Transição energética industrial será um dos focos da COP-30
Conferência climática em Belém debaterá descarbonização da energia, indústria e transporte através de tecnologias sustentáveis e acesso universal à energia
Brasil é um dos países com maior índice de energia renovável do planeta. Foto: Freepik
A COP 30, que será realizada em novembro de 2025, em Belém do Pará, promete ser um marco definitivo na transição energética global. O primeiro eixo temático da conferência, dedicado à "Transição nos setores de energia, indústria e transporte", representa uma das discussões mais cruciais para o futuro climático do planeta. Este eixo abrange quatro subtemas fundamentais que determinarão o sucesso das metas climáticas globais até 2030.
O encontro na Amazônia brasileira acontece em um momento crítico, quando dados recentes mostram que aproximadamente 673 milhões de pessoas ainda enfrentam fome no mundo, enquanto o setor energético global precisa passar por uma transformação sem precedentes. A escolha de Belém como sede simboliza a importância de discutir soluções climáticas no coração da maior floresta tropical do mundo, evidenciando a conexão direta entre preservação ambiental e desenvolvimento sustentável.
A transição energética representa muito mais que uma mudança tecnológica; constitui uma reestruturação completa dos sistemas que movem a economia global. Os setores de energia, indústria e transporte são responsáveis por aproximadamente 75% das emissões globais de gases de efeito estufa, tornando sua descarbonização essencial para limitar o aquecimento global a 1,5°C, conforme estabelecido no Acordo de Paris.
Leia Também- ODS 2 da ONU busca erradicar fome mundial até 2030
- COP-30: Conheça os 30 objetivos-chave para guiar ação climática global na Amazônia
- Brasil e China alinham finanças sustentáveis em encontro estratégico
O primeiro subtema do eixo estabelece metas ambiciosas que foram acordadas durante a COP28 em Dubai. O compromisso global de triplicar a capacidade de energias renováveis até 2030 e duplicar as taxas de eficiência energética representa um desafio monumental que exige investimentos de aproximadamente US$ 31,5 trilhões entre 2024 e 2030, segundo dados da Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA).
Para alcançar essas metas, o mundo precisará construir e modernizar 25 milhões de quilômetros de redes elétricas até 2030, além de implementar 1.500 gigawatts (GW) de capacidade de armazenamento de energia. Deste total, 1.200 GW devem vir do armazenamento em bateria, representando um aumento de 15 vezes em relação aos níveis atuais.
O Brasil se destaca neste cenário com uma matriz energética já altamente renovável, onde 83% da eletricidade provém de fontes limpas. O país possui potencial excepcional para liderar a expansão de energias renováveis, especialmente considerando seus vastos recursos solares, eólicos e hídricos. A energia solar fotovoltaica brasileira atingiu 50,6 TWh em 2024, com crescimento de 68,1%, enquanto a geração eólica alcançou 95,8 TWh, demonstrando o dinamismo do setor.
Tecnologias para setores de difícil descarbonizaçãoO segundo subtema aborda um dos maiores desafios da transição energética: a descarbonização de setores considerados "hard to abate" (difíceis de reduzir). Indústrias como siderurgia, cimento, produtos químicos e transporte pesado enfrentam obstáculos únicos devido à necessidade de altas temperaturas em seus processos e às reações químicas específicas que geram emissões diretas de CO2.
A indústria siderúrgica exemplifica esses desafios. Responsável por aproximadamente 8% das emissões globais de carbono, o setor produz cerca de 2 toneladas de CO2 para cada tonelada de aço em altos-fornos tradicionais. O hidrogênio verde emerge como a principal solução, prometendo reduzir essas emissões em até 80% quando utilizado como agente redutor na produção de "aço verde".
O Brasil está bem posicionado para liderar essa transformação, com empresas como a Vale desenvolvendo parcerias internacionais para implementar tecnologias de hidrogênio verde. A recente aprovação do marco legal do hidrogênio de baixo carbono (Lei 14.948/2024) reforça o compromisso brasileiro com essas tecnologias disruptivas, estabelecendo incentivos fiscais e diretrizes para expandir o mercado nacional.
Outros setores enfrentam desafios similares. A indústria cimenteira necessita de tecnologias de captura e armazenamento de carbono (CCS), enquanto o transporte marítimo e aviação dependem do desenvolvimento de combustíveis alternativos como amônia e biocombustíveis avançados. Essas tecnologias ainda estão em desenvolvimento, exigindo investimentos maciços em pesquisa e desenvolvimento.
Acesso universal à energia como prioridade globalO terceiro subtema destaca uma das maiores injustiças do mundo contemporâneo: a desigualdade energética. Atualmente, cerca de 675 milhões de pessoas vivem sem eletricidade, enquanto 2,3 bilhões não têm acesso a tecnologias de cocção limpas. A maioria dessa população se concentra na África Subsaariana, onde apenas 44% das pessoas têm acesso ao fornecimento elétrico.
No ritmo atual de eletrificação, aproximadamente 670 milhões de pessoas permanecerão sem energia elétrica em 2030, representando 8% da população mundial. Para alcançar o acesso universal até 2030, conforme estabelecido no ODS 7, são necessários investimentos anuais de US$ 30 bilhões em geração de rede e soluções descentralizadas.
A pandemia de COVID-19 e conflitos globais agravaram essa situação. Quase 90 milhões de pessoas na Ásia e África, que anteriormente tinham acesso à eletricidade, não conseguem mais arcar com o consumo básico devido aos impactos econômicos. Isso demonstra que o acesso universal à energia vai além da infraestrutura física, envolvendo questões de acessibilidade econômica e justiça social.
Mini-redes e sistemas autônomos baseados em energia solar emergem como soluções promissoras para áreas remotas, especialmente quando combinados com tecnologias digitais que permitem monitoramento e gestão eficiente. Países como Bangladesh, Quênia e Mianmar registraram progressos significativos através de programas inovadores que combinam tecnologia, financiamento adequado e políticas públicas inclusivas.
Transição justa dos combustíveis fósseisO quarto subtema representa o cerne da transformação energética global: o afastamento dos combustíveis fósseis de forma "justa, ordenada e equitativa". Esta formulação, acordada na COP28, reconhece que a transição não pode ser implementada uniformemente, devendo considerar as capacidades específicas de cada país e os impactos sociais das mudanças.
A transição justa implica que países desenvolvidos devem liderar o processo, fornecendo apoio financeiro e tecnológico para nações em desenvolvimento. Isso é particularmente importante considerando que muitos países pobres descobriram recentemente grandes reservas de combustíveis fósseis e dependem desses recursos para seu desenvolvimento econômico.
Dados do Programa das Nações Unidas para o Ambiente mostram que os governos mundiais planejam produzir 110% mais combustíveis fósseis do que o compatível com a meta de 1,5°C. Apenas 20 países são responsáveis por 80% das emissões globais, evidenciando a necessidade de responsabilidade diferenciada na transição.
O Brasil enfrenta dilemas complexos neste contexto. Embora possua uma matriz energética limpa, o país é um grande produtor de petróleo, exportando mais de 1,5 milhão de barris diários. A proximidade da COP30 oferece uma oportunidade única para demonstrar como um país pode conciliar produção de combustíveis fósseis com liderança em energias renováveis e compromissos climáticos ambiciosos.
Tecnologias emergentes e inovação para a transiçãoA inovação tecnológica será fundamental para o sucesso da transição energética discutida na COP30. Inteligência artificial, redes inteligentes e tecnologias de armazenamento estão revolucionando a forma como produzimos, distribuímos e consumimos energia. Sistemas de gestão energética baseados em IA podem otimizar o uso de recursos renováveis intermitentes, enquanto baterias de nova geração permitem maior integração de solar e eólica nas redes elétricas.
A digitalização dos sistemas energéticos também facilita a participação de pequenos produtores e consumidores, criando mercados de energia mais democráticos e eficientes. Blockchain e contratos inteligentes podem automatizar transações de energia renovável, enquanto sensores IoT permitem monitoramento em tempo real do consumo e geração.
Financiamento climático e parcerias internacionaisO financiamento representa um dos maiores obstáculos para a implementação das metas discutidas no eixo 1 da COP30. Os US$ 31,5 trilhões necessários para triplicar as renováveis exigem mobilização sem precedentes de recursos públicos e privados. A COP29, realizada em Baku, estabeleceu a meta de US$ 1,3 trilhão anuais para financiamento climático até 2035, mas a implementação efetiva desses recursos permanece um desafio.
Parcerias público-privadas emergem como mecanismo essencial para viabilizar projetos de grande escala. O setor privado deve fornecer a maior parte do capital necessário, mas necessita de marcos regulatórios estáveis e mecanismos de mitigação de riscos oferecidos pelos governos. Bancos de desenvolvimento e instituições financeiras multilaterais têm papel crucial na estruturação desses financiamentos.
Perspectivas para a COP 30 e alémA COP 30 em Belém representa uma oportunidade histórica para acelerar a transição energética global. A conferência coincide com o décimo aniversário do Acordo de Paris e acontece no momento crítico quando as emissões globais precisam ser reduzidas pela metade até 2030 para manter o aquecimento em 1,5°C.
O Brasil tem potencial para emergir como líder global nesta transição, aproveitando suas vantagens competitivas em energias renováveis, biodiversidade e recursos minerais críticos para tecnologias limpas. A Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, proposta brasileira para o G20, demonstra como questões energéticas se conectam com desenvolvimento social e justiça climática.
Os debates do eixo 1 definirão não apenas metas técnicas, mas também os princípios de equidade e justiça que devem guiar a transição energética. O sucesso dependeráda capacidade de conciliar urgência climática com desenvolvimento inclusivo, garantindo que a transição para energias limpas não deixe ninguém para trás e contribua efetivamente para um futuro sustentável e próspero para toda a humanidade.