A gestora de investimentos Mirova, reconhecida por seu foco em sustentabilidade, acaba de realizar seu maior aporte em projetos de carbono baseados na natureza. A empresa francesa destinou US$ 30 milhões para uma iniciativa de carbono do solo na Índia, desenvolvida pela startup Varaha, que trabalha diretamente com pequenos produtores rurais na implementação de agricultura regenerativa.
O anúncio marca um duplo pioneirismo para a Mirova: além de representar sua transação mais expressiva na área de carbono natural, configura também seu primeiro investimento no mercado indiano. A escolha estratégica reflete o potencial do setor agrícola do país asiático, que emprega centenas de milhões de pessoas e enfrenta desafios crescentes relacionados à degradação do solo e às mudanças climáticas.
A Índia possui uma das maiores populações rurais do mundo, com agricultura familiar respondendo por parcela significativa da produção de alimentos. Ao mesmo tempo, práticas convencionais de cultivo têm contribuído para perda de matéria orgânica no solo, emissões de gases de efeito estufa e vulnerabilidade dos agricultores a eventos climáticos extremos.
Startup conecta agricultores ao mercado de carbono
Fundada em 2022, a Varaha posiciona-se como desenvolvedora de projetos de carbono especializados em soluções baseadas na natureza. A empresa concentra seus esforços em trabalhar com pequenos agricultores, criando metodologias e infraestrutura que permitem a esses produtores acessarem o mercado de créditos de carbono, historicamente dominado por grandes propriedades e corporações.
A missão declarada da Varaha é ambiciosa: sequestrar 1 bilhão de toneladas de CO2 equivalente em terras de pequenos agricultores. Para isso, a startup desenvolveu portfólio diversificado de abordagens, incluindo agricultura regenerativa, agroflorestamento, produção de biochar e técnicas de intemperismo acelerado de rochas. Atualmente, a empresa opera 13 projetos de carbono no sul da Ásia.
"Essa parceria valida fortemente a visão da Varaha de tornar a agricultura regenerativa um pilar da estratégia climática da Índia", afirmou Madhur Jain, diretor-executivo da companhia. Segundo ele, o trabalho com milhares de pequenos agricultores demonstra que projetos de carbono em larga escala e alta integridade podem simultaneamente gerar benefícios significativos para a subsistência das comunidades rurais.
Projeto Kheti: transformando o cultivo de arroz
O investimento da Mirova será direcionado especificamente para o projeto Kheti, que atua nos estados indianos de Haryana e Punjab. Essas regiões são conhecidas como o celeiro da Índia, respondendo por parcela substancial da produção nacional de arroz e trigo. Paradoxalmente, são também áreas onde práticas agrícolas intensivas têm gerado problemas ambientais significativos.
A iniciativa visa apoiar a transição de mais de 337 mil pequenos agricultores em aproximadamente 675 mil hectares para práticas regenerativas. Entre as técnicas promovidas estão o plantio direto de arroz, manejo adequado de resíduos de colheita e cultivo mínimo, que reduz o revolvimento do solo.
O plantio direto de arroz, por exemplo, elimina a necessidade de preparo intensivo do solo antes da semeadura, reduzindo emissões de metano e consumo de diesel. O manejo de resíduos de colheita substitui a queima de palha, prática comum na região que gera poluição atmosférica severa e contribui para as emissões de gases de efeito estufa.
Essas práticas foram desenhadas para gerar créditos de carbono de alta qualidade, com metodologia robusta de mensuração e verificação. Crucialmente, o projeto incorpora mecanismo de compartilhamento de receita que garante aos agricultores participantes benefícios financeiros diretos quando os créditos são vendidos no mercado.
Múltiplos benefícios além do carbono
Embora o sequestro de carbono seja o objetivo primário, o projeto Kheti foi estruturado para entregar diversos co-benefícios ambientais e sociais. A melhoria da saúde do solo está entre os mais importantes, com aumento de matéria orgânica, estrutura e capacidade de retenção de água.
A redução do revolvimento do solo favorece a biodiversidade, protegendo organismos benéficos que contribuem para a ciclagem de nutrientes e controle natural de pragas. As práticas regenerativas também diminuem a dependência de insumos químicos, reduzindo custos de produção e exposição dos agricultores a substâncias potencialmente nocivas.
Em regiões onde a água é recurso cada vez mais escasso, as técnicas promovidas pelo projeto reduzem o consumo hídrico da agricultura. No caso específico do arroz, o plantio direto diminui a necessidade de inundação prolongada dos campos, economizando milhões de litros de água.
A qualidade do ar também deve melhorar com a eliminação da queima de resíduos agrícolas, prática que nas últimas décadas transformou cidades como Nova Delhi em algumas das mais poluídas do mundo durante os meses de colheita.
Impacto socioeconômico nas comunidades rurais
Além dos benefícios ambientais, o projeto Kheti foi desenhado para fortalecer a resiliência econômica das comunidades participantes. O aumento da produtividade agrícola através de solos mais saudáveis e práticas otimizadas pode elevar a renda dos produtores, enquanto a redução de custos com insumos melhora as margens de lucro.
A geração de empregos é outro componente relevante. A implementação das práticas regenerativas, o monitoramento dos projetos e a gestão local da iniciativa criam oportunidades de trabalho nas áreas rurais, contribuindo para fixar população no campo e reduzir a migração para centros urbanos.
Um aspecto particularmente interessante é o apoio ao empreendedorismo feminino em comunidades rurais. Mulheres frequentemente enfrentam barreiras adicionais para participação em programas agrícolas e acesso a recursos financeiros. O projeto Kheti incorpora componentes específicos para garantir que mulheres produtoras possam se beneficiar igualmente das oportunidades criadas.
Plataforma para expansão na Ásia-Pacífico
Para a Mirova, o investimento representa mais do que uma transação isolada. A gestora vê a parceria como porta de entrada para expandir sua atuação em ativos sustentáveis baseados na natureza em toda a região da Ásia-Pacífico, onde o potencial para projetos similares é vasto.
"Esta transação marca um marco crucial na nossa estratégia", afirmou Charlotte Lehmann, diretora sênior de investimentos da Mirova. Segundo ela, o acordo abre novas vias para expandir investimentos de alta integridade baseados na natureza na região. "A Kheti exemplifica como o financiamento de carbono pode impulsionar a transformação sistêmica na agricultura, ao mesmo tempo que fortalece a resiliência das comunidades rurais vulneráveis."
A escolha da Índia como ponto de partida faz sentido estratégico. O país possui não apenas enorme base de pequenos agricultores, mas também estrutura regulatória em desenvolvimento para mercados de carbono e crescente interesse corporativo em compensação de emissões de alta qualidade.
Modelo replicável em outros mercados
A estrutura do projeto Kheti pode servir de referência para iniciativas similares em outros países em desenvolvimento com agricultura familiar expressiva. Brasil, Indonésia, Filipinas, Vietnã e diversos países africanos possuem perfis agrícolas comparáveis e enfrentam desafios semelhantes relacionados a práticas de cultivo, degradação do solo e vulnerabilidade climática.
O modelo de negócio da Varaha, que agrega milhares de pequenos produtores e fornece infraestrutura técnica e financeira para sua participação no mercado de carbono, resolve um dos principais obstáculos históricos: os altos custos de transação associados a projetos fragmentados.
Para a ação climática global, iniciativas deste tipo são essenciais. A agricultura é responsável por cerca de um quarto das emissões globais de gases de efeito estufa, mas também possui potencial significativo de sequestro através de práticas regenerativas. Escalar soluções que simultaneamente reduzem emissões, removem carbono da atmosfera e melhoram a subsistência de centenas de milhões de agricultores é prioridade crescente tanto para investidores quanto para governos.