transporte eletrificado liderando os aportes. Foto: Canva

O investimento global em transição energética atingiu o patamar recorde de US$ 2,3 trilhões em 2025, representando um crescimento de 8% em relação ao ano anterior. Os dados são do relatório anual Energy Transition Investment Trends, divulgado pela BloombergNEF em janeiro de 2026, que consolida o movimento mundial rumo à descarbonização da economia.

O transporte eletrificado surge como o principal destino de recursos, absorvendo US$ 893 bilhões em investimentos direcionados a veículos elétricos e infraestrutura de recarga. Esse montante representa um aumento de 21% em comparação a 2024, refletindo a aceleração da eletrificação da mobilidade global.

As energias renováveis receberam US$ 690 bilhões, enquanto os investimentos em redes elétricas alcançaram US$ 483 bilhões. Apesar do volume expressivo, o setor de renováveis registrou queda de 9,5% em relação ao ano anterior, pressionado por incertezas regulatórias no mercado chinês, o maior consumidor mundial de energia.

Leia Também

Energia limpa supera combustíveis fósseis pelo segundo ano

Pela segunda vez consecutiva, o investimento em energia limpa superou os aportes em combustíveis fósseis. A diferença se ampliou para US$ 102 bilhões em 2025, ante US$ 85 bilhões no ano anterior. O movimento evidencia uma mudança estrutural nos fluxos de capital global, com recursos migrando progressivamente para tecnologias de baixo carbono.

O investimento em combustíveis fósseis caiu pela primeira vez desde 2020, registrando redução de US$ 9 bilhões. A queda foi impulsionada principalmente pela diminuição dos gastos com exploração e produção de petróleo e gás, além da geração de energia a partir de combustíveis fósseis. Esses valores foram parcialmente compensados por maiores investimentos em gás natural e carvão.

Apesar do crescimento contínuo, a taxa de expansão dos investimentos em transição energética vem desacelerando de forma constante – de 27% em 2021 para 8% em 2025. Segundo Albert Cheung, vice-CEO da BloombergNEF, "o ano passado demonstrou que, apesar dos desafios políticos e comerciais, a transição energética global é resiliente e oferece diversas oportunidades para investidores".

Ásia-Pacífico mantém liderança com participação de 47%

A região Ásia-Pacífico consolidou sua posição como a maior em investimentos, representando 47% do total global em 2025. A China, maior mercado mundial, continua liderando com US$ 800 bilhões investidos, mas registrou sua primeira queda no financiamento de energias renováveis desde 2013 – reflexo das incertezas regulatórias no setor elétrico chinês.

A Índia apresentou crescimento robusto de 15%, atingindo US$ 68 bilhões em investimentos. O país asiático tem ampliado sua capacidade renovável de forma consistente, apoiado por políticas governamentais favoráveis e custos competitivos das tecnologias solares e eólicas.

A União Europeia ignorou as dificuldades econômicas e registrou expansão significativa de 18%, chegando a US$ 455 bilhões. O desempenho europeu contribuiu de forma decisiva para o crescimento global, demonstrando o compromisso do bloco com as metas climáticas estabelecidas no Acordo de Paris.

Estados Unidos avança apesar de obstáculos políticos

Os Estados Unidos registraram aumento de 3,5% nos investimentos, totalizando US$ 378 bilhões. O crescimento ocorreu mesmo diante de medidas do governo Trump para desacelerar a transição energética, evidenciando a força dos incentivos do Inflation Reduction Act e a competitividade econômica das tecnologias limpas.

Analistas apontam que o setor privado norte-americano manteve o ritmo de investimentos motivado por ganhos de eficiência, redução de custos e pressão de investidores institucionais por portfólios alinhados a critérios ESG (ambientais, sociais e de governança).

Cadeia de suprimentos e sobrecapacidade

O investimento na cadeia de suprimentos de energia limpa cresceu 6%, atingindo US$ 127 bilhões em 2025. Esse valor reflete os gastos com novas fábricas de produtos de tecnologia limpa, além de ativos de produção de metais para baterias. O crescimento foi impulsionado principalmente pela expansão da fabricação de baterias e pelo investimento em materiais críticos.

A China continua representando a grande maioria do investimento global na cadeia de suprimentos. A BloombergNEF prevê que essa dominância se mantenha por pelo menos os próximos três anos, embora a participação chinesa esteja diminuindo gradualmente devido aos investimentos nos Estados Unidos, União Europeia e Índia.

A sobrecapacidade continua afetando todos os setores da cadeia de suprimentos de energia limpa. Embora o investimento geral ainda esteja aumentando, espera-se que a pressão de baixa sobre os preços dos produtos de tecnologia limpa persista, beneficiando compradores mas pressionando margens dos fabricantes.

Empresas de tecnologia climática captam US$ 77 bilhões

Empresas de tecnologia climática captaram US$ 77,3 bilhões em investimentos privados e públicos ao longo de 2025, um aumento de 53% em relação ao ano anterior. O resultado marca o primeiro ano de crescimento após três anos consecutivos de queda, sinalizando renovado apetite dos investidores por soluções climáticas.

O aumento no financiamento foi impulsionado por empresas que atuam em energia limpa, armazenamento de energia e transporte de baixo carbono. A atividade com ações públicas se recuperou, principalmente devido a negócios multimilionários na Ásia, enquanto o financiamento de capital de risco para startups caiu pelo terceiro ano consecutivo.

A atividade de fusões e aquisições permaneceu forte, encerrando 2025 com US$ 99,1 bilhões em transações concluídas – um aumento de 37% em relação ao ano anterior. Esse crescimento pode ser atribuído a aquisições de empresas dos setores de energia limpa e construção civil, que estão ganhando força para a expansão global de data centers.

Emissão de dívida para transição energética cresce 17%

A emissão de dívida para a transição energética totalizou US$ 1,2 trilhão em 2025, um aumento de 17% em relação a 2024. Esse crescimento pode ser atribuído à expansão dos fluxos de financiamento corporativo e de projetos, ambos com alta de 20%.

O aumento compensou a queda nas vendas de títulos públicos, já que as emissões de bonds governamentais foram reduzidas para setores de transição mais consolidados, como o de energias renováveis. O movimento reflete maior maturidade desses mercados e menor necessidade de subsídios diretos.

Data centers impulsionam nova demanda energética

A BloombergNEF estima que o investimento em data centers tenha sido de cerca de meio trilhão de dólares em 2025, superando o investimento total em energia solar. O crescimento exponencial dessas instalações, impulsionado pela inteligência artificial e computação em nuvem, cria uma nova camada de demanda energética que precisa ser atendida preferencialmente com fontes limpas.

Segundo o relatório, os data centers ficaram atrás apenas do transporte elétrico em termos de escala de investimento. O setor continuará sendo uma área de observação atenta no cenário global de investimentos, especialmente pela pressão que exerce sobre as redes elétricas e pela necessidade de integração com fontes renováveis.

Desafios permanecem para tecnologias emergentes

Apesar dos avanços, o relatório identifica desequilíbrios nos fluxos de investimento. Enquanto tecnologias maduras como energias renováveis, armazenamento de energia, veículos elétricos e redes elétricas dominam os aportes, soluções consideradas essenciais para a descarbonização da indústria pesada permanecem subfinanciadas.

O hidrogênio verde recebeu apenas US$ 7,3 bilhões em investimentos, e a energia nuclear US$ 36 bilhões. Ambos os setores registraram queda em relação ao ano anterior, evidenciando a dificuldade de atrair capital para tecnologias que ainda enfrentam desafios de escala e competitividade de custos.

Analistas apontam que tecnologias de captura e armazenamento de carbono (CCUS), hidrogênio verde e combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) precisarão de maior apoio regulatório e mecanismos de redução de risco para destravar investimentos privados em escala.

Brasil na transição energética global

O Brasil mantém posição privilegiada na transição energética mundial, com uma matriz elétrica composta por 88,2% de fontes renováveis em 2024, segundo o Balanço Energético Nacional. O país lidera globalmente na geração hidrelétrica e tem expandido rapidamente sua capacidade solar e eólica.

Especialistas apontam que o Brasil precisa alinhar investimentos, política industrial e inovação para capitalizar suas vantagens competitivas. A demanda global por lítio pode crescer até 700% até 2030, representando tanto uma oportunidade estratégica quanto o risco de o país permanecer como exportador de matéria-prima sem agregação de valor.

Para 2026, a BloombergNEF projeta que o investimento médio anual na transição energética global atinja US$ 2,9 trilhões nos próximos cinco anos. O cenário reforça que a transição deixou de ser uma tendência de longo prazo para se tornar realidade econômica, com impactos diretos sobre competitividade, segurança energética e desenvolvimento sustentável.

A parte pública do estudo pode ser conferida aqui.