Créditos de carbono vivem nova era com foco na qualidade
Mercado global prioriza integridade sobre volume, com créditos certificados valorizando 360% mais que alternativas sem selo de qualidade
Monitoramento de projetos florestais que geram créditos de carbono certificados com padrões internacionais de integridade. Foto: Canva
O mercado global de créditos de carbono atravessa uma transformação silenciosa, mas profunda. Após anos de crescimento baseado em volume, o setor agora direciona seus esforços para a credibilidade e conformidade dos ativos sustentáveis negociados.
Dados divulgados pela MSCI Carbon Markets em janeiro de 2026 revelam que, embora o tamanho do mercado tenha permanecido estável em US$ 1,4 bilhão durante 2025, uma divisão cada vez maior separa créditos de alta e baixa qualidade.
Esta mudança de paradigma ocorre em momento estratégico para o Brasil, que avança na regulamentação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) . A implementação da Lei 15.042/2024 coloca o país no seleto grupo de nações com mercado regulado de carbono, atraindo investimentos internacionais e fortalecendo a economia verde nacional.
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A análise da MSCI Carbon Markets demonstra que o mercado primário de créditos de carbono, calculado pelo volume de créditos retirados de circulação multiplicado por seu preço estimado de compra, - manteve-se praticamente inalterado em 2025, ficando abaixo do pico de US$ 1,6 bilhão registrado em 2022. Contudo, essa aparente estagnação esconde uma reconfiguração fundamental: empresas e governos estão pagando significativamente mais por créditos que demonstram impacto ambiental genuíno e verificável.
Qualidade determina preços no novo mercado de carbono
A transformação mais notável identificada pela MSCI está na crescente disparidade de preços entre créditos de carbono com diferentes níveis de integridade. Enquanto o preço médio anual caiu para US$ 3,5 por tonelada de CO2 equivalente em 2025, ante US$ 4,3 no ano anterior, os créditos com classificação BBB ou superior experimentaram valorização de 20%, saltando de US$ 5,6 em 2024 para US$ 6,8 em 2025.
Esta diferenciação criou um spread médio de US$ 7 entre créditos de alta e baixa qualidade até o final de 2025, comparado a apenas US$ 2,9 em 2024. Na prática, isso representa um prêmio de aproximadamente 360% para créditos de maior qualidade, consolidando a integridade como principal fator de precificação no mercado voluntário de carbono.
Os ativos sustentáveis baseados em soluções naturais, como reflorestamento e restauração de ecossistemas, lideram a valorização. Créditos de remoção controlada, que extraem diretamente carbono da atmosfera, também ganham espaço crescente. Por outro lado, créditos de menor qualidade, frequentemente associados a projetos de energia renovável sem adicionalidade comprovada, enfrentam declínio tanto em demanda quanto em preços.
Padrões globais de integridade remodelam o mercado
A crescente divergência de preços pode ser atribuída à adoção de padrões rigorosos de qualidade, especialmente os Princípios Essenciais de Carbono (Core Carbon Principles - CCPs), desenvolvidos pelo Conselho de Integridade para o Mercado Voluntário de Carbono (ICVCM). Os CCPs funcionam como um selo de qualidade para créditos de carbono, garantindo que projetos entreguem reduções reais, verificáveis e permanentes de emissões.
Créditos que recebem o selo CCP são negociados a múltiplos significativamente mais altos que alternativas não certificadas. Segundo dados do mercado, esses ativos sustentáveis certificados comandam prêmios de até 25% sobre créditos convencionais, e essa diferença tende a ampliar conforme mais empresas adotam políticas de compra baseadas em integridade.
Além dos CCPs, o contexto regulatório em evolução introduz padrões mais elevados. O Artigo 6.4 do Acordo de Paris estabelece um mecanismo centralizado de crédito para projetos que atendam critérios rigorosos de qualidade. Essa convergência entre mercados voluntários e regulados está criando uma base comum de exigências, eliminando gradualmente créditos de baixa integridade do sistema.
Em 31 de dezembro de 2025, mais de 10.200 projetos ambientais estavam registrados em 18 registros de créditos de carbono monitorados pela MSCI, emitindo coletivamente mais de 294 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente ao longo do ano. Do lado da demanda, 202 milhões de toneladas em créditos foram retiradas de circulação, processo que remove permanentemente o ativo do mercado para garantir contabilização única da redução de emissões.
Brasil avança na regulamentação do mercado de carbono
O contexto brasileiro oferece perspectivas particularmente animadoras para o desenvolvimento do mercado de créditos de carbono de alta integridade. A sanção da Lei 15.042/2024 estabeleceu as bases para o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), que será implementado gradualmente ao longo de cinco fases até 2030.
O Ministério da Fazenda criou a Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono, que atuará temporariamente como órgão gestor do SBCE até a criação de uma agência reguladora permanente. A meta do governo é publicar todas as normas infralegais necessárias até dezembro de 2026, preparando o terreno para a operação plena do sistema em 2030.
O SBCE contemplará tanto o mercado regulado, com metas obrigatórias para empresas que emitem acima de 25 mil toneladas de CO2 equivalente por ano, quanto o mercado voluntário, onde organizações podem comercializar ativos sustentáveis para compensar emissões. Projeções do Banco Mundial indicam que o mercado brasileiro pode elevar o crescimento adicional da economia em quase 6% até 2040 e 8,5% até 2050.
Empresas intensificam compromissos climáticos
O crescimento projetado para o mercado de créditos de carbono está diretamente ligado ao número crescente de empresas que buscam utilizar esses ativos sustentáveis para cumprir compromissos climáticos. O banco de dados corporativo da MSCI mostra que 1.300 empresas globalmente se comprometeram a alcançar neutralidade de carbono até 2030 ou antes.
Mais impressionante ainda é o número de empresas com metas de redução de emissões aprovadas pela iniciativa Science Based Targets (SBTi): mais de 12.000 organizações, representando aumento de quase 70% nos últimos 12 meses. Essas metas corporativas incentivarão as empresas a compensar quaisquer emissões residuais que as impeçam de atingir seus objetivos, impulsionando a demanda por créditos de carbono de alta qualidade.
A MSCI prevê que essa dinâmica levará o mercado a crescer substancialmente, atingindo entre US$ 5 bilhões e US$ 20 bilhões até 2030 e entre US$ 60 bilhões e US$ 270 bilhões até meados do século. Para investidores e desenvolvedores de projetos, a crescente dispersão nos resultados do mercado destaca o papel cada vez maior da qualidade do crédito, do tipo de projeto e da exposição a soluções baseadas em remoção de carbono.
Transformação de ativos e certificados digitais
A transformação digital dos ativos sustentáveis desempenha papel fundamental nesta nova fase do mercado de carbono. Plataformas como a B4, primeira bolsa de ação climática do Brasil, utilizam tecnologia blockchain para garantir rastreabilidade, transparência e imutabilidade nas negociações de créditos de carbono.
Quando uma empresa compra créditos através dessas plataformas, o sistema gera Certificados de Ação Climática em formato NFT, que funcionam como comprovação digital das ações sustentáveis realizadas. Esta transformação de ativos permite que créditos sejam fracionados em unidades menores, democratizando o acesso ao mercado e facilitando a verificação por auditores e reguladores.
A blockchain garante que os dados registrados não possam ser alterados, prevenindo fraudes e duplicidade de títulos, problemas que historicamente prejudicaram a credibilidade do mercado voluntário de carbono. Com transparência total desde a origem até a entrega final, investidores ganham confiança para direcionar capital para projetos que efetivamente reduzem emissões e protegem ecossistemas.