Microsoft compra 2,85 milhões de créditos da Indigo

Dólar em alta impacta ativos sustentáveis na B4 enquanto gigante de tecnologia fecha terceiro acordo com empresa americana de agricultura regenerativa

Por Por Geisa Ferreira da Silva-
7 Min

O mercado de ativos sustentáveis na B4 encerrou a quarta-feira (15) refletindo a volatilidade cambial registrada ao longo do dia. O dólar comercial fechou em alta de 0,0948%, cotado a R$ 5,3846, movimento que repercutiu diretamente nos créditos de carbono listados na primeira Bolsa de Ação Climática do Brasil.

Todos os ativos de carbono negociados na plataforma acompanharam a oscilação da moeda americana, sem registrar outras movimentações significativas durante o pregão. A alta do dólar segue o padrão de volatilidade esperado para 2026, ano marcado por incertezas políticas e eleitorais no Brasil que tendem a impactar o mercado cambial.

O comportamento do dólar permanece como um dos principais indicadores para o mercado de carbono brasileiro, já que a maior parte das transações internacionais de créditos de carbono é precificada na moeda americana. A B4 utiliza tecnologia blockchain para garantir rastreabilidade e segurança nas negociações de ativos sustentáveis, conectando inovação tecnológica às práticas de responsabilidade ambiental.

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Microsoft amplia aposta em agricultura regenerativa

O ponto de destaque do dia ficou por conta do anúncio de uma das maiores transações globais do mercado voluntário de carbono. A Microsoft, gigante americana de tecnologia, firmou acordo para comprar 2,85 milhões de créditos de carbono da Indigo, empresa especializada em insumos biológicos e agricultura regenerativa nos Estados Unidos.

O contrato tem duração de 12 anos e representa o terceiro acordo entre as companhias. Anteriormente, a Microsoft havia adquirido 40 mil toneladas de créditos em 2024 e outras 60 mil toneladas em 2025. A nova transação amplia significativamente a escala da parceria e reforça o compromisso da empresa em se tornar carbono negativa até 2030.

Embora o valor exato não tenha sido divulgado oficialmente, fontes próximas ao negócio indicam que o acordo está avaliado entre US$ 171 milhões e US$ 228 milhões, considerando o preço histórico de US$ 60 a US$ 80 por tonelada praticado pela Indigo Carbon. A transação posiciona a agricultura regenerativa como uma das principais soluções climáticas de longo prazo no mercado global.

Agricultura regenerativa gera créditos de alta qualidade

Os créditos adquiridos pela Microsoft serão gerados através do programa Carbon by Indigo, que trabalha com milhares de produtores rurais americanos na implementação de práticas de agricultura regenerativa. Essas técnicas incluem plantio direto, rotação de culturas, uso de plantas de cobertura e manejo integrado do gado para melhorar a capacidade do solo de capturar carbono da atmosfera.

A agricultura regenerativa vai além da sustentabilidade tradicional ao focar na regeneração dos ecossistemas. As práticas promovem o sequestro de carbono no solo, aumentam a biodiversidade, melhoram a retenção de água e reduzem a necessidade de insumos químicos. Segundo estimativas, esse modelo tem potencial para remover mais de 3,5 gigatoneladas de CO2 equivalente por ano globalmente.

"A Microsoft está satisfeita com a abordagem da Indigo para a agricultura regenerativa, que entrega resultados mensuráveis através de créditos verificados e pagamentos aos produtores", afirmou Phillip Goodman, Diretor de Remoção de Carbono da empresa de tecnologia. O executivo destacou ainda o avanço na ciência do carbono do solo através de modelagem avançada e parcerias acadêmicas.

A Indigo trabalha atualmente com produtores em 3,24 milhões de hectares nos Estados Unidos e já repassou aproximadamente US$ 40 milhões diretamente aos agricultores participantes de seus programas. Desde 2018, a empresa estima ter economizado cerca de 64 bilhões de galões de água e emitido quase 1 milhão de toneladas de créditos de carbono verificados.

Créditos aprovados por padrões internacionais

Um diferencial importante deste acordo é que ele representa um dos primeiros contratos de carbono do solo a incluir créditos aprovados segundo os Core Carbon Principles do Integrity Council for the Voluntary Carbon Market (ICVCM). Essa certificação adiciona uma camada extra de credibilidade aos ativos sustentáveis negociados.

A metodologia utilizada pela Indigo segue o Soil Enrichment Protocol (SEP) do Climate Action Reserve e inclui medidas para reduzir o risco de reversão ao longo do período de durabilidade de 40 anos acordado com a Microsoft. O protocolo exige monitoramento por 100 anos e obrigações de compensação em caso de reversão do carbono sequestrado.

A verificação dos créditos combina amostragem de solo, dados das fazendas e modelagem científica avançada. Os resultados são auditados independentemente sob padrões reconhecidos do mercado de carbono, garantindo a integridade ambiental dos Certificados de Ação Climática em formato NFT gerados.

Microsoft lidera compras globais de remoção de carbono

A transação reforça a posição da Microsoft como a maior compradora de créditos de remoção de carbono do mundo. A empresa tem multiplicado seus investimentos em soluções baseadas na natureza para compensar as crescentes emissões geradas pela expansão de seus data centers e operações de inteligência artificial.

Somente em janeiro de 2026, a Microsoft já anunciou a compra de 5 milhões de toneladas de créditos de carbono através de diferentes acordos. Além do contrato com a Indigo, a empresa firmou compromisso para adquirir 2 milhões de créditos de reflorestamento da Rubicon Carbon em Uganda e expandiu parceria com a brasileira Re.green para restaurar 17,5 mil hectares adicionais na Mata Atlântica e Amazônia.

Meredith Reisfield, Diretora Sênior de Políticas e Impacto da Indigo, destacou que "a compra da Microsoft evidencia o poder transformador da agricultura regenerativa para apoiar bacias hidrográficas, comunidades agrícolas e avançar nas metas globais de emissões líquidas zero".

Brasil como fronteira estratégica

Apesar do acordo atual focar nos Estados Unidos, a Indigo já sinalizou que o Brasil representa a próxima fronteira estratégica para expansão do mercado de créditos de carbono agrícolas. Carlos Raucci, presidente da Indigo no Brasil, afirmou em entrevista que a experiência acumulada nos Estados Unidos servirá como base para acelerar o desenvolvimento no país.

"Com todo o aprendizado que tivemos, as metodologias e a maneira como fazemos isso hoje, conseguimos acelerar o desenvolvimento", declarou o executivo. Segundo ele, mais de 75% do valor dos créditos permanece com os produtores rurais, tornando-os a figura-chave dos projetos.

O Brasil possui condições privilegiadas para se tornar líder global no mercado de carbono, com vasta área preservada e legislação ambiental rigorosa. Estimativas indicam que o país pode movimentar até US$ 120 bilhões (cerca de R$ 580 bilhões) até 2030 apenas no mercado de créditos de carbono, consolidando-se como protagonista na transição climática global.

Perspectivas para o mercado

O acordo entre Microsoft e Indigo sinaliza a maturidade crescente do mercado voluntário de carbono e o reconhecimento da agricultura regenerativa como solução climática viável em escala. A transação também demonstra que grandes corporações estão dispostas a pagar preços premium por créditos de alta integridade com verificação robusta.

Para o mercado brasileiro de ativos sustentáveis, movimentos como este reforçam a importância de plataformas como a B4 na transformação de ativos ambientais em instrumentos financeiros transparentes e rastreáveis através de blockchain. A expectativa é que o país amplie sua participação no mercado global à medida que regulamentações avancem e projetos de qualidade sejam desenvolvidos.

A B4 continua trabalhando para consolidar o Brasil como protagonista no mercado internacional de créditos de carbono, conectando inovação tecnológica a práticas de responsabilidade ambiental e oferecendo um ambiente transparente para negociação de ativos sustentáveis verificados.


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