O Japão deu um passo decisivo rumo à neutralidade de carbono ao anunciar o corredor de preços para seu mercado regulado de carbono, que entrará em operação no ano fiscal de 2026. A medida faz parte da ambiciosa estratégia de "transformação verde" (GX) do país, que busca direcionar a terceira maior economia mundial para emissões líquidas zero até 2050.
Segundo diretrizes do Ministério da Economia, Comércio e Indústria (METI), as empresas enfrentarão um preço mínimo de 1.700 ienes (US$ 11) e um preço máximo de 4.300 ienes (US$ 27) por tonelada de dióxido de carbono durante o primeiro ano do programa. A faixa estabelecida visa dar às companhias visibilidade antecipada dos custos futuros de carbono, incentivando investimentos preventivos em descarbonização.
A nova regra se aplica a empresas que emitam mais de 100.000 toneladas de CO₂ por ano, incluindo setores como geração de energia, siderurgia, indústrias químicas, cimenteiras e papel. O governo estima que o sistema abrangerá entre 300 e 400 empresas, incluindo gigantes como Nippon Steel, Toyota Motor e JERA, responsáveis por aproximadamente 60% das emissões domésticas do país.
O ano fiscal japonês de 2026, que inicia em abril, funcionará como período preparatório. Durante esses 12 meses, as empresas abrangidas deverão medir e reportar suas emissões de gases de efeito estufa, enquanto as autoridades finalizarão regras de mercado e requisitos de participação.
A negociação efetiva de licenças de emissão começará no outono de 2027, quando estiver operacional o mercado centralizado administrado pela Agência de Promoção de GX, órgão apoiado pelo governo. O país alocará licenças anualmente com base em parâmetros de referência setoriais, seguindo o modelo internacional de cap and trade.
Empresas que excederem sua alocação serão obrigadas a comprar licenças excedentes de outras companhias através deste mercado centralizado. Os preços serão definidos por oferta e demanda, mas os limites superior e inferior visam evitar oscilações extremas que prejudiquem a economia.
O teto de 4.300 ienes reflete o custo estimado da transição da geração de energia do carvão para o gás natural liquefeito. Já o piso de 1.700 ienes baseia-se nos preços históricos dos J-Credits, créditos de carbono domésticos negociados na Bolsa de Valores de Tóquio.
A partir de 2027, ambos os limites serão ajustados anualmente pela taxa de inflação mais 3%. Segundo o METI, esse nível visa superar as taxas de desconto típicas para investimentos corporativos, incentivando a substituição antecipada de equipamentos por versões de baixo carbono.
Como mecanismo de segurança, o governo pode permitir que empresas com escassez de licenças cumpram obrigações pagando o preço máximo estipulado, em vez de comprar no mercado. Se os preços permanecerem abaixo do limite máximo por período prolongado, as autoridades poderão intervir reduzindo o número de licenças em circulação.
O Japão é o quinto maior emissor mundial de gases de efeito estufa, e havia dito anteriormente que se tornaria neutro em carbono "o mais cedo possível", prometendo reduzir as emissões em 80 por cento até 2050. A meta foi refinada em 2020, quando o então primeiro-ministro Yoshihide Suga estabeleceu o prazo de 2050 para alcançar a neutralidade de carbono.
O caminho é desafiador devido à forte dependência do país em relação ao carvão e combustíveis fósseis. Atingir a neutralidade de carbono até 2050 exigirá um investimento total de cerca de US$ 7,7 trilhões na indústria energética japonesa, segundo estimativas da Bloomberg.
Recentemente, o Japão propôs redução de 60% nas emissões até 2035, tomando como base os níveis de 2013. Embora significativa, a meta enfrenta críticas de ambientalistas e cientistas por ser inferior ao necessário para limitar o aquecimento global a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais.
A faixa de preço inicial japonesa está amplamente alinhada com os mercados de carbono na China e Coreia do Sul, mas permanece bem abaixo dos valores praticados em mercados mais maduros.
Na União Europeia, os preços são significativamente mais altos, com contratos futuros negociados a aproximadamente € 76,59 por crédito em fevereiro de 2025.
Na China, que lançou o maior mercado de carbono do mundo em volume de emissões cobertas em 2021, os preços médios ficaram inicialmente em torno de US$ 4,60, muito abaixo dos praticados na Europa. A Coreia do Sul adotou o mercado em 2015, e hoje lidera como segundo maior do mundo, contemplando 70% das emissões nacionais.
A medida japonesa surge quando principais economias da Ásia e do Ocidente expandem mercados de carbono e medidas fronteiriças para precificar emissões incorporadas em bens comercializados. Isso aumenta pressões sobre exportadores em setores com alta emissão de carbono, como aço, produtos químicos e automóveis.
A estratégia de "transformação verde" do Japão vai além do mercado regulado de carbono. O país planeja aumentar substancialmente a geração de energia eólica e solar, além de apostar em tecnologias emergentes como usinas que queimam amônia ou hidrogênio.
O governo japonês lançou a iniciativa Liga GX, incentivando empresas a estabelecerem metas voluntárias de redução de emissões. A combinação de regulamentação obrigatória com incentivos de mercado busca manter a competitividade global dos fabricantes japoneses voltados para exportação.
A Bolsa de Valores de Tóquio já opera mercado de créditos de carbono J-Credits, certificados pelo governo. Embora o volume ainda seja modesto comparado a centros internacionais, a expectativa é de crescimento significativo com a implementação do mercado regulado.
O lançamento do mercado japonês representa nova oportunidade para o comércio global de ativos sustentáveis. Países e empresas com capacidade de gerar créditos de carbono de alta qualidade poderão exportar para suprir a demanda japonesa.
O Brasil, com cerca de 60% do território preservado, posiciona-se estrategicamente para esse mercado. A B4, primeira Bolsa de Ação Climática do Brasil, oferece infraestrutura baseada em blockchain que garante transparência e rastreabilidade exigidas por mercados internacionais rigorosos como o japonês.
A transformação de ativos através de tecnologia blockchain permite que créditos sejam certificados, facilitando negociações internacionais e garantindo a origem e qualidade dos créditos.
Com a expansão dos mercados regulados na Ásia, a demanda global por créditos de carbono certificados deve crescer exponencialmente. O desafio será garantir que essa expansão promova descarbonização real, evitando os problemas de fraude e baixa integridade que assolam o mercado voluntário.