O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 3 estabelecido pela Organização das Nações Unidas representa uma das iniciativas mais ambiciosas da Agenda 2030: assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todas as pessoas, em todas as idades. Com prazo de cumprimento se aproximando, este ODS enfrenta desafios sem precedentes que exigem soluções inovadoras e cooperação global intensificada.
A magnitude do desafio torna-se evidente quando analisamos os dados globais. Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde de 2024, a expectativa de vida mundial caiu 1,8 ano entre 2019 e 2021, retrocedendo aos níveis de 2012. A pandemia de COVID-19 destruiu quase uma década de progressos na melhoria da expectativa de vida, evidenciando a fragilidade dos sistemas de saúde globais.
No Brasil, a situação apresenta avanços pontuais, mas ainda enfrenta obstáculos significativos. O país ocupa a 52ª posição entre 166 nações avaliadas no Índice ODS 2024, com pontuação de 73,78 pontos. Embora tenha apresentado melhora moderada em alguns indicadores de saúde e bem-estar, o país estagnou em quatro ODS e registrou retrocessos em outros objetivos interconectados.
O ODS 3 compreende nove metas principais e quatro submetas específicas, abrangendo desde a redução da mortalidade materna e infantil até o combate às doenças transmissíveis e não transmissíveis. Entre os principais objetivos destacam-se a redução da taxa de mortalidade materna global para menos de 70 mortes por 100.000 nascidos vivos e o fim das mortes evitáveis de recém-nascidos e crianças menores de cinco anos.
A mortalidade materna no Brasil apresentou oscilações preocupantes. Em 2022, o país alcançou a meta global relacionada à mortalidade materna após um período de aumento substancial durante os anos pandêmicos. No entanto, a meta nacional brasileira é ainda mais ambiciosa: reduzir a razão de mortalidade materna para no máximo 30 mortes por 100.000 nascidos vivos até 2030.
O combate às doenças transmissíveis representa outro pilar fundamental. O Brasil adaptou a meta global para incluir arboviroses transmitidas pelo Aedes aegypti, reconhecendo a realidade epidemiológica nacional. A tuberculose continua sendo uma causa significativa de morbimortalidade no país, exigindo ação conjunta dos profissionais de saúde para aprimorar a gestão dos serviços.
A transformação digital é uma ferramenta fundamental para acelerar o progresso rumo às metas do ODS 3. A inteligência artificial na saúde projeta crescimento de 41,7% ao ano, com o mercado global esperado para atingir US$ 187,9 bilhões em 2030. No Brasil, aproximadamente 76% dos CEOs de empresas de saúde pretendem investir em inteligência artificial até o final de 2024.
O Programa SUS Digital, lançado pelo Ministério da Saúde, representa um marco na transformação digital do sistema público brasileiro. Com adesão de 5.562 municípios (99,9%) na primeira etapa de 2024, a iniciativa busca garantir integralidade e resolutividade da atenção à saúde através da ampliação do acesso às soluções digitais.
A telemedicina expandiu significativamente durante a pandemia, evoluindo de simples teleconsultas para linhas completas de cuidado remoto. Ferramentas como big data, Internet das Coisas e machine learning estão sendo utilizadas para diagnósticos mais rápidos e precisos, redução de custos e personalização de tratamentos.
O relatório da ONU sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável 2024 alerta que apenas um quinto das metas está caminhando na direção correta. A lacuna de investimento dos ODS nos países em desenvolvimento atingiu US$ 4 trilhões anuais, evidenciando a necessidade urgente de reforma da arquitetura financeira internacional.
A poluição ambiental representa uma ameaça crescente à saúde global. Dados da OMS indicam que 24% das mortes mundiais estão relacionadas a fatores ambientais, com 99% da população mundial vivendo em áreas com níveis de poluição superiores aos limites estabelecidos. Esta realidade ressalta a interconexão entre saúde e bem-estar e outros objetivos sustentáveis, como saneamento básico e qualidade do ar.
A saúde mental ganhou destaque especial nas discussões globais. Aproximadamente 800.000 pessoas cometem suicídio anualmente, sendo esta a quarta maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Mais de 77% dos suicídios globais ocorrem em países de baixa e média renda, evidenciando a necessidade de investimentos específicos nesta área.
Apesar dos desafios, o Brasil apresenta progressos em alguns indicadores importantes. A taxa de mortalidade neonatal brasileira ficou em 8,4 mortes por 1.000 nascidos vivos em 2021, abaixo da média de muitos países em desenvolvimento. O país também registrou queda no número de nascimentos entre mães adolescentes, indicando avanços nas políticas de saúde reprodutiva.
O Sistema Único de Saúde mantém sua característica universal, atendendo mais de 70% da população brasileira que depende exclusivamente do sistema público. A Rede Nacional de Dados em Saúde representa um avanço significativo na integração de informações, possibilitando melhor gestão e tomada de decisões baseadas em evidências.
As perspectivas para 2030 incluem avanços revolucionários em diversas frentes. A medicina personalizada, baseada em análise genética e big data, promete tratamentos mais eficazes e direcionados. Cirurgias robóticas de alta precisão e realidade aumentada estão transformando procedimentos médicos complexos.
O conceito de hospital em casa ganha força com dispositivos de monitoramento remoto e aplicativos especializados. Esta abordagem permite que pacientes recebam cuidados hospitalares em seus domicílios, reduzindo custos e melhorando a experiência do usuário.
A interoperabilidade entre sistemas de saúde representa outro avanço crucial. A capacidade de compartilhar informações entre diferentes instituições e profissionais permite cuidados mais coordenados e eficientes, evitando duplicação de exames e tratamentos.
O alcance das metas do ODS 3 depende fundamentalmente da cooperação internacional e do financiamento adequado. A Cúpula do Futuro, realizada em setembro de 2024 na sede da ONU, destacou a necessidade urgente de reforma da arquitetura financeira global para liberar recursos necessários ao desenvolvimento sustentável.
A pandemia demonstrou que crises de saúde não respeitam fronteiras, exigindo respostas coordenadas e compartilhamento de conhecimentos. O fortalecimento dos sistemas de alerta precoce e a capacidade de resposta a emergências sanitárias tornam-se prioritários para evitar futuras catástrofes.