O Brasil possui um dos maiores potenciais de bioeconomia do planeta e lidera discussões sobre transição energética, mas ainda recebe investimentos desproporcionalmente baixos em climatechs – startups de tecnologia voltadas para soluções climáticas.
A constatação está em relatório inédito do Fórum Brasileiro das Climatechs lançado durante a COP30 em Belém, produzido em parceria com a Climate Ventures e a agência alemã de cooperação internacional GIZ.
O documento revela um cenário alarmante: a América Latina como um todo recebeu apenas US$ 743 milhões dos US$ 92 bilhões investidos globalmente em climatechs durante 2024, representando míseros 0,8% do total.
Esses números são desproporcionais à relevância ambiental e econômica da região, especialmente considerando que o Brasil detém 66% de seu território coberto por vegetação nativa e uma das matrizes energéticas mais limpas entre as grandes economias mundiais.
"Esse descompasso revela a dimensão da oportunidade e do desafio que temos pela frente", disse Zé Gustavo, diretor executivo do Fórum Brasileiro das Climatechs, durante o lançamento do estudo na Casa ComBio, na Ilha do Combu, em Belém.
O Brasil reúne recursos naturais, talento e tecnologia, mas ainda carece de financiamento adequado e de políticas que tratem a inovação climática como estratégia de desenvolvimento.
Definição inédita delimita campo emergente
O relatório apresenta uma delimitação inédita para o conceito de climatech no contexto brasileiro. O estudo define essas empresas como organizações de base tecnológica – sejam de software, hardware ou biotecnologia – que desenvolvem soluções escaláveis voltadas à mitigação e adaptação climática com impacto ambiental mensurável.
Das 18 mil startups mapeadas dentro do ecossistema de inovação brasileiro, apenas 14% atuam em segmentos relacionados à transição verde. Esse percentual evidencia o enorme potencial inexplorado no país, especialmente quando comparado com a urgência da agenda climática global e os compromissos assumidos pelo Brasil no Acordo de Paris e outras convenções internacionais.
O documento reconhece outras formas legítimas de inovação climática, como tecnologias sociais, saberes indígenas e soluções baseadas na natureza, mas delimita o conceito para fortalecer um campo emergente que conecta tecnologia, capital e impacto ambiental mensurável. A delimitação não busca excluir outras formas de inovação, mas criar clareza sobre qual ecossistema está sendo fortalecido.
Oito verticais prioritárias em movimento acelerado
O estudo mapeou pelo menos oito verticais de oportunidade prioritárias, revelando mercados já em movimento acelerado com números expressivos. Na agricultura e sistemas alimentares, o setor movimenta US$ 9,9 bilhões anuais em crédito rural alinhado ao clima, com mais de 1.970 agtechs mapeadas em 2024. O crescimento forte está ocorrendo fora do eixo São Paulo, demonstrando a descentralização da inovação agrícola no país.
O segmento de florestas e uso da terra atingiu valor recorde de R$ 44,3 bilhões em 2024, segundo dados do IBGE/PEVS. O crescimento foi impulsionado pela nova Lei Federal 15.042/2024, que estabelece o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), e pela crescente demanda internacional por créditos de carbono de alta integridade. Esse mercado conecta-se diretamente com iniciativas como o REDD+ e programas jurisdicionais de conservação florestal.
A gestão de resíduos representa um mercado de US$ 25,8 bilhões em 2024, com projeção de crescimento para US$ 38,9 bilhões até 2033. O setor é puxado por políticas de logística reversa e soluções de bioenergia, incluindo aproveitamento de resíduos agroindustriais como caroço de açaí e bagaço de cana-de-açúcar para geração de energia limpa.
O segmento de energia e biocombustíveis recebeu US$ 37 bilhões em investimentos durante 2024, consolidando o Brasil como destaque global pelo potencial em bioenergia, biometano, hidrogênio verde e combustíveis sustentáveis. O país é o segundo maior produtor de etanol de milho e quarto maior produtor nacional de etanol e cana-de-açúcar, com expectativa de continuar expandindo essa liderança.
Indústria e programas estruturantes
A indústria representa outra frente em expansão acelerada. O programa Nova Indústria Brasil (NIB), do Ministério da Fazenda, prevê R$ 300 bilhões até 2026 em crédito e investimentos para modernizar o parque produtivo nacional e reduzir emissões. A agenda impulsiona eletrificação de processos, eficiência energética e uso de insumos de baixo carbono em setores industriais tradicionais.
O setor de água e saneamento representa o maior desafio estrutural, com necessidade estimada de R$ 700 a 900 bilhões até 2033 para universalizar serviços básicos. Um sinal positivo surgiu em 2025 com a emissão do primeiro "blue bond corporativo" da América Latina, voltado especificamente para financiar projetos relacionados a água e economia azul.
A energia renovável é uma frente em que o Brasil já atua como referência internacional, com matriz predominantemente limpa baseada em hidrelétricas, eólica e solar. O país avança também em soluções baseadas na natureza, integrando conservação florestal com geração de energia limpa e captura de carbono.
Gargalo financeiro como obstáculo estrutural
Segundo os pesquisadores, o maior gargalo para as climatechs brasileiras não é tecnológico, mas estrutural no sistema financeiro. Enquanto o capital disponível segue formatos tradicionais de venture capital, as climatechs precisam de investidores dispostos a aceitar risco maior e financiar ciclos longos de desenvolvimento tecnológico.
Os modelos tradicionais de venture capital foram desenhados para startups de software: retornos rápidos, baixo custo operacional e escala digital. As climatechs, muitas vezes, exigem o oposto. São intensivas em hardware, ciência e infraestrutura, precisando de ciclos mais longos de validação tecnológica e instrumentos como blended finance – combinação de recursos públicos e privados para reduzir o risco percebido.
Climatechs como infraestrutura da economia verde
Daniel Contrucci, cofundador da Climate Ventures, enfatizou que há uma nova geração de empreendedores que enxerga o clima não apenas como causa ambiental, mas como oportunidade de prosperidade compartilhada. As climatechs não são apenas startups, são a infraestrutura de uma nova economia verde que já começou a emergir.
Nosso objetivo é fortalecer esse ecossistema, dar visibilidade às soluções que surgem nos territórios e contribuir para que o Brasil transforme seu potencial natural em inovação que gera impacto real, afirmou Contrucci. O desafio é construir uma ponte entre o capital disponível e os modelos de negócio que entregam impacto climático e prosperidade econômica.
A recomendação central do relatório é clara: inovação climática não deve ser tratada como setor marginal e sim reconhecida como política de Estado, integrada às agendas de reindustrialização verde, bioeconomia e transição energética. Entre os avanços em curso estão a implementação do mercado de carbono regulado e iniciativas como a Nova Indústria Brasil.
O estudo sugere a criação de plataformas de orquestração financeira que conectem startups a capital filantrópico, concessional e comercial em diferentes estágios de maturidade. Também propõe a ampliação de mecanismos de blended finance e a implementação de sandboxes regulatórios em setores críticos como energia, saneamento e agricultura para acelerar a validação de tecnologias.
Outras recomendações incluem o fortalecimento de compras públicas e corporativas verdes como instrumentos de tração de mercado e a criação de programas de fellowships dedicados a empreendedores climáticos em estágios iniciais. Essas medidas visam reduzir o risco percebido pelos investidores e criar um ambiente mais favorável para o desenvolvimento de soluções sustentáveis escaláveis.
Papel estratégico no Sul Global
Severin Peters, Coordenador Global da GIZ, afirmou que o Brasil é peça-chave para a missão global de desbloquear o potencial da inovação climática no Sul Global. Com sua escala, ativos naturais e ecossistema vibrante, o país é um parceiro fundamental no desenvolvimento de soluções capazes de impulsionar uma transição global justa e ambiciosa.
O relatório destaca que as climatechs funcionam como ponte estratégica entre as agendas climática e econômica, promovendo inovação, competitividade e desenvolvimento inclusivo. Além disso, contribuem para a valorização dos recursos naturais com soluções tecnológicas e ajudam na descarbonização por meio de novas cadeias produtivas mais sustentáveis.
O convite é para ação transformadora: converter os investimentos em escala real e impulsionar o desenvolvimento de políticas públicas robustas. Com a realização da COP30 em Belém, o Brasil tem oportunidade histórica de mostrar que possui não apenas biodiversidade e recursos naturais, mas também capacidade de inovação tecnológica para liderar a transição para uma economia de baixo carbono.
O sucesso dessa transformação dependerá da capacidade de mobilizar financiamento adequado, implementar políticas públicas coordenadas e criar um ambiente regulatório que facilite a validação e escalabilidade das soluções desenvolvidas pelas climatechs brasileiras. O momento é estratégico e os próximos anos serão decisivos para posicionar o país como referência global em ação climática baseada em inovação tecnológica.